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Vi medo nos teus olhos e prometi ficar contigo. Foste levada, assim, meio às pressas, com a camisola vestida, o robe a cobrir as pernas e a proteger o peito do frio. Dias frios, aqueles, mas naquela tarde, no pátio, o vento era cálido, o sol, ameno. Estavas cansada; fechaste os olhos, como a receber aquela útima brisa, aquele último raio de sol, a última vez que saías ao ar livre, e foste inclinando a cabeça, depois o corpo todo. Segurei teu rosto com a mão para te colocar de volta ereta, mas te deixaste ficar, cabeça apoiada na mão em concha, aliviando o cansaço de anos. Deixei, e assim seguimos até a ambulância.

Procissão

“Caminhamos pelas ruas tranquilas da minha infância.

O caixão avança devagarinho, atrás a multidão geme silenciosamente. Um silêncio feito de murmúrios e rumores, de chilreares de pássaros invisíveis e da cantoria fantasmagórica dos sinos, de arrastares de pés e estalos de bengala. Há, também, lágrimas que se ouvem. Há tristezas que pairam, que convidam à desistência, à rendição; ou talvez sejam apenas nuvens a passar, apressadas e opressivas.”

Texto: Paulo Kellerman (Um relógio a tiquetaquear, Os mundos separados que partilhamos)

 

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“Andávamos como pessoas com luzes acesas dentro. As palavras como lâmpadas na boca. Iluminando tudo no interior da cabeça.”

(Valter Hugo Mãe, A desumanização, p. 125)

Novo, de novo…

Primeiro azul do ano…

Céu e sombra

 

Borboletas

Borboletas me convidaram a elas.
O privilégio insetal de ser uma borboleta me atraiu.
Por certo eu iria ter uma visão diferente dos homens 
e das coisas.
Eu imaginava que o mundo visto de uma borboleta –
Seria, com certeza, um mundo livre aos poemas.
Daquele ponto de vista:
Vi que as árvores são mais competentes em auroras 
do que os homens.
Vi que as tardes são mais aproveitadas pelas garças 
do que pelos homens.
Vi que as águas têm mais qualidade para a paz do 
que os homens.
Vi que as andorinhas sabem mais das chuvas do que 
os cientistas.
Poderia narrar muitas coisas ainda que pude ver do 
ponto de vista de uma borboleta.
Ali até o meu fascínio era azul.
(Manoel de Barros, Ensaios fotográficos)

 

 

Auscultadores

“O quarto estava escuro mas as cores pareceram ganhar uma estranha tonalidade nova, como se estivessem a ser recriadas, recalibradas, redimensionadas; o vermelho da porta do armário, o verde dos números (que não mudavam; seria isso bom, seria isso mau?) nas máquinas médicas a que a P. estava ligada, o azul do céu num quadro pendurado numa parede onde também havia um barco amarelo. (Faltava o cor-de-rosa de uns auscultadores.)”
Projeto e Texto: Paulo Kellerman

“Tu mesma és um poema e
os teus olhos são versos sem rima,
tal como a encantadora canção que
entoas sempre que falas,
falando seja lá sobre o que for
e navegando sobre esse teu belo e dançante sorrir de meia distância,
que me faz arder a alma.”

Fotografar palavras

Projeto: Paulo Kellerman
Texto: José Alberto Vasco