
“Ah, não retires de mim a tua mão.”
Palavras | Clarice Lispector (A paixão segundo G.H.)

“Ah, não retires de mim a tua mão.”
Palavras | Clarice Lispector (A paixão segundo G.H.)

Ando em busca dos fragmentos de mim como naqueles quebra-cabeças de infinitas peças.
Das coisas fascinantes do Projeto Fotografar palavras do escritor Paulo Kellerman: receber um texto para fotografar e, quando da publicação, descobrir que ele já compõe uma narrativa com outra foto e que a minha foto se alinha e complementa essa narrativa com surpreendente harmonia de elementos.

[dum lugar íntimo do desencanto]
todos os nossos passos decolam em direção ao caos
eu até parece que danço — mas condenso, só
eu até parece que passo — mas espaço, só
…
Texto | calí boreaz
Foto de partida: Nita Ferreira
Foto de chegada: Ana Gilbert

Sente o que os olhos apenas suspeitam.


Junto palavras como cacos, pedaços de mim que se perderam no tempo, que esvoaçam levados pela brisa, que se perpetuam nos ecos do mundo.

“A barca vai longe
O rio é turvo
Os peixes são muitos
O rio para
O rio escuta
Lodo e lama
O remo firma
O barco corre
De costas
Pequeno passarinho
Pousa em minha janela
E olha
E mira
Rechaço
Não traz folha de oliveira
Nem terra
Traz água, amigo
Traz mar
E voa”
Projeto | Paulo Kellerman
Palavras | Lorena Kim Richter

“As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.
Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.”
Palavras | Carlos Drummond de Andrade

“Eu te pareço louca?
Eu te pareço pura?
Eu te pareço moça?
Ou é mesmo verdade
Que nunca me soubeste?
Palavras | Hilda Hilst (De amor tenho vivido)

I
Tentava escrever
com a minha mão direita,
com a minha mão esquerda, alma corpo inteiro
[a casa, os movimentos da casa, a casa]
o osso aparente
a vértebra em silêncio,
a côdea dura do lume apagado. Tentava escrever o resíduo
a dobra da cal
descosida da sombra, a sépia
como se em silêncio o vestígio da casa
pudesse acontecer
enquanto
escrevia. E escrevia
escrevia a janela, a luz, a pedra, a brisa
o sopro da cinza vaga do livro
[era azul poema, o livro]
a mesa aberta às sobras do norte, a poalha
transparente
o sopro agitado
[nesse lume obediente]
que sabe como arder na manhã áspera
devagar. Escrevia
II
e enquanto tentava escrever
acontecia
a casa.
…………
de | esboço para | a casa
Palavras: Breve Leonardo

“O que fazer se a morte é um eterno estado de consciência, restrito a observar em silêncio essa escuridão?”
Palavras | Haruki Murakami (Sono)
…
da palavra à imagem, da imagem à palavra
…
Perdida
no vazio das coisas
no azul dos ladrilhos
só
em meio ao ruído
abafado da música
desconexo das pessoas.
Palavras | Ana Gilbert

“Como fazes quando precisas tocar as tuas próprias memórias? Tocar-lhes mesmo, com a ponta dos dedos?”
Palavras| Paulo Kellerman
…
da palavra à imagem, da imagem à palavra
…
quero tocar-me.
a minha pele
onde guardo as memórias,
(quais?)
nela, o que sei de mim
toco-me.
mas a pele é inalcançável,
etérea,
presença feita de luz
toco-me.
mas é superfície fria contra a pele quente
(sinto)
invento lembranças marcas feridas
e flores
toco-me.
no lugar onde não posso estar
(presença fugidia)
para, quem sabe,
existir em mim.
Palavras| Ana Gilbert

[…]
na alma
nem todo vento
sopra na igualdade
na calma
nem todo tempo
se repete de verdade
ou isso só acontece
aqui dentro de mim?
Palavras | Lino Mukurruza (Almas em tácitas)