Cinema

“Entra na sala; vê a cortina vermelha e sente-lhe a textura entre os dedos; inspira o cheiro quente e amargo das fitas nas bobines; respira a mistura do amadeirado doce das cadeiras; aceita o mofo sereno das alcatifas. E vê a lanterna. No cimo do balcão da entrada, enche-se de luz a piscar. Com ela, regressa à sala. Senta-se na primeira cadeira da última fila e olha o ecrã.”

Os meus dias são domingos, de Ana Miguel Socorro, na Antologia Minimalista (2020)

Minimalista Editora

Não sabia porquê, nem lhe parecia importante, mas as palavras e todos os medos, que se recusavam sair pela boca, dançavam livremente pelos dedos, como através de uma corda oca.”

De Aardonyx a Zupaysaurus, de Lia Wolf, na Antologia Minimalista (2020)

Minimalista Editora

Momento

Por um breve momento, sentem-se. Não é desejo, nem simpatia, nem compreensão.

É qualquer coisa diferente, como se aquele momento sempre tivesse existido e estivesse ali simplesmente à espera que as suas vidas confluíssem para ele, para depois seguirem de novo o seu caminho.

Excerto de AS HORAS DO FIM, romance de Elsa Margarida Rodrigues

Uma publicação Minimalista

Ecos no coração da terra

Eu pronuncio esta palavra como se não fosse de minha língua. É uma palavra que tem textura, é rugosa, fere, menospreza. Vergonha.

Rafael Azevedo (Ecos no coração da terra, Kotter Editorial, 2021)

Um livro de tirar o fôlego, que provoca imagens, inúmeras imagens. Fragmentos que, aos poucos, nos revelam sua costura e o avesso da costura. Jogos de luz e sombra, fascinantes e hipnóticos. Viciantes e peçonhentos.
Um mergulho na alma humana: almas individuais, alma familiar, alma coletiva. Vida e morte; decadência e libertação.

Urgência

A caminho do peito denso do mato, rasga as roupas – porque toda a natureza emerge de um ritual de sentidos e é urgente a presença completa do corpo.

Eda e o riso, conto de Joana M. Lopes, na Antologia Minimalista

Minimalista Editora

Serviço Postal | Postais com Estória

Somos os nossos próprios museus. (Paulo Kellerman)

Foto: Ana Gilbert

Serviço Postal – Postais com Estória

Porque vivemos entre palavras e imagens. Porque precisamos de estórias/histórias que alimentem a nossa imaginação. Porque precisamos de afeto. Precisamos de sorrisos, sorrisos que brotam, espontâneos, a cada postal. Precisamos dos abraços (imaginados ou concretos) que trocamos e sentimos quando lemos as estórias/histórias feitas de palavras-imagens, imagens-palavras. Que dizem muito, que dizem tanto.

Porque enviar postais é tudo isso.

Serviço Postal – Postal com Estória é o novo projeto do amigo Paulo Kellerman. E que se torna também nosso.

Obrigada, Paulo, por mais esta aventura na companhia de tantos talentos.

As flores de maio

“O céu começava a clarear timidamente, iluminando os oito elementos que se reuniam para florir todas as ruas da aldeia. A tarefa teria de ser cumprida antes do nascer do sol, para garantir boa fortuna a todos os habitantes da terra.”

As flores de maio, conto de Ana Moderno na Antologia Minimalista

Minimalista Editora

Conversas Literárias: Clarice Lispector | Água Viva

O evento CONVERSAS LITERÁRIAS: CLARICE LISPECTOR | Água Viva – desdobramentos aconteceu hoje, 01 de outubro de 2021, com a participação de Sigrid Haikel, Maria Lúcia Lorêdo Jorge, Aurea C. Torres e eu.

Conversas Literárias é o núcleo de literatura do Instituto Junguiano do Rio de Janeiro (IJRJ /AJB), e o evento aconteceu no âmbito das CONVERSAS JUNGUIANAS.

A renda do evento será revertida para a Casa das Palmeiras – Nise da Silveira.

O vídeo e o texto abaixo são a minha contribuição para o evento.

Comecei a participar do grupo Conversas Literárias há pouco tempo. Quando entrei, o livro Água Viva, de Clarice Lispector, avançava para o seu final. Porém, ele já reverberava dentro mim: vinha fotografando suas frases, usando, por vezes, a vertente do autorretrato como forma de expressão. Assim, quando surgiu a ideia de apresentarmos os nossos desdobramentos do livro, compreendi que só poderia trazer a vivência da leitura através destas imagens-palavras.

Falar de Água Viva é falar do entrelaçamento entre palavra e imagem, relação essa que me é tão cara como terapeuta e artista. Em um texto que escapa à definição de romance, no sentido de uma história mais estruturada, com personagens e ações mais claramente delimitadas, Clarice dá vazão a um fluxo de consciência de extrema beleza e profundidade. Convida-nos ao mergulho e avisa-nos dos perigos. O perigo das palavras e suas sombras. Da tensão que existe entre as palavras e as imagens que delas emanam. O fascínio exercido por essa zona limítrofe, a superfície da água, que demarca a fronteira entre a vigília e o sono, entre as instâncias da psique (consciência e inconsciente).

E nós aceitamos o convite. Sabedoras do que nos espera. Nunca preparadas. Acompanhamos a personagem/narradora, um eu feminino, que escreve a um tu masculino, um tu que é também cada uma de nós, leitoras. Percorremos trilhas de qualidade aquática, fragmentadas e poéticas, marcadas pelo tempo lento da alternância entre movimento e quietude. Experimentamos, em nós, o assombro do instante-já de que fala a narradora, a vivência de algo que escapa à racionalidade e se manifesta como fluxo. Experienciamos a relação com o espaço que nos circunda. Um espaço que é, ao mesmo tempo, externo e interno. Cheio e vazio. Um espaço que se descortina estranho e ampliado quando vislumbrado na superfície refletora da água ou do espelho. Múltiplos espelhos, múltiplas imagens: de nós e do mundo que habitamos e que nos habita. Instantes-já da relação eu-tu, coagulados como fotografias. Cenas e, com elas, a profundidade das palavras que nos leva ao seu outro lado: à sua sombra, ao seu avesso. À realidade enviesada. Da água morna e convidativa à queimadura dolorosa da água-viva.

Contudo, ela, a personagem (e a própria Clarice, talvez), precisa respirar; a intensidade pode ser demasiadamente cansativa e é preciso repousar. Deste modo, a experiência pura desse fluxo de vida oferece-nos, a cada tanto, uma pausa, um olhar para o que há de mais banal no cotidiano, uma respiração mais longa, um relaxar de músculos que nos prepara para o mergulho seguinte. Para o milagre seguinte. Para o que há “detrás do pensamento”.

A personagem/narradora é pintora e quer escrever como pinta: com o corpo todo. Quer escrever com as palavras que estão justamente aí, atrás do pensamento, como quem fotografa o instante, instante esse que é como o silêncio que está no silêncio das coisas e não pode ser ouvido, a não ser com o corpo inteiro; como uma realidade que se cria a partir da escuridão e do sonho. A partir da imaginação.

É assim que li Água Viva, com o corpo todo. E da imaginação surgiram pinturas. Pinturas feitas com luz. Fotografias. Água, ar, planta, corpo. A alternância entre a sensação de dissolução que o texto, por vezes, suscita e a aventura arriscada de fixar a delicadeza do encontro eu-outro, eu-mundo.

O que vai ser apresentado a seguir é um vídeo feito com estas imagens-palavras; uma tentativa de capturar o incapturável: a respiração que rege a ordem do mundo, do meu mundo. O ritmo da pulsação. A liberdade de vida e morte. O seu mistério. Efemeridade e eternidade em mim.

Conversas Literárias

Conversa sobre o livro Água Viva de Clarice Lispector

O evento contará com a participação das integrantes do Instituto Junguiano do Rio de Janeiro (IJRJ):

Sigrid Haikel, Maria Lúcia Lorêdo, Áurea Torres e Ana Gilbert

Dia 01 de Outubro de 2021| Sexta-feira, de 14h às 16h.

Valor simbólico de R$ 25,00 que será revertido para Casas das Palmeiras – Nise da Silveira

Informações e inscrições aqui ou no site do IJRJ

O último voo

Tenho os olhos fechados, mas sou capaz de ver (ou imaginar?) as minhas velhas asas, as saliências por onde brotam nas costas. Ainda lembro o misto de espanto e tristeza quando descobri esses pequenos brotos em mim e percebi a condenação.

Excerto do meu conto, O último voo (Selo Off Flip, 2021)

Palavras

Palavras – movo-me com cuidado entre elas que podem se tornar ameaçadoras.”

Clarice Lispector (Água viva)