
“Sou extremamente tátil.”
Palavras | Clarice Lispector (Um sopro de vida)

“Sou extremamente tátil.”
Palavras | Clarice Lispector (Um sopro de vida)

“Importa-se de parar de olhar para mim?”
Palavras | Paulo Kellerman
(reflexões sobre o olhar e a diferença, a partir do conto de mesmo nome, aqui)

“Lê a energia que está no meu silêncio.”
Palavras | Clarice Lispector (Água viva)

“Podes fechar a cortina do quarto.
É no escuro, que te verei melhor.”
Projeto: Paulo Kellerman
Texto: Clara Vales
Foto: Ana Gilbert

“Capta essa coisa que me escapa e no entanto vivo dela.”
Palavras | Clarice Lispector (Água viva)

“… no fundo, não passávamos de duas massas solitárias de metal em suas próprias órbitas separadas. À distância, parecem belas estrelas cadentes, mas, na realidade, não passam de prisões, em que cada uma de nós está trancada, sozinha, indo a lugar nenhum. Quando as órbitas desses dois satélites se cruzam, acidentalmente, podemos estar juntas. Talvez, até mesmo, abrir nossos corações uma à outra. Mas só por um breve momento. No instante seguinte, estaremos na solidão absoluta. Até nos queimarmos completamente e nos tornarmos nada.”
Texto | Haruki Murakami (Minha querida Sputnik)

a dança é como um transbordamento de mim…


“Promete, vais ser minha para sempre.“
Murmuravas-me ao ouvido enquanto te apoderavas de cada milímetro meu… Sentia-te a ser tudo o quanto podias, e eu era a felicidade a perecer de exaltação.
O meu silêncio nos teus gemidos, as tuas palavras largadas na intensidade “Promete, vais ser minha para sempre.”
Amava sentir a tua exortação, a tua avidez pelo meu corpo, acreditando que se estendia até à alma.
Mas as promessas são de uma fragilidade imensa, e não se promete o que é impossível deixar de existir. Esperava um sempre que não se alimentasse somente de mim, onde não vivesse sozinha o que ia além da carne.
A minha carne impossível de distinguir da tua, perfeitamente sincronizadas numa agitação que de tão espontânea nos dissolvia por inteiro no mais anestesiante dos prazeres.
Regressávamos, deixando lentamente de nos tocar, apaziguando os sentidos na separação do que mais almejava ser…
E restava assim… Despojada de tudo e de nós, numa matéria incompleta que se envolvia na ilusão de guardar o remanescente de ti.
Apenas carne, sempre carne…”
Projeto: Paulo Kellerman
Texto: Catarina Vale
Foto: Ana Gilbert

“Será que se deixar de me olhar ao espelho conseguirei esquecer o meu rosto? Conseguirei esquecer como sou, o que sou, quem sou? Conseguirei esquecer-me?”
Texto: Paulo Kellerman
O autor escreveu o romance Serviços mínimos de felicidade. Escolhi e fotografei 27 excertos. O texto acima é um desses excertos. A partir das fotos, o autor escreveu o conto Almas desligadas, que pode ser lido como um capítulo escondido do livro.
Palavras fotografadas, fotografias narradas…
“Um rosto escondido pela escuridão porque a luz que ilumina a vida nunca é suficiente.”
Texto: Paulo Kellerman (Almas desligadas)

“Olharam-se nos olhos. Ficaram assim durante um instante que se estendeu até ao fim do tempo. Além do fim do tempo. Os dois conscientes de que aquele olhar os unira, os prendera um ao outro para sempre.”
Projeto: Paulo Kellerman
Texto: Elsa Margarida Rodrigues
Foto: Ana Gilbert

“… estava permanentemente ocupada em querer e não querer ser o que eu era, não me decidia por qual de mim, toda eu é que não podia…”
Palavras: Clarice Lispector (A legião estrangeira, Os desastres de Sofia)

“escrever começa na margem”
escrevo no teu corpo com as mãos
escrita trêmula, a princípio
firme, depois
inscrevo-me na tua pele
e mais fundo.
memorizo teus poros, percorro geografias,
lentamente.
aquilo que conhecerei de ti me será contado pelos meus dedos
para que possa sonhar contigo.
saberás o sonho.
Texto: Ana Gilbert
Soluços entrecortados chegam aos meus ouvidos, cansados, do esforço de tentar entender entre sussurros as perguntas para as minhas respostas.




“Já que não me entendes, não me julgues
não me tentes…”
Palavras: Renato Russo

“Em alguma vida fui ave.
Guardo memória
de paisagens espraiadas
e de escarpas em voo rasante.
E sinto em meus pés
o consolo de um pouso soberano
na mais alta copa da floresta.
Liga-me à terra
uma nuvem e seu desleixo de brancura.
Vivo a golpes
com coração de asa
e tombo como um relâmpago
faminto de terra.
Guardo a pluma
que resta dentro do peito
como um homem guarda o seu nome
no travesseiro do tempo.
Em alguma ave fui vida.”
Palavras: Mia Couto [poemas escolhidos]

“Há momentos que, com tão ínfima duração, são enormes na sua capacidade de nos reduzir a uma insignificância tremendamente dolorosa de sentir.
Carregamos toda a nossa existência no incerto de decisões nascidas no medo, trémulas em assertividade, que nos empurram para ir no simultâneo de ficar.
Viajamos até onde fomos mais, desejando voltar a ser e ter, enfrentando toda a impotência que nos cerca.
Percebemos que o pouco que éramos não somos, e que a única matéria que conseguimos arrastar é apenas, tanto e só, a que nos constitui.
Acordamos em nós, sedentos de viver pelo que permanece sempre connosco…
Há momentos, que de tanto os esquecer, ficarão em mim para sempre.”

“Para que te servem essas unhas longas? Para te arranhar de morte e para arrancar os teus espinhos mortais, responde o lobo do homem.”
Texto: Clarice Lispector (A legião estrangeira, Os desastres de Sofia)

Tão mais fácil seria
se não houvesse dor
se fôssemos insensíveis ao dilaceramento.