
“Invento para me conhecer.”
Manoel de Barros (Menino no mato)

“Invento para me conhecer.”
Manoel de Barros (Menino no mato)

“Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.”
Palavras | Orides Fontela (Poesia reunida)

“Um ar que sabia a luz e que rangia a cristal…”
Palavras | Mário de Sá-Carneiro

[só]
Poeta só.
Porque só é a solidão de um poema.
Nevoeiro é o que vejo dentro do peito.
Rarefeito o racional, banal o carnal.
Bacanal de emoções vãs.
Só está a solitude de uma prosa.
Nua de versos ou ritmos.
Crua e incerta
inserta a solidão no poeta.
Fico só com estas letras.
Chove do lado de fora da janela,
dentro do peito só nevoeiro,
orvalho e melancolia.
Só.
Fotografar palavras
Projeto | Paulo Kellerman
Texto | Andreia Marques
Foto | Ana Gilbert

“Repara na lentidão do adeus”

“Repara na suspensão do adeus”
Palavras | Filipa Leal (Vem à quinta-feira)

“limpar o mundo é uma tarefa que o amor faz muito bem
sem que ninguém lhe peça
faz por si
acontece
basta existir para que se veja beleza mesmo no que não tem beleza
e isso não é um faz-de-conta
basta existires para saber o caminho
sem esforço
e isto não é uma fantasia”
Fotografar palavras
Projeto | Paulo Kellerman
Texto | Isabel Pires
Foto | Ana Gilbert

“The end is where we start from.”
T. S. Eliot (Little Gidding, Four Quartets)

“The river is within us, the sea is all about us.”
T. S. Eliot (The dry salvages, Four quartets)

“escutar
de todo o modo
é prece”
Palavras | Valter Hugo Mãe (Publicação da mortalidade)

“E só me veja”
Palavras | Hilda Hilst (Cantares do sem nome e de partidas)

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“o amor sabe sempre a novo barrado de familiaridade
um estremecimento
como o verão que há dentro do outono ou aquela brisa que há dentro do verão
braços de quente e luz a inundar o peito
como se fora o brotar de flores num campo seco
os lábios a chegarem-se aos teus
uma inquietação
a pele a vestir-se de água
um sorriso um grito murmúrios
em chão de silêncio”
Fotografar palavras
Projeto | Paulo Kellerman
Texto | Isabel Pires
Fotos| Ana Gilbert


“Tens a medida do imenso?
Contas o infinito?
(…)
Tens a medida do sonho?
Tens o número do Tempo?”
Palavras | Hilda Hilst (Cantares de perda e predileção)

“escrevo no teu corpo com as mãos
escrita trêmula, a princípio
firme, depois
inscrevo-me na tua pele
e mais fundo.
memorizo teus poros, percorro geografias,
lentamente.
aquilo que conhecerei de ti me será contado pelos meus dedos
para que possa sonhar contigo.
saberás o sonho.”
…
Fotografar palavras
Projeto | Paulo Kellerman
Texto | Ana Gilbert
Foto| Maria João Alves

“Eu no espelho:
atentas, nós duas,
rostos que excedem nossa imagem,
estendemos a mão, espalmamos os dedos nesse pó
de gelo. Sabemos: quando eu mergulhar daqui,
e do seu lado, ela,
hão de girar ao sopro da voragem
todos os meus sonhos, e os sonhos dela.
Labirinto de espelhos, reflexos de reflexos,
eu e ela continuamos sós.”
Palavras | Lya Luft (Mulher no palco)

“Se te pareço ausente, não creias:
hora a hora minha dor agarra-se aos teus braços,
hora a hora meu desejo revolve teus escombros,
e escorrem dos meus olhos mais promessas.
Não acredites nesse breve sono;
não dês valor maior ao meu silêncio;
e se leres recados numa folha branca,
não creias também: é preciso encostar
teus lábios nos meus lábios para ouvir.
Nem acredite se pensas que te falo:
palavras
são meu jeito mais secreto de calar.”
Palavras | Lya Luft (Mulher no palco)

se eu tivesse que escolher uma cor para as tuas palavras seria o cinza.
não pelo negrume da tristeza. bonito esse teu negrume. seria pela calma. é isso. pela calma que me trazes às margens das manhãs ou das tardes.
conforme a inclinação do sol.
as tuas palavras só não têm a cor branca porque não as descobriria nesta folha.
mas são brancos, esses bordados de luz que te escorrem entre os dedos.
Palavras | Isabel Pires (a permanência da memória dos dias de sal)

“Se te pudesse respirar
inspirava-te…
Ou então temporizava-te
para o teu coração gritar
quando me soprasses
na alma.”
Fotografar palavras
Projeto | Paulo Kellerman
Texto | Rute Violante
Foto| Ana Gilbert


Nada-ninguém-azul.