Outono

Choro de outono… quando o mundo perde seus contornos e em parte perdemos os nossos…

Mapas do Confinamento

O projeto MAPAS DO CONFINAMENTO é “um projeto trilingue que une os falantes de português com o intuito de desenhar uma cartografia do confinamento através da arte e da cultura.
Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé, Timor Leste e Diásporas de expressão portuguesa – Bélgica, França, Países Baixos, Reino Unido – são estes os “Mapas do Confinamento” que quase cem artistas, escritora .es, fotógrafa .os, ilustradora .es, poetas, tradutora .es – de todas as origens e sotaques – estão a construir coletivamente em português (mas traduzidos para francês e inglês porque o mundo também é feito de outros idiomas) como forma de assinalar este momento marcante da nossa História.”

Participo com um CONTO e um ENSAIO FOTOGRÁFICO .

NÓS (conto)

Não sei o teu nome, nunca tive coragem de perguntar. Mas somos vizinhas. De vida. Habitamos a mesma pele, ainda que muitos metros de tecido esgarçado nos separem. Não sei onde estás; passo pelos lugares de costume e vejo somente a tua ausência. Em que calçada te sentas agora?

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A SOMBRA DOS DIAS (ensaio fotográfico)

Fotografo a sombra dos dias para ter a certeza de que eles passam.

A sombra da saudade

ensaio completo disponível aqui

Catarse galáctica

Abeirou-se de mim e chorou. Era um homem. Olhou nos olhos, em silêncio, explodiu em catarse galáctica. Os carros pararam. Os semáforos enlouqueceram e as máquinas, essas, invadiram a mente humana e passaram a definir os nossos movimentos. Passámos a beber combustível e a defecar dióxido de carbono. O sorriso passou a um conjunto de luzes intermitentes, substituindo o vulgo lábio. Passámos a pesar menos. Emagrecemos as emoções e o ritmo. O ritmo também se emagrece. Passou a ser vestigial. Os ouvidos deram lugar a microfones que, de hora a hora, debitavam ordens de comando em busca do uníssono. O uníssono das máquinas. As mãos passaram a ser impressoras, imprimindo a cada cinco minutos o desempenho de cada um. O nariz rebelou-se e foi imediatamente fechado. O conceito de flor desapareceu. E o homem, esse, parou de chorar.

Fotografar palavras
Projeto | Paulo Kellerman
Texto | Rita Rosa
Foto | Ana Gilbert

Distanciamento social

“Distanciamento necessário ou social, respeitando a fila já acostumada ao nosso quotidiano. À minha frente, um livro gasto e cansado nas mãos de um rapaz que se adivinham beber-lhe a história. Ri-se apenas de olhos, franze o sobreolho, olha para o ar à sua volta na esperança de encontrar um olhar cúmplice e encontra. Ri-se apenas de olhos novamente. À sua frente constrói-se uma conversa de telemóvel sobre o futuro do dia que ainda é apenas de manhã. Atrás de si, eu, de ouvidos postos na música e de olhos postos no vazio da chuva que retoma a sua missão de repovoar o chão de gotas e os cabelos de água. A fila avança sem destruir as horas, já faz parte delas, como o tempo.”

Fotografar palavras
Projeto | Paulo Kellerman
Texto | Elisabete Neves
Foto| Ana Gilbert

Lembrança

O movimento inicia lento,
sístoles e diástoles,
numa respiração eterna
que rege o ritmo do universo.
Cor, textura,
invisível aos olhos,
apenas respirável.
Dita com precisão o tempo dos meus dias

Luz

A luz da janela
sobe pelas folhas verdes
ao topo das árvores.

Yosa Buson (A borboleta e o sino)

Tradução: Sérgio Medeiros

Vermelho

Vermelho-sangue, vermelho-vida, vermelho-alma, vermelho-irmandade, vermelho-encontro, vermelho-gente… aqui, lá, em qualquer lugar…

Fotografar palavras #2677

“Hora para acordar. Vivemos prisioneiros da horas. Hora para defecar. Vivemos prisioneiros da horas. Hora para tomar o pequeno almoço. Vivemos prisioneiros da horas. Hora para apanhar um transporte. Vivemos prisioneiros da horas. Hora para começar a trabalhar. Vivemos prisioneiros da horas. Hora para tomar um café. Vivemos prisioneiros da horas. Hora para regressar ao trabalho. Vivemos prisioneiros da horas. Hora para almoçar. Vivemos prisioneiros da horas. Hora para voltar ao trabalho. Vivemos prisioneiros da horas. Hora para largar o trabalho. Vivemos prisioneiros da horas. Hora para ir para casa. Vivemos prisioneiros da horas. Hora para… Hora para tudo e para nada. Até existe a hora da morte. Já não somos prisioneiros…”

Fotografar palavras
Projeto | Paulo Kellerman
Texto | Vitor Vieira
Foto | Ana Gilbert

Medo

“eu tenho medo de abrir a porta que dá pro sertão da minha solidão “

Belchior (Pequeno mapa do tempo)

Fotografar palavras #2663

É sempre um desafio receber um texto (desconhecendo a autoria) e fazer uma leitura fotográfica das palavras. Muitas imagens surgem, mas apenas uma (às vezes, mais de uma) vai se coagular como fotografia. Este é o exercício criativo diário do Fotografar palavras, de Paulo Kellerman, projeto vigoroso e estimulante que reúne fotógrafos e escritores em torno do fascínio por palavras e imagens.

Hoje, mais uma nova parceria:

“Hoje caminhei por entre os teus pés sem que os pisasse. Não deste por mim. Respirei-te no mesmo compasso que faz dos dias noites. Não me sentiste. Fiz-me escura na brancura da tua pele, quando se encheu de luz. Persegui-te. Tentei libertar-me de ti. Não permitiste, continuaste a encher-te de luz, mesmo na podridão do dia acabado, no artificial do teu leito. Fixei-me sobre as palavras que lias, murmurei-as contigo, sem que me ouvisses. Fiz-te cansar sobre o desvanecer das horas e finalmente apagaste a luz. E finalmente fui.”

Texto: Elisabete Neves
Foto: Ana Gilbert

Primeiros azuis do ano…

“Porque não lembramos o que vimos da primeira vez que olhámos, da primeira vez que os nossos olhos se abriram para o mundo e fizeram a sua primeira focagem?”

“Recordamos tantas primeiras coisas. Mas não a primeira vez que olhámos, que cheirámos, que tocámos; que sorrimos. Como podemos esquecer o primeiro sorriso?”

Paulo Kellerman (Aviões de papel)

Uma edição Minimalista