VII

VII
Consegues explicar o amor?

Pergunta ela,
Com um sorriso esperançoso.

Fecho os olhos e abano a cabeça,
Porque há respostas que não podem ser verbalizadas.

Apenas os loucos conseguem explicar o amor,
Porque apenas os loucos compreendem a vida.

Apenas os loucos encontram sentido
No que não tem lógica.

Diz ela,
Com um sorriso decepcionado.

Ou talvez nem chegue a ser um sorriso.

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Can you explain love?

She asks,
With a hopeful smile.

I close my eyes and shake my head,
Because there are answers that cannot be verbalized.

Only mad people can explain love,
Because only mad people understand life.

Only mad people find meaning
In what has no logic.

She says,
With a disappointed smile.

Or maybe it is not even a smile.

Paulo Kellerman (E quando acabarem as perguntas?)

O amor

II

Talvez o amor
Seja feito de tempo.

Tal como de tempo são feitas algumas árvores, Daquelas que vivem duzentos anos
Ou mais.

Será que o amor também morre de pé?

Paulo Kellerman (E quando acabarem as perguntas?)

A glimpse

a nude glimpse of my lone soul

Words by Anne Carson (Glass, Irony & God)

A Respiração do Tempo | Ilustração

A Maraia é uma jovem e talentosa artista; um ser humano sensível e profundo. Captou com precisão e condensou em imagem o que as/os leitora(e)s descobrirão nas palavras.
É um privilégio ter a Maraia como ilustradora da nossa Minimalista.

[a respiração do tempo é a nona publicação da Minimalista Editora]

Casa da infância…

n.º 30

Regresso uma e outra vez à casa da minha infância. Os cheiros, os esconderijos, os lugares de cada coisa e de cada um mantêm-se, ainda, inalterados.
Evito o caminho para o interior. Subo a escada e recordo a textura do cimento fresco. Degrau a degrau, subo e penso nas inúmeras vezes que os pisei, que os meus os terão pisado. Sei as reentrâncias, os desníveis, as imperfeições. Dos degraus. Dos meus. As minhas.
Cá em cima é mais fácil respirar. Ainda assim, desvio o olhar da porta do sótão: preta, ferrugenta, retorcida. Encerra demasiada ruína, como se um cemitério de nós próprios habitasse sobre os espaços em que vivemos.
Aguardo o escurecer e contemplo o horizonte: o parque florestal, o pinhal ao fundo… e, naquele momento em que o silêncio se instala, o som do nosso mar sobrepõe-se a todas as camadas dos meus sentidos.
Elevo o olhar e procuro no escuro a segurança de tantas noites ali passadas. Encontro o norte… brilho ténue, guia de viagens difusas memória dentro. Uma âncora no firmamento, como se todo o universo nele se sustivesse, como se todo o meu viver nesta casa nele se suportasse.
Sento-me. Inspiro. Deito-me no chão rugoso e frio, sinto o desconforto no corpo e nas memórias que trago comigo. Abro os olhos para a imensidão e, por fim, entro.”

Fotografar palavras, projeto criado pelo Paulo Kellerman em 2016. Projeto criado por nós, diariamente.

Texto da Vilma Duarte, foto minha.

Ecos

“other echoes inhabit the garden. shall we follow?”

Palavras | T.S. Eliot

O TEMPO (Somos Nós)

O TEMPO (Somos Nós)

Ópera na Prisão | Traction – SAMP

Libretista: Paulo Kellerman

“Porque vamos? Porque ficamos? Porque esperamos?”

Porta e viagem. Tempo e memória. Espera.

Trabalho, muito trabalho; esforço conjunto. O resultado: um espetáculo multimídia, complexo e denso, como o tema, envolvendo músicos profissionais e jovens detentos, atuações presenciais e remotas. O tema é o tempo, em seus desdobramentos de espera e viagem. O contexto onde esse tema se desenrola é a prisão: a externa, palpável, do domínio da justiça (o Estabelecimento Prisional de Leiria, Portugal), onde jovens estão à espera. E também a(s) interna(s): a das escolhas, a das ilusões, a da inconsciência, a dos valores coletivos. As portas que se nos apresentam no decorrer da vida.

“Estou farto de portas fechadas”, diz o coro.

Mas como abrir as portas? Como perceber que estamos a atravessar portas, ou a fechá-las? Como suportar ver as possibilidades e os limites? As seduções, os enganos, as necessidades, as insatisfações?

Tendo o mito de Ulisses e Penélope como fio condutor, a ópera nos guia por entre símbolos e metáforas e nos oferece a oportunidade de refletir sobre a forma como existimos no mundo, sobre a nossa relação com o tempo (ser humano é existir no tempo e no espaço), sobre a perspectiva de diferenciação entre indivíduo e coletividade. Sobre as nossas certezas protetoras. Sobre as nossas fraquezas. O espetáculo nos desestabiliza e emociona. E também nos faz sorrir em seus momentos de leveza.

O coro repete:

“Abre os olhos.” | “Estás preso e nem sabes.”

As tentações para não ver são muitas. O trabalho de consciência é constante. Exige esforço, exige escuta; é solitário. Ser cego pode ser, aparentemente, mais fácil. A lembrança de onde estamos nos faz pensar em voos, em fuga (em algum momento, fugimos todos), em regresso. Para enfrentar.

O amor surge como a luz da consciência, que não nos deixa esquecer quem somos;  como a conexão com a alma, essa instância profunda do humano, capaz de nos libertar da prisão do tempo. 

“Somos nós que fazemos o tempo. Nós é que somos a consciência do tempo.”

[assisti à estreia do espetáculo, no dia 4 de junho, no Estabelecimento Prisional de Leiria – Jovens. E, para mim, o espaço foi consciência.]

5 anos de sutilezas…

Este foi um ano especial, apesar das sombras da pandemia: além da produção fotográfica, o meu livro de contos pela Minimalista materializou-se. Ambos me ajudaram a continuar criativa acima de tudo. Ajudaram-me a respirar.

Um enorme agradecimento a todos os que acompanham este processo; aos que voltam por sentirem que há algo aqui que faz sentido. Aos que passam de forma breve, por curiosidade ou acaso.

“O clique acontece por dentro e o dedo aciona o disparador.
Não sei o que fotografei.
(nunca sei. iludo-me)”