Ecos no coração da terra

Eu pronuncio esta palavra como se não fosse de minha língua. É uma palavra que tem textura, é rugosa, fere, menospreza. Vergonha.

Rafael Azevedo (Ecos no coração da terra, Kotter Editorial, 2021)

Um livro de tirar o fôlego, que provoca imagens, inúmeras imagens. Fragmentos que, aos poucos, nos revelam sua costura e o avesso da costura. Jogos de luz e sombra, fascinantes e hipnóticos. Viciantes e peçonhentos.
Um mergulho na alma humana: almas individuais, alma familiar, alma coletiva. Vida e morte; decadência e libertação.

Conversas Literárias

Conversa sobre o livro Água Viva de Clarice Lispector

O evento contará com a participação das integrantes do Instituto Junguiano do Rio de Janeiro (IJRJ):

Sigrid Haikel, Maria Lúcia Lorêdo, Áurea Torres e Ana Gilbert

Dia 01 de Outubro de 2021| Sexta-feira, de 14h às 16h.

Valor simbólico de R$ 25,00 que será revertido para Casas das Palmeiras – Nise da Silveira

Informações e inscrições aqui ou no site do IJRJ

O mundo…

O mundo vive pra dentro, cegando-se ao sol do sonho.”

João Gilberto Noll (Mínimos, múltiplos, comuns, 2003)

Raio de sol

Um raio de sol espreita pela janela, fere-me a pele. Acordei há muito tempo mas ainda não fui capaz de abrir os olhos; porque quando o fizer, terei que enfrentar o mundo.

Paulo Kellerman (Diz-me o teu nome, pergunta-me o meu, Gastar palavras, Deriva, 2005)

Paulo Kellerman, 25 anos de escritas poéticas

Fotografar palavras #2865

Agora é a tua vez de partir.

Peço que me leves apenas em quantidade suficiente para respirar. Mais que isso, ocupará espaço e tu precisas do vazio para caberes sem aperto. Não te permitas a chorar. Se o fizeres, limpa-te com as memórias que te lembram como eras infeliz. Acredita num sol que aquece e num vento que adormece. Não aceites a rotina de uma ideia: é cortante e dilui-se no primeiro copo de vinho. Afasta-te das palavras fáceis. Escreve-as e queima-as. A facilidade nunca foi um bom augúrio. E depois, esquece-me.

Fotografar palavras
Projeto | Paulo Kellerman
Texto | Rita Rosa
Foto | Ana Gilbert

Mapas do Confinamento

O projeto MAPAS DO CONFINAMENTO é “um projeto trilingue que une os falantes de português com o intuito de desenhar uma cartografia do confinamento através da arte e da cultura.
Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé, Timor Leste e Diásporas de expressão portuguesa – Bélgica, França, Países Baixos, Reino Unido – são estes os “Mapas do Confinamento” que quase cem artistas, escritora .es, fotógrafa .os, ilustradora .es, poetas, tradutora .es – de todas as origens e sotaques – estão a construir coletivamente em português (mas traduzidos para francês e inglês porque o mundo também é feito de outros idiomas) como forma de assinalar este momento marcante da nossa História.”

Participo com um CONTO e um ENSAIO FOTOGRÁFICO .

NÓS (conto)

Não sei o teu nome, nunca tive coragem de perguntar. Mas somos vizinhas. De vida. Habitamos a mesma pele, ainda que muitos metros de tecido esgarçado nos separem. Não sei onde estás; passo pelos lugares de costume e vejo somente a tua ausência. Em que calçada te sentas agora?

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A SOMBRA DOS DIAS (ensaio fotográfico)

Fotografo a sombra dos dias para ter a certeza de que eles passam.

A sombra da saudade

ensaio completo disponível aqui

A sombra

De súbito, penso que o corpo existe sem mim, sem essa dimensão pensante que escreve. Penso que ele abriga todas as palavras inventadas e as vai libertando, uma a uma, para que eu as utilize. Eu, mero instrumento de sua linguagem. Eu, identidade exagerada pela razão.”
.
Excerto do meu conto ‘A SOMBRA’ para a Antologia Crocitar de Lenore, 2021.


A Antologia Crocitar de Lenore reúne releituras contemporâneas dos poemas ‘O CORVO’ e ‘LENORE’, de Edgar Allan Poe.
É um ebook editado pela Morse Laboratório Editorial de distribuição livre e gratuita. Pode ser acessado e baixado aqui.

Fotografar palavras #2633

“14 dias a conta gotas. Cada dia é uma gota. 24 horas a cair e a desaparecer. Gosto de fingir que não entendo a sua finitude, a sua não importância, explicando-a desta forma: 24 horas a cair e a desaparecer. Afinal, o que é uma gota num oceano? É um oceano mais uma gota. Simples.

Lá fora, o frio e as feridas em sangue, em patas que já não suportam o peso. Amor sem retorno que já não se queixa de dor. Cá dentro, a lareira, dois gatos e a falsa sensação de calor. Do outro lado da rua, a insegurança. O tempo em modo decrescente. Fora dos limites geográficos do meu ninho, a ideia vaga de um oxigénio rarefeito em bolha de marfim. Impossível de respirar. O marfim é uma pedra. A pedra não tem pulmões. Nem cérebro. Nem coração. Tem apenas um corpo frio e duro. Um corpo sem pulmões não mexe. Move-se apenas com a ação conjugada de forças, mas não dança.

24 horas a cair e a desaparecer. Os meus dias em forma de gota. A ideia bonita dos dias transformados num imenso azul. É nisso que me detenho enquanto violento as insónias, quase diárias. Talvez assim custe menos ignorar a trágica ideia da gravidade. Recordo a ironia da maçã na vida de Newton. Poderia ter sido uma laranja, mas não foi. Uma melancia certamente seria uma falácia científica. Não levaria a lado nenhum. As melancias crescem na terra. As abóboras também. Ambas flores de uma terra que engole e deglute, mais tarde, corpos que não são pedras. Muito menos pedras de marfim. Essas ficam inalteráveis. Corpos quentes e moles. Corpos providos de pulmões que respiram. Uma idiossincrasia humana, enquanto a sorte o ditar. Questiono-me se os pensamentos também podem cair e desaparecer. A Elis Regina e o Nick Cave no gira-discos e um estômago alérgico a noticiários, dizem-me que sim.”

Fotografar palavras
Projeto | Paulo Kellerman
Texto | Rita Rosa
Foto | Ana Gilbert