continuas aí

“continuas aí
uma fotografia em contínua revelação
maravilho-me quando emerges
líquida resplendecendo sob o vermelho
da câmara escura
estás aqui nas minhas mãos
toco-te acaricio-te
sinto as propriedades de quem vem
do fundo das entranhas de ser
és existes já
imprimindo tacto a toda a extensão
da pele o corpo move-se
numa autêntica nova forma.”

Palavras | Helder Magalhães (Nunca estiveste aqui, Edições Húmus, 2020)

Farrapos de sensações

“… a mente cheia, completamente cheia: pedaços de imagens irreconhecíveis e farrapos de sensações difusas misturando-se com fragmentos de passado e vislumbres de futuros que nunca se concretizarão (sonhos, acho que é como lhes chamam), memórias demasiado ténues (perenes, tão perenes que poderão ser imaginadas) de sorrisos e orgasmos e dores e toques e sabores e cheiros e carícias e choros e beijos e sons e mais sorrisos. Tudo indefinido e confuso, em constante movimento caleidoscópico; arrebatando-me e distraindo-me, devorando-me.”

Palavras | Paulo Kellerman (Francisco / Ângela, Chega de fado, Deriva , 2010)

Paulo Kellerman: 25 anos de literatura, 25 anos a criar beleza com as palavras

Água com Açúcar

“As mamas mal tapadas. Tapavam-se as almas porque ao corpo vendido resguardavam-se as entranhas.”

Uma imagem para um excerto de ÁGUA COM AÇÚCAR, romance de Ana Miguel Socorro

Quarta publicação da editora Minimalista

(encomendas pelo e-mail: minimalista.editora@gmail.com)

Lembrança

O movimento inicia lento,
sístoles e diástoles,
numa respiração eterna
que rege o ritmo do universo.
Cor, textura,
invisível aos olhos,
apenas respirável.
Dita com precisão o tempo dos meus dias

Fósforo

“Quando fiz seis anos, fui à escola. Dezassete anos depois, saí.

Sentia-me preparado. E, mais que isso, sentia-me ansioso. Passava os dias à espera que me chamassem, aguardando a minha vez.

Quando já desesperava, convocaram-me.

Nem quis acreditar. Verdadeiramente excitado, cheguei à fábrica e apresentei-me. Depois, tudo se precipitou. Mandaram-me para uma sala onde dezenas de outros aguardavam; começaram a chamar e fomos entrando nas caixas, escuras e apertadas.

Passaram meses. Então, alguém abriu a caixa, pegaram em mim e riscaram-me. Criei fogo. Sopraram-me e morri.

(O meu último pensamento: “Uma vida de preparação para isto!? Acabou tudo? Tão depressa?”).

Palavras | Paulo Kellerman (Miniaturas, Edições Colibri, 2001)

Paulo Kellerman: 25 anos de escritas

Fotografar palavras #2704

Não há abraço que me doa mais do que o silencioso que me amordaça as palavras. Um vilão obscuro das minhas noites. Conheci-o em tempos. Apaixonou-se por mim. Mas eu não correspondo. Visita-me de noite. Peço que não o faça. Ele resiste. Tem um pacto com a noite. A noite tem um preço. O preço de a dormir sem a sentir. Não o consigo pagar. A dívida acumula-se. A minha incapacidade de saldar a dívida tem sido a maior declaração de amor daquele abraço. O abraço silencioso que me amordaça as palavras.

Fotografar palavras
Projeto | Paulo Kellerman
Texto | Rita Rosa
Foto | Ana Gilbert

Luz

A luz da janela
sobe pelas folhas verdes
ao topo das árvores.

Yosa Buson (A borboleta e o sino)

Tradução: Sérgio Medeiros