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“Andávamos como pessoas com luzes acesas dentro. As palavras como lâmpadas na boca. Iluminando tudo no interior da cabeça.”

(Valter Hugo Mãe, A desumanização, p. 125)

Novo, de novo…

Primeiro azul do ano…

Céu e sombra

 

Borboletas

Borboletas me convidaram a elas.
O privilégio insetal de ser uma borboleta me atraiu.
Por certo eu iria ter uma visão diferente dos homens 
e das coisas.
Eu imaginava que o mundo visto de uma borboleta –
Seria, com certeza, um mundo livre aos poemas.
Daquele ponto de vista:
Vi que as árvores são mais competentes em auroras 
do que os homens.
Vi que as tardes são mais aproveitadas pelas garças 
do que pelos homens.
Vi que as águas têm mais qualidade para a paz do 
que os homens.
Vi que as andorinhas sabem mais das chuvas do que 
os cientistas.
Poderia narrar muitas coisas ainda que pude ver do 
ponto de vista de uma borboleta.
Ali até o meu fascínio era azul.
(Manoel de Barros, Ensaios fotográficos)

 

 

Auscultadores

“O quarto estava escuro mas as cores pareceram ganhar uma estranha tonalidade nova, como se estivessem a ser recriadas, recalibradas, redimensionadas; o vermelho da porta do armário, o verde dos números (que não mudavam; seria isso bom, seria isso mau?) nas máquinas médicas a que a P. estava ligada, o azul do céu num quadro pendurado numa parede onde também havia um barco amarelo. (Faltava o cor-de-rosa de uns auscultadores.)”
Projeto e Texto: Paulo Kellerman

“Tu mesma és um poema e
os teus olhos são versos sem rima,
tal como a encantadora canção que
entoas sempre que falas,
falando seja lá sobre o que for
e navegando sobre esse teu belo e dançante sorrir de meia distância,
que me faz arder a alma.”

Fotografar palavras

Projeto: Paulo Kellerman
Texto: José Alberto Vasco

 

 


… suspensa, toco o vento, pressinto o vazio do espaço, disponho a trajetória da queda livre imaginada, mas livre de quê, se tenho medo da morte… e mais ainda de viver.

 

“Olhei o mar com a intensidade dos desesperados, dos loucos, dos idiotas: à procura de uma resposta, de uma fuga, de uma anestesia, de uma morte. Depois, sem coragem para me continuar a martirizar, levantei-me e caminhei alguns passos, lentos e contrariados: afastando-me de ti, do passado, da minha vida.”

Texto: Paulo Kellerman  (Areia | lado B, Os mundos separados que partilhamos)