
Os olhos marcados pelas luzes da cidade



Acordo sobressaltada de madrugada. Tento identificar alguma dor no meio deste mal-estar difuso, mas o que sinto é solidão. Estive sempre sozinha. E hoje não poderia ser diferente. A barriga de nove meses é acanhada, como que a desculpar-se por existir. E não deveria mesmo existir. O que aconteceu naquele momento era para ser esquecido. Mas não foi. Está aqui. Inteiro. Pulsante.
Algo se mexe por dentro: ossos se afastam, a estrutura se modifica, lenta. Pequeno terremoto interno. Queres nascer. Meu corpo quer te expulsar. A ti, que estiveste comigo durante estas trinta e oito bem contadas semanas. A cama está molhada e fria. As comportas se abriram e a água encharcou os lençóis. Respiro com dificuldade; os dedos tateiam a pele como olhos.
Levanto um pouco atordoada, sei de memória o que é preciso ser feito: mala, táxi, médico. Os gestos trêmulos percorrem a casa guiados apenas pela luz que entra da rua. Os pés descalços caminham, incertos, e sentem o incômodo áspero do piso.
Tenho medo. Acho que tenho muito medo.
Visto o casaco que foi da mãe. Lembro dela, evoco o seu cheiro e tento imaginar o que sentiu quando eu estava para nascer. Embrulho-me na lã gasta, tantas vezes lavada, e quero que ela me agasalhe como o meu ventre faz contigo. A mãe, mistura de cuidado e distância. Busco o retrato na gaveta. Desejo súbito de tocá-lo neste momento. Estamos as duas. Ela sorri comigo nos braços. Eu sorrio ao olhar a foto. Esforço-me por apreender o que é essencial; não sei se consigo. Retardo a saída, procuro adiar o inevitável.
Dentro do elevador, o espelho observa-me, insensível.
Quando chega o carro, vejo nos olhos do taxista as dúvidas sobre aceitar-me como passageira. É apenas um lampejo e, afinal, permite que entre no carro. Diminui o volume do rádio que despeja notícias da madrugada numa voz pastosa. O trajeto é feito de lembranças dispersas que deslizam pelos fios da iluminação urbana. Reparo nas janelas acesas e imagino vidas. Penso nos bebês que nascem neste exato momento; nos casais que trepam, ou discutem. Nas crianças que acordam de pesadelos e chamam pela mãe. Nas mulheres que sonham em voltar enquanto observam a vista. Voltar para onde?
O desconforto aumenta. A realidade me invade em contrações.
O táxi para diante da emergência do hospital. Percebo que o motorista quer me despachar logo, não vá ter que fazer um parto no meio da madrugada. E, ainda por cima, sujar o banco todo de sangue. Desço com dificuldade e me encaminho para a entrada. Sou recebida ainda na rampa e colocada numa cadeira de rodas. O edifício me engole e eu mal consigo engolir o choro.
Peregrino pelas salas, vou ouvindo coisas a meu respeito que não identifico bem. Sou tocada, perfurada, verificada, medida. Anônima em meio aos números. Distante de ser pessoa. Aperto as coxas involuntariamente. Por vergonha ou porque, agora descubro, não te quero perder. Penso que ainda é cedo; quero contar as histórias de que sou feita. Desenhar as fronteiras da tua existência. Saber-te na imagem refletida, ainda que eu não te possa ver; perceber a presença na ausência.
Ainda não sei como é ser mãe.
Sou despida das roupas e das palavras que balbucio ofegante sem ser ouvida. Faz frio e o lençol branco e brando que agora me cobre é como a luz infinita que existe na sombra. Os olhos são puro espanto. Mas ninguém repara. Sou um corpo desordenado, a reproduzir espasmos imemoriais que seguem um roteiro que me é desconhecido. O coração acelera com o esforço. O suor escorre. A dor que sinto existe para além do anteparo de pano azul que parece separar a parte instintiva da pensante. Penso o meu corpo ou ele me pensa a mim?
– Respira, força, falta pouco! – ouço.
Algo se rasga dentro de mim e o meu grito não tem som. É um grito feito de certeza e dor. A dor que é nada se comparada ao medo. Acordo para um outro estado de percepção. Sinto as ínfimas sensações. Frementes. O espaço ondula. Mãos trabalham no meu corpo e no teu. As minhas apertam com força as bordas da mesa. Os movimentos são intensos e eu perco o controle.
Nasces. Como um poema. Lápis em atrito, a despejar palavras desordenadas no papel. Arranhaduras de pele com pele, em abalos convulsivos. A sensação viscosa de morte iminente. A explosão que te leva a uma outra vida num mundo aterrador. Fio que se espalha e nos mantém unidas, mas que carrega o prenúncio da separação. Escrever é saber cortar. Nascer é aprender a ser só. Separada de mim. Apesar de mim. Comigo. Sorrio. Como se fosse a primeira vez. É a primeira vez. Para ti.
Leio-te em voz alta. Reconheço-te. Poema escorreito que desembocou na margem, enfim
(A hora, in A respiração do tempo, Minimalista, 2022)
.

a fantasia que nos separa.
[in A respiração do tempo, Minimalista, 2022]

Untouchable pt. 2 (Anathema)
Why I should feel this way?
Why I should feel this way?
Why I should feel the same?
Something I cannot say
Something I cannot say
Something I can’t explain
I feel you outside at the edge of my life
I see you walk by at the edge of my sight
Why I should follow my heart?
Why I should follow my heart?
Why I should fall apart?
Why I should follow my dreams?
Why I should follow my dreams?
Why I should be at peace?
I feel you outside at the edge of my life
I see you walk by at the edge of my sight
I had to let you go to the setting sun
I had to let you go and find a way back home
I had to let you go to the setting sun
I had to let you go and find a way back home
(When I dream, I see you)
(When I dream, I see you)
I’ve never seen a light that’s so bright
I’ve never seen a light that’s so bright
I’ve never seen a light that’s so bright
Blinded by the light that’s inside
Blinded by the light that’s inside
Blinded by the light that’s inside you
I had to let you go to the setting sun
I had to let you go and find a way back home

És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo, tempo, tempo, tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo, tempo, tempo, tempo
Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo, tempo, tempo, tempo
Entro num acordo contigo
Tempo, tempo, tempo, tempo
Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo, tempo, tempo, tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo, tempo, tempo, tempo
Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo, tempo, tempo, tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo, tempo, tempo, tempo
Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo, tempo, tempo, tempo
Quando o tempo for propício
Tempo, tempo, tempo, tempo
De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo, tempo, tempo, tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo, tempo, tempo, tempo
O que usaremos pra isso
Fica guardado em sigilo
Tempo, tempo, tempo, tempo
Apenas contigo e ‘migo
Tempo, tempo, tempo, tempo
E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo, tempo, tempo, tempo
Não serei, nem terás sido
Tempo, tempo, tempo, tempo
Ainda assim, acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo, tempo, tempo, tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo, tempo, tempo, tempo
Portanto, peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo, tempo, tempo, tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo, tempo, tempo, tempo
Canção: A Outra Banda da Terra e Caetano Veloso


“Mergulho. Mergulho mais fundo ainda e não encontro nada. E no entanto tu existes.”
Raul Brandão (Húmus)
“I dive in. I dive even deeper and find nothing. And yet you exist.”
(my translation)




Difícil falar de um pai. Difícil falar de um pai que faz 100 anos.

SUTILEZAS DO OLHAR | 7
Sete anos do blog, este lugar silencioso por onde as pessoas passam e deixam suas marcas, ainda que não se manifestem. Sim, sinto-as por cá e o anonimato é, de certa forma, fascinante.
O blog evoca um tempo sem tempo, a ideia de pausa ou de suspensão, como uma paisagem, onde nos demoramos antes de voltar à estrada.
Obrigada a todas e todos que olham por esta janela, que muitas vezes se vêem refletidos nela, que se permitem pausar e tentar apreender aquilo que nem sempre sei dizer.
“E consumida de linhas
Enovelada de ardência
Te aguardo às portas da minha cidade.”
Hilda Hilst (Cantares)

Seven years of the blog, this silent place where people pass by and leave their marks, even if they don’t express themselves. Yes, I can feel them here, and the anonymity is, in a way, fascinating. The blog evokes a timeless time, the idea of a pause or suspension, like a landscape where we linger before returning to the road.
Thank you to everyone who looks through this window, who often sees themselves reflected in it, who allows themselves to pause and try to grasp what I don’t always know how to express.

certas memórias existem apenas no corpo.
some memories exist only in the body.
Texto | Text: Ana Gilbert
Fotografia | Photography: Gunlög Mjörnheden
Fotografar Palavras, a casa que nos recebe. Um projeto criado pelo Paulo Kellerman em 2016.








130 anos



[engarrafamentos na memória]

da matéria de que é feito o amor

da matéria de que é feito o amor.