
excerto de carta de 18/09/1992, de Nise da Silveira a Marco Lucchesi (in Viagem a Florença, de Marco Lucchesi, 2025)

excerto de carta de 18/09/1992, de Nise da Silveira a Marco Lucchesi (in Viagem a Florença, de Marco Lucchesi, 2025)



Aisha tem muitas vidas. Aisha permanece.
“Pai, achas que amanhã já há futuro?”
[do livro com Paulo Kellerman]

“O trem veloz chegou carregado das mais belas rosas do mundo. Mas você não veio.
Se isso acontecer outra vez estendo-me sobre os trilhos.”
excerto de carta de Nise da Silveira a Marco Lucchesi (in Viagem a Florença, de Marco Lucchesi, 2025)

What if the body heard everything the imagination thinks and creates? What if the body fulfilled everything that… Ah, what if…
Paulo Kellerman & Ana Gilbert | Portable link

“Estamos definitivamente sozinhos.”
Al Berto (O anjo mudo)

Saiu no Jornal de Leiria,.. Palavra de honra
Obrigada, Ricardo Graça e Jornal de Leiria
[texto completo aqui]

O blog FOTOGRAFAR PALAVRAS comemora 9 anos neste mês de agosto.
Criado pelo querido amigo Paulo Kellerman e cuidado por tod@s nós, o projeto é uma casa artística que nos abriga e alimenta em tempos sombrios.
Espaço de resistência poética, o blog une fotógrafos e escritores no amor partilhado por palavras e imagens. É uma galeria de arte que nos oferece a oportunidade de contemplação silenciosa; um outro tempo, fora da volatilidade das redes.
Visitem; há muito o que ler e ver por lá.
A parceria de hoje na publicação # 5274 é com o Paulo:
Disse: o mundo está a desmoronar e ninguém o pode impedir. Disse: essa sensação de impotência é tão dolorosa. Disse: gostaria muito que alguém pudesse reverter as desgraças que vemos dia após dia. Disse: mas já não acredito mais que isso seja possível. Disse: o mundo está a morrer e ninguém pode fazer nada.
Respondi: então agora sabes como deus se sente desde que o mundo existe. Agora sabes como é ser deus. Gostas?
***
He said: the world is collapsing and no one can stop it. He said: this feeling of powerlessness is so painful. He said: I wish so much that someone could reverse this disgrace that we see day after day. He said: but I no longer believe it’s possible. He said: the world is dying and nobody can do anything about it.
I replied: so now you know how god has felt since the world existed. Now you know what it’s like to be god. Do you like it?
Texto | Text: Paulo Kellerman


com Paulo Kellerman | Portable link
Almas Desligadas (2018 | 2019)
Geografias Corporais (2022)
And when the questions are over? REIMAGINED (2024)
Aisha (2025)

Time is out of joint, diz Hamlet, na tragédia de William Shakespeare, ao saber do assassinato do rei, seu pai, pelo tio.
Time is out of joint, diz Paul B. Preciado, sobre o colapso do capitalismo petrossexorracial.
Time is out of joint, é o que diz cada célula do meu corpo quando olha o reflexo do mundo na superfície do sangue derramado.
[isto também é sobre Gaza]

“Fui sonhada por ti.”
José Eduardo Agualusa (Manual prático de levitação)

Acaso é este encontro
entre o tempo e o espaço
mais do que um sonho que eu conto
ou mais um poema que eu faço?
Paulo Leminski (Toda poesia)

“A memória não lhe veio aos poucos, despencou como uma avalanche na sua cabeça”.
Ghassan Kanafani (Retorno a Haifa)

A tua ausência tornou-te mais real, mais autêntica. Percebes isto?
Text(o): Paulo Kellerman

“Não quero mais me expressar por palavras: quero por ‘beijo-te’ “.
Clarice Lispector (Um sopro de vida)

a impossibilidade de narrar o que se vê.
[isto também é sobre Gaza]









uma câmera
um rolo de filme
dois fotógrafos
Frankie Boy fotografou Ana Gilbert
Ana Gilbert fotografou Frankie Boy
escreveram com luz
com palavras
fragmentos de tempo
atravessamentos de histórias
encontro
***
a camera
a roll of film
two photographers
Frankie Boy photographed Ana Gilbert
Ana Gilbert photographed Frankie Boy
they wrote with light
with words
fragments of time
interweaving of stories
encounter

Crescer nos acentos perpétuas cobras d’água e logo a seguir
para que o ciúme não te adelgace
Pela cauda desengomo-te virgulados alguns actos
entre uma mornura de focinhos islandeses
{rafeiras arfadas}
e o inteira me prumares recatada.
Tibar-nos, como se tiba a latina linguagem, julgo branco e impossível.
Texto da Ana Sofia Elias e foto minha
[do nosso baú imaginado de imagens e palavras ardentes]

Era uma vez um professor de filosofia que repete as mesmas ideias turma após turma, como se fosse uma gravação e não estivesse realmente ali, de corpo e alma. A gravação refere-se ao mito de Sísifo. Explica a voz, distanciando-se do corpo, como um certo rei fora punido com o castigo eterno de erguer uma pedra gigante até ao cimo de uma montanha, apenas para depois a ver deslizar montanha abaixo, até ao ponto de partida. Explica a voz, mecânica e sem vida, como o rei repetia aquela tarefa vez após vez, apesar de saber que o desfecho seria sempre o mesmo, e o propósito inútil. Explica a voz, cansada e apática, como aquela conformação do rei em repetir uma tarefa sabendo qual a sua conclusão e irrelevância poderia ser uma metáfora poderosa do destino dos humanos, condenados a repetirem tarefas que não compreendem e não controlam. Explica a voz, desinteressada do que diz, algumas das implicações filosóficas possíveis de especular a partir da postura do rei castigado, e como poderiam ter ressonância em todas as pessoas que as especulassem, incluindo os jovens que se encontram à sua frente.
– E a pedra?
A gravação emperra. A interrupção é inesperada, e a voz vê-se forçada a suspender o discurso automático. Há silêncio na sala de aula.
– Todo o foco está no rei. Mas e a pedra?
A turma agita-se, o professor pede explicações.
-Talvez o protagonista do mito não seja o rei e a sua teimosia absurda. Talvez o que importa realmente seja a pedra, e o seu comportamento. Porque insiste em regressar sempre ao ponto de partida? Não pode ser apenas por força da gravidade ou assim. Isso seria uma explicação científica, e os mitos não são lugares de ciência. Para mim, acho que é por resistência. O rei é teimoso, a pedra é resistente. Ou seja, a pedra tem mais personalidade do que o rei.
É a sétima aula do dia. E a primeira vez que o professor sorri.

o que fazer com as linhas de fuga deleuzianas quando não há fuga possível?
[isto também é sobre Gaza]