

Se fosse aguaceiro
Caía em ti como pena
Como cena de filme.
Como película
Que desvenda
Sopros no peito.
Leitos.


Se fosse aguaceiro
Caía em ti como pena
Como cena de filme.
Como película
Que desvenda
Sopros no peito.
Leitos.

“I am made of volcanic ash
where pipe dreams and grief marry and clash”
words: Ana Sofia Elias
[there are people who reflect and unfold us, who share wings and shadows]

“A memória não lhe veio aos poucos, despencou como uma avalanche na sua cabeça”.
Ghassan Kanafani (Retorno a Haifa)

a impossibilidade de narrar o que se vê.
[isto também é sobre Gaza]

Era uma vez um professor de filosofia que repete as mesmas ideias turma após turma, como se fosse uma gravação e não estivesse realmente ali, de corpo e alma. A gravação refere-se ao mito de Sísifo. Explica a voz, distanciando-se do corpo, como um certo rei fora punido com o castigo eterno de erguer uma pedra gigante até ao cimo de uma montanha, apenas para depois a ver deslizar montanha abaixo, até ao ponto de partida. Explica a voz, mecânica e sem vida, como o rei repetia aquela tarefa vez após vez, apesar de saber que o desfecho seria sempre o mesmo, e o propósito inútil. Explica a voz, cansada e apática, como aquela conformação do rei em repetir uma tarefa sabendo qual a sua conclusão e irrelevância poderia ser uma metáfora poderosa do destino dos humanos, condenados a repetirem tarefas que não compreendem e não controlam. Explica a voz, desinteressada do que diz, algumas das implicações filosóficas possíveis de especular a partir da postura do rei castigado, e como poderiam ter ressonância em todas as pessoas que as especulassem, incluindo os jovens que se encontram à sua frente.
– E a pedra?
A gravação emperra. A interrupção é inesperada, e a voz vê-se forçada a suspender o discurso automático. Há silêncio na sala de aula.
– Todo o foco está no rei. Mas e a pedra?
A turma agita-se, o professor pede explicações.
-Talvez o protagonista do mito não seja o rei e a sua teimosia absurda. Talvez o que importa realmente seja a pedra, e o seu comportamento. Porque insiste em regressar sempre ao ponto de partida? Não pode ser apenas por força da gravidade ou assim. Isso seria uma explicação científica, e os mitos não são lugares de ciência. Para mim, acho que é por resistência. O rei é teimoso, a pedra é resistente. Ou seja, a pedra tem mais personalidade do que o rei.
É a sétima aula do dia. E a primeira vez que o professor sorri.

as paredes pulsam histórias.
(A sonhadora, 2022)
[por seres tão inventivo | e pareceres contínuo | tempo, tempo, tempo, tempo | és um dos deuses mais lindos – Caetano Veloso]














‘Passar música’ é uma arte que o Jorge VAz Dias domina com perfeição. Desde o aquecimento do ambiente, momento em que as pessoas estão entretidas nas conversas em pequenos grupos, até o ápice onde os corpos conversam na pista de dança, num contágio mútuo, levados pela energia incrível do Jorge.
Um obrigada gigante ao @djcut_s por essa noite e pela generosidade em se deixar fotografar. E ao @osfilipesbar, por ser espaço de materialização dessa força coletiva.


ainda és capaz de sentir?
[isto também é sobre Gaza]

Fecho os olhos. E aguardo.
O clique acontece por dentro e o dedo aciona o disparador.
Não sei o que fotografei.
(nunca sei. iludo-me.)
I close my eyes. And wait.
The click happens within, and my finger presses the shutter button.
I don’t know what I’ve captured.
(I never do. I delude myself.)



a construção das delicadezas.
a ilustração da flor é da Maraia
a materialização da caixa é da Eliana do Yume Ateliê & Design
o design é do Licínio Florêncio
os textos e as fotos são nossos
Paulo Kellerman e Ana Gilbert
as encomendas são pelo email: ana.cbgilbert@yahoo.com
tiragem limitada, exemplares numerados
edição bilíngue [bilingual edition]


“É difícil aprender a ser”
Hellington Vieira (rua nove casa vinte e um)

Prosthetic wings.


Observa: olhos como dedos, dedos que querem tocar.

a recusa que nos separa.

Até o silêncio teimava em fugir.
Even silence stubbornly tried to flee.
Texto | Text: Mónia Camacho
Fotografar palavras, a nossa casa poética. Desde 2016. Criação e curadoria: Paulo Kellerman


Pestanejamos nimbos e naipes inventraçados.
Simples escovadoras
a perolizar
a capela sistina
das palavras.
Escovamos com pestanas opala-arlequim.
Cardealinas, sangue-de-Adão.
Assim nascem(os) sonhos e perolices.
Poema | Ana Sofia Elias