Vida

(foto do painel no Moinho do Papel, Leiria, Portugal)

Processo criativo, trabalho conjunto, arte… precisamos disso, sempre…

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Pois sou | crônica de Paulo Kellerman 

A minha filha termina por estes dias o segundo ano de um curso de artes. Quando andava no secundário, ouviu de colegas que frequentavam outras áreas de estudo comentários sobre a irrelevância dos cursos de artes. Respondia algo do género: «Gostava de saber como aguentarias a tua vida sem música e cinema e pintura e literatura e jogos e fotografia e dança e todas as outras artes.» Costumam existir duas posições antagónicas: de um lado, um certo endeusamento dos criadores, como se fossem seres superiores a quem tudo é devido; do outro, um certo desprezo por quem cria, como se a arte nascesse do ar, dispensando a acção e o esforço. São os defensores desta última postura que vão perpetuando a velha ideia de que os criadores são pouco mais do que parasitas da sociedade; afinal, se neste momento parar de ser criada arte, no YouTube têm material suficiente para se entreterem durante uma vida ou duas. Que este pensamento subsista, é triste. Mas existe forma de o combater? Deverá haver por aí uma infinidade de propostas; portanto, não virá mal ao mundo se juntar a esse pacote mais algumas sugestões; simples e utópicas. Primeiro passo: perceber claramente que existe uma diferença entre cultura e entretenimento; não se chega a lado nenhum sem antes aceitar que uma coisa é estimular o pensamento, a acção, a curiosidade, as emoções, o sonho ou a liberdade e outra coisa é distrair ou divertir. Segundo passo: apelar àqueles criadores que se encontram em pedestais que desçam até cá abaixo e percebam que se os seus egos conversarem com os egos dos outros talvez possam nascer ideias bonitas. Terceiro passo: os defensores da teoria do artista-parasita compreenderem que o trabalho artístico é isso mesmo, trabalho; ou seja, merecedor de respeito e remuneração justa. Quarto passo: aproximar criadores e públicos numa relação de pares; nem o criador é um deus alvo de veneração, nem o público é uma entidade anónima e passiva; são pessoas. Como fazer isso? Por exemplo, criando residências artísticas de longa duração em que criadores e público-tornado-criador participam na concepção de projectos concretos (peças de teatro, exposições, livros, álbuns de música); em que todos são pagos e portanto igualmente responsabilizados e valorizados; em que todos contribuem com as suas experiências e conhecimentos; em que os trabalhos criados são públicos e sujeitos a opinião. E porquê? Porque fazer parte do processo criativo aumenta o espírito crítico; porque quem tem coragem de participar activamente deixa de veicular sentenças vazias, pois passa a conhecer na pele os desafios, as dores e os prazeres da criação e produção de algo; porque quem faz e não se limita a falar conquista liberdade e respeito. Mas quem paga? Voltamos ao início: aqueles que acham que os recursos públicos apenas devem ser canalizados para pontes e hospitais e bancos por acaso aguentariam a vida sem música e cinema e pintura e literatura e jogos e fotografia e dança e todas as outras artes? Utópico? Pois sou.

(Jornal de Leiria)

Vai ficar tudo bem?

Paisagem Wales

“A questão é que, mesmo quando a vida eventualmente voltar ao normal, não será mais o mesmo normal que conhecíamos antes do surto: coisas com as quais nos acostumamos como parte da vida cotidiana não serão mais dadas como certas, teremos de aprender a viver uma vida muito mais frágil, repleta de ameaças constantes. Será preciso mudar completamente nossa postura diante da vida, diante da nossa existência como seres humanos convivendo com outras formas de vida.”

Slavoj Zizek (Pandemia – Covid-19 e a reinvenção do comunismo)

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#vaificartudobem?

“Disseram-me, há uns anos, algo que nunca mais esqueci. Uma amiga vivia um período particularmente difícil que incluía o fim de uma relação, a perda do emprego e a morte dos pais; tentava apoiá-la no que podia e ia repetindo algumas banalidades em que genuinamente acreditava: que as coisas haveriam de melhorar, que tudo acabaria por se compor e correr bem.

Num esforço para contrariar o pessimismo depressivo e catastrofista que lhe corroía os dias, fui mantendo a minha postura de esperança e positivismo. Até que um dia ela me disse aquilo que nunca mais esqueci: «O teu optimismo até mete nojo.»

Muitos meses passaram e a vida compôs-se. Mas fiquei a perguntar-me se o excesso de optimismo poderia, afinal, incomodar. E hoje acho que sim, que pode: quando se trata de uma atitude acéfala e irracional, próxima da fé cega; quando é manifestado de maneira rotineira e distraída, automática, sem atenção nem convicção; quando serve apenas para iludir e pacificar a consciência, para demonstrar um cuidado momentâneo pouco sincero.

Tal como quando perguntamos se está tudo bem ao vizinho que encontramos no elevador; é uma forma de cortesia, uma simpatia social; mas na maioria das vezes não nos interessa realmente a resposta. E se por acaso o vizinho respondesse: «Não, está tudo mal, só me apetece morrer…»? Diríamos com grande atrapalhação: «Pois, pois…»; e aguardaríamos que a porta do elevador abrisse, decididos a começar a usar as escadas com mais frequência.

Certamente que o nosso optimismo é bem-intencionado e generoso. Mas será consequente? Será realista? Neste tempo atroz e desconcertante que vivemos vamos repetindo dezenas de vezes por dia que vai ficar tudo bem. Dizemo-lo a nós próprios e a todas as pessoas com quem nos cruzamos; escrevemo-lo em múltiplas publicações que fazemos nas redes sociais; e até o desenhamos com letras bonitas em folhas de papel que colamos nas janelas.

É um optimismo positivo e simbólico, uma forma de aproximação e de união; a exteriorização de um desejo e de uma crença, uma tomada de posição metafórica. E sentimo-nos bem por o fazer. Mas será que vai mesmo ficar tudo bem? Alguma vez pensamos nisso? Porque se pensarmos, teremos de concluir que não.

Não vai ficar bem para as pessoas que morrem; não vai ficar bem para os familiares e amigos das pessoas que morrem (e das quais nem se podem despedir); não vai ficar bem para as pessoas que perdem o emprego ou os seus negócios; não vai ficar bem para quem tem de lutar com dificuldades económicas, com incertezas e medos, com depressões e desesperos; não vai ficar bem para o vizinho que tem vontade de dizer «Está tudo mal, só me apetece morrer…» mas que se mantém em silêncio.

Todos queremos que fique tudo bem para toda a gente. Todos queremos tranquilizar quem nos rodeia, dizendo-lhes que vai ficar tudo bem. Todos queremos que nos tranquilizem, dizendo-nos que vai ficar tudo bem. Todos somos optimistas. Todos corremos o risco de começar a meter nojo.”

Paulo Kellerman (Crônica para o Jornal de Leiria)