

A sombra da tristeza.


A sombra da tristeza.

“Talvez seja isso o amor: a sensação de que ainda falta dizer tudo, apesar de tudo já ter sido dito.”
Fotografar palavras
Projeto e texto | Paulo Kellerman
Foto| Ana Gilbert


“To give, indefinitely, to our human finitude, a form that is never definitive.”
Didier Anzieu (The skin-ego)

“14 dias a conta gotas. Cada dia é uma gota. 24 horas a cair e a desaparecer. Gosto de fingir que não entendo a sua finitude, a sua não importância, explicando-a desta forma: 24 horas a cair e a desaparecer. Afinal, o que é uma gota num oceano? É um oceano mais uma gota. Simples.
Lá fora, o frio e as feridas em sangue, em patas que já não suportam o peso. Amor sem retorno que já não se queixa de dor. Cá dentro, a lareira, dois gatos e a falsa sensação de calor. Do outro lado da rua, a insegurança. O tempo em modo decrescente. Fora dos limites geográficos do meu ninho, a ideia vaga de um oxigénio rarefeito em bolha de marfim. Impossível de respirar. O marfim é uma pedra. A pedra não tem pulmões. Nem cérebro. Nem coração. Tem apenas um corpo frio e duro. Um corpo sem pulmões não mexe. Move-se apenas com a ação conjugada de forças, mas não dança.
24 horas a cair e a desaparecer. Os meus dias em forma de gota. A ideia bonita dos dias transformados num imenso azul. É nisso que me detenho enquanto violento as insónias, quase diárias. Talvez assim custe menos ignorar a trágica ideia da gravidade. Recordo a ironia da maçã na vida de Newton. Poderia ter sido uma laranja, mas não foi. Uma melancia certamente seria uma falácia científica. Não levaria a lado nenhum. As melancias crescem na terra. As abóboras também. Ambas flores de uma terra que engole e deglute, mais tarde, corpos que não são pedras. Muito menos pedras de marfim. Essas ficam inalteráveis. Corpos quentes e moles. Corpos providos de pulmões que respiram. Uma idiossincrasia humana, enquanto a sorte o ditar. Questiono-me se os pensamentos também podem cair e desaparecer. A Elis Regina e o Nick Cave no gira-discos e um estômago alérgico a noticiários, dizem-me que sim.”
Fotografar palavras
Projeto | Paulo Kellerman
Texto | Rita Rosa
Foto | Ana Gilbert

Esta foto está na Revista Pausa na Rede| Expressões artísticas em tempos de quarentena (2a. edição 2020)
@casa_clic
Revista completa: https://alegrar.com.br/suplemento-26/

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(obrigada, Francisco, por aceitares o desafio. Obrigada, Paulo, pela acolhida)

“Incomoda-te a minha sombra? Ou a minha luz?”
Fotografar palavras
Projeto | Paulo Kellerman
Texto | Ana Gilbert
Foto| João Oliveira


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Fotografo a sombra dos dias para ter a certeza de que eles passam.

“blinded by the light that’s inside” | (Untouchable, Part 2, Anathema)


A minha casa é feita de luz e sombra, ausência e dor.


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“avisto a extensão de negro em que depositas
o teu coração em forma de palavras
e perco as minhas pupilas para o mar:
troco as barcas por barcos
visto os pássaros de asas gigantes
agito as águas
empresto sopros ao vento…
às vezes o ondeado das dobras da seda
negro em filamentos entremeados de luz
não deixa ver a inclinação do eixo que diz das tuas estrelas”
Palavras | Isabel Pires (a permanência da memória dos dias de sal)


“Agora, no escuro, os objectos iluminam-se por dentro, tornando clara a nossa solidão.”
Palavras | Al Berto (O anjo mudo)


“Prefiro as palavras obscuras que moram nos
fundos de uma cozinha – tipo borra, latas, cisco
Do que as palavras que moram nos sodalícios –
tipo excelência, conspícuo, majestade.
Também os meus alter egos são todos borra,
ciscos, pobres-diabos
Que poderiam morar nos fundos de uma cozinha – tipo Bola Sete, Mário Pega Sapo, Maria Pelego Preto etc.
Todos bêbedos ou bocós.
E todos condizentes com andrajos.
Um dia alguém me sugeriu que adotasse um
alter ego respeitável – tipo um príncipe, um
almirante, um senador.
Eu perguntei:
Mas quem ficará com os meus abismos se os
pobres-diabos não ficarem?”
Palavras | Manoel de Barros (Ensaios fotográficos)

“E, de seguida, senti os seus dedos tocarem-me ao de leve, enchendo de tinta negra os contornos da minha cabeça.”
Palavras | Al Berto (O anjo mudo)

“A vida acontece depois do medo.” (anônimo)