
“Antes longe era distante
Perto, só quando dava
Quando muito, ali defronte
E o horizonte acabava”
Gilberto Gil

“Antes longe era distante
Perto, só quando dava
Quando muito, ali defronte
E o horizonte acabava”
Gilberto Gil

What if the body heard everything the imagination thinks and creates? What if the body fulfilled everything that… Ah, what if…
Paulo Kellerman & Ana Gilbert | Portable link

O blog FOTOGRAFAR PALAVRAS comemora 9 anos neste mês de agosto.
Criado pelo querido amigo Paulo Kellerman e cuidado por tod@s nós, o projeto é uma casa artística que nos abriga e alimenta em tempos sombrios.
Espaço de resistência poética, o blog une fotógrafos e escritores no amor partilhado por palavras e imagens. É uma galeria de arte que nos oferece a oportunidade de contemplação silenciosa; um outro tempo, fora da volatilidade das redes.
Visitem; há muito o que ler e ver por lá.
A parceria de hoje na publicação # 5274 é com o Paulo:
Disse: o mundo está a desmoronar e ninguém o pode impedir. Disse: essa sensação de impotência é tão dolorosa. Disse: gostaria muito que alguém pudesse reverter as desgraças que vemos dia após dia. Disse: mas já não acredito mais que isso seja possível. Disse: o mundo está a morrer e ninguém pode fazer nada.
Respondi: então agora sabes como deus se sente desde que o mundo existe. Agora sabes como é ser deus. Gostas?
***
He said: the world is collapsing and no one can stop it. He said: this feeling of powerlessness is so painful. He said: I wish so much that someone could reverse this disgrace that we see day after day. He said: but I no longer believe it’s possible. He said: the world is dying and nobody can do anything about it.
I replied: so now you know how god has felt since the world existed. Now you know what it’s like to be god. Do you like it?
Texto | Text: Paulo Kellerman


Se fosse aguaceiro
Caía em ti como pena
Como cena de filme.
Como película
Que desvenda
Sopros no peito.
Leitos.

“Fui sonhada por ti.”
José Eduardo Agualusa (Manual prático de levitação)

“I am made of volcanic ash
where pipe dreams and grief marry and clash”
words: Ana Sofia Elias
[there are people who reflect and unfold us, who share wings and shadows]

Acaso é este encontro
entre o tempo e o espaço
mais do que um sonho que eu conto
ou mais um poema que eu faço?
Paulo Leminski (Toda poesia)

“Morar não significa apenas estar cercado por qualquer coisa, nem ocupar determinada área no espaço terrestre. Significa criar um vínculo tão intenso com certas coisas e certas pessoas que a felicidade e a nossa respiração se tornam inseparáveis.”
Emanuele Coccia (Filosofia da casa)



antes do poema
está a fome
durante o poema
a matança
Valter Hugo Mãe (publicação da mortalidade)

A tua ausência tornou-te mais real, mais autêntica. Percebes isto?
Text(o): Paulo Kellerman

“É sempre por rizoma que o desejo se move e produz.”
Deleuze e Guattari
[intervenção em fotografia]

a impossibilidade de narrar o que se vê.
[isto também é sobre Gaza]

a do encontro









uma câmera
um rolo de filme
dois fotógrafos
Frankie Boy fotografou Ana Gilbert
Ana Gilbert fotografou Frankie Boy
escreveram com luz
com palavras
fragmentos de tempo
atravessamentos de histórias
encontro
***
a camera
a roll of film
two photographers
Frankie Boy photographed Ana Gilbert
Ana Gilbert photographed Frankie Boy
they wrote with light
with words
fragments of time
interweaving of stories
encounter


Crescer nos acentos perpétuas cobras d’água e logo a seguir
para que o ciúme não te adelgace
Pela cauda desengomo-te virgulados alguns actos
entre uma mornura de focinhos islandeses
{rafeiras arfadas}
e o inteira me prumares recatada.
Tibar-nos, como se tiba a latina linguagem, julgo branco e impossível.
Texto da Ana Sofia Elias e foto minha
[do nosso baú imaginado de imagens e palavras ardentes]

as paredes pulsam histórias.
(A sonhadora, 2022)
[por seres tão inventivo | e pareceres contínuo | tempo, tempo, tempo, tempo | és um dos deuses mais lindos – Caetano Veloso]

medo. a dominação que nos separa.
[ensaio com Ana Sofia Elias]



Elas, mulheres algodoeiras do mar
Estendidas por uma vasta praia
-com bosques dourados, falésias amaciantes, templos, rios, lagos e estradas sem cavalos voadores ou torangeiras, onde palácios vermelhos, jardins suspensos e torres de cúpulas brancas espelhavam as nossas malváceas damascenas –
Nessa praia, estas palavras.
De musselina tridente
têm-nos presas a nenhum lírio fixo.
Pequenas mordidelas atlântidas
de plâncton saciante
que não ficaram presas ao anzol de frésia.
Deitadas, agachadas, hirtas
como a renda que ainda não madrugou na água
Mulheres algodoeiras do mar
colhem palavras abracadabrantes
O poema acontece na costura a linha de peixe
onde penduram pedras preciosas, quase invisíveis.
E o som é de figo maduro tragado a meia romã
Porque é na Pangeia da manhã
que se provam as despedidas e os orvalhos.
*****
Them, cotton-harvester women of the sea
Spread across a vast shore
—with golden woods, softening cliffs, temples, rivers, lakes,
and roads untraveled by flying horses or grapefruit trees, where crimson palaces, hanging gardens, and white-domed towers
mirrored our damascene mallows—
On that shore, these words.
Of trident muslin,
they keep us bound to no fixed lily.
Small Atlantidean nibbles
of satiating plankton
never caught on a freesia fishhook.
Reclining, crouched, upright—
like lace not yet awakened in water—
Cotton-harvester women of the sea
gather abracadabra-like words.
The poem takes shape along the fishline-made seam
where they hang near-invisible gems.
And the sound is that of ripe fig
swallowed with half a pomegranate—
For it is in each morning’s Pangaea
that farewells and dewdrops are tasted.
Texto | Text: Ana Sofia Elias (com interferência de | with interference by Ana Gilbert)
Fotografia | Photography: Ana Gilbert (com interferência de | with interference by Ana Sofia Elias)
FOTOGRAFAR PALAVRAS, projeto desenhado pelo Paulo Kellerman, é casa para imaginar e criar.
Diariamente, desde 2016.

I look like a Barbie
but feel like a poet.
Ana Sofia Elias (Uca, 2024)
[Uca é viagem demorada, sem volta. Desdobra-nos pelo caminho e já não conseguimos refazer o origami que um dia fomos]