
“A tua pele cega-me.“
Projeto | Paulo Kellerman
Palavras | Miguel Clemente
Ando muito por aqui…
O blog Fotografar palavras, criado há dois anos e meio pelo escritor português Paulo Kellerman, propõe como exercício criativo transformar palavras em imagens. Escritores selecionam trechos de textos seus e os fotógrafos encontram uma (ou mais de uma) imagem nas palavras. O que se vê por lá é uma declaração de amor às palavras e às imagens; à literatura, à fotografia e à arte em geral, numa colaboração instigante e harmoniosa entre talentos e estilos. Afeta, emociona, faz pensar… realiza-se como arte.
O programa Fotobox, da televisão portuguesa RTP3, dedicou a edição de número 113 ao projeto. Pode ser visto aqui.

“É nos abraços de luz que a coragem comanda os membros que se submetem a ir no anseio de ficar.”
Projeto: Paulo Kellerman
Texto: Catarina Vale

No caminho te ilumino.”
Projeto | Paulo Kellerman
Texto | Letícia A.


“Conspiração
Sei-te igual.
Sei-te estranho.
Sei-te de cor.
Sei-te o sal,
O odor
e o intento.
Sei-te aqui.
Sei-te aí.
Sei-te onde for.
Sei-te como ser.
Sei-te o nome.
Sei-te o rosto.
Sei-te a boca.
Sei-te o corpo.
Sei-te o sexo.
E o desejo.
E não sei
nada de ti.”

“É Domingo. O dia acorda quente e os nossos corpos acusam o cansaço da semana. Sussurras-me ao ouvido: “Apeteces-me”! Permito-te.”
Texto: Ophélia Pessoa
Foto: Ana Gilbert

“Podes fechar a cortina do quarto.
É no escuro, que te verei melhor.”
Projeto: Paulo Kellerman
Texto: Clara Vales
Foto: Ana Gilbert


“Promete, vais ser minha para sempre.“
Murmuravas-me ao ouvido enquanto te apoderavas de cada milímetro meu… Sentia-te a ser tudo o quanto podias, e eu era a felicidade a perecer de exaltação.
O meu silêncio nos teus gemidos, as tuas palavras largadas na intensidade “Promete, vais ser minha para sempre.”
Amava sentir a tua exortação, a tua avidez pelo meu corpo, acreditando que se estendia até à alma.
Mas as promessas são de uma fragilidade imensa, e não se promete o que é impossível deixar de existir. Esperava um sempre que não se alimentasse somente de mim, onde não vivesse sozinha o que ia além da carne.
A minha carne impossível de distinguir da tua, perfeitamente sincronizadas numa agitação que de tão espontânea nos dissolvia por inteiro no mais anestesiante dos prazeres.
Regressávamos, deixando lentamente de nos tocar, apaziguando os sentidos na separação do que mais almejava ser…
E restava assim… Despojada de tudo e de nós, numa matéria incompleta que se envolvia na ilusão de guardar o remanescente de ti.
Apenas carne, sempre carne…”
Projeto: Paulo Kellerman
Texto: Catarina Vale
Foto: Ana Gilbert

“Olharam-se nos olhos. Ficaram assim durante um instante que se estendeu até ao fim do tempo. Além do fim do tempo. Os dois conscientes de que aquele olhar os unira, os prendera um ao outro para sempre.”
Projeto: Paulo Kellerman
Texto: Elsa Margarida Rodrigues
Foto: Ana Gilbert

“Há momentos que, com tão ínfima duração, são enormes na sua capacidade de nos reduzir a uma insignificância tremendamente dolorosa de sentir.
Carregamos toda a nossa existência no incerto de decisões nascidas no medo, trémulas em assertividade, que nos empurram para ir no simultâneo de ficar.
Viajamos até onde fomos mais, desejando voltar a ser e ter, enfrentando toda a impotência que nos cerca.
Percebemos que o pouco que éramos não somos, e que a única matéria que conseguimos arrastar é apenas, tanto e só, a que nos constitui.
Acordamos em nós, sedentos de viver pelo que permanece sempre connosco…
Há momentos, que de tanto os esquecer, ficarão em mim para sempre.”

“Lá fora o vento ruge, violento. Ou se calhar é dentro de si. Não sabe.”



“Ainda mal me conheces. Talvez nem me tenhas olhado bem. Passei por ti no turbilhão das emoções, estava em fogo ardente, a correr sem destino. Talvez nem me tenhas olhado bem. Sou eu. Eu mesma, meu amor. Não te lembras de mim? Um dia demos as mãos e caminhamos juntos. Um dia de verão na sombra daquele lugar só nosso, trocamos juras de amor eterno. Éramos crianças. Tão pequenos e tão grandes a imaginar o futuro.
Talvez não me tenhas olhado bem. Estou diferente. Mas lá no fundo sou a mesma pequena. A tua pequena.
Talvez não me tenhas sentido bem. Os anos passaram. Muitos anos passaram. Demasiados, diria. Talvez te falte a coragem. E te palpite o coração. Talvez te estremeça a mão quando procuras a minha. Ou te sequem as palavras com tanto calor que se não vê.
Talvez não tenhas lido as entrelinhas do meu ser. Nem as letrinhas pequenas. Mas tudo bem. Nada disso importa agora. É nas grandes que tudo está escrito. Basta ler, meu amor. É tudo tão simples e natural.
Talvez não me tenhas olhado bem. Mas eu passei a teu lado. Agora, já fui. Eu tinha que ir. Tinha mesmo que ir. Mas, em cada rabisco do nosso voo fica um rasto. Basta olhar o céu, meu amor. Basta olhar o céu…”

“Nunca tinha pensado que o silêncio de uma casa pudesse ser tão monótono, tão escuro, tão desolador.”

“Vou colhendo fragmentos de vida e guardo-os numa caixa. A essa caixa chamo alma.”

“… se me tivesses abraçado, se adivinhasses que um abraço era tudo o que desejava. Mas não adivinhaste. Não voltaste a tocar-me.”
Palavras: Paulo Kellerman (Diz-me o teu nome, pergunta-me o meu, Gastar palavras)

“Sinto a solidão na inteireza do corpo. Nas mãos o desamparo lê-se evidente.”