Luz

A luz da janela
sobe pelas folhas verdes
ao topo das árvores.

Yosa Buson (A borboleta e o sino)

Tradução: Sérgio Medeiros

Teoria das cordas

“Não era isso que eu queria dizer,
queria dizer que na alma
(tu é que falaste da alma),
no fundo da alma e no fundo
da ideia de alma, há talvez
alguma vibrante música física
que só a Matemática ouve,
a mesma música simétrica que dançam
o quarto, o silêncio
a memória, a minha voz acordada,
a tua mão que deixou tombar o livro
sobre a cama, o teu sonho, a coisa sonhada;
e que o sentido que tudo isto possa ter
é ser assim e não diferentemente,
um vazio no vazio, vagamente ciente
de si, não haver resposta
nem segredo.”

Palavras | Manuel António Pina (O coração pronto para o roubo)

“Real, real porque me abandonaste?
E, no entanto, às vezes bem preciso
de entregar nas tuas mãos o meu espírito
e que, por um momento, baste
 
que seja feita a tua vontade
para tudo de novo ter sentido,
não digo a vida, mas ao menos o vivido,
nomes e coisas, livre arbítrio, causalidade.
 
Oh, juntar os pedaços de todos os livros
e desimaginar o mundo, descriá-lo,
amarrado ao mastro mais altivo
do passado! Mas onde encontrar um passado?”

Palavras | Manuel António Pina (O coração pronto para o roubo)

é difícil

é difícil       concordo      conjugar este
verbo insensato e tardio que
de repente se atravessou no meu caminho

Palavras | Alice Vieira (Os armários da noite)

“Lembras-te…”

“Lembras-te dos nossos sonhos? Então
precisávamos (lembras-te?) de uma grande razão.
Agora uma pequena razão chegaria,
um ponto fixo, uma esperança, uma medida.”

Palavras | Manuel António Pina

miose

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“avisto a extensão de negro em que depositas
o teu coração em forma de palavras
e perco as minhas pupilas para o mar:
troco as barcas por barcos
visto os pássaros de asas gigantes
agito as águas
empresto sopros ao vento…
 
às vezes o ondeado das dobras da seda
negro em filamentos entremeados de luz
não deixa ver a inclinação do eixo que diz das tuas estrelas”

Palavras | Isabel Pires (a permanência da memória dos dias de sal)

Ficção em 8 atos

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“Talvez eu seja
O sonho de mim mesma.
Criatura-ninguém 
Espelhismo de outra 
Tão em sigilo e extrema
Tão sem medida
Densa e clandestina
 
Que a bem da vida
A carne se fez sombra.

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Talvez eu seja tu mesmo
Tua soberba e afronta.
E o retrato
De muitas inalcançáveis 
Coisas mortas.

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Talvez não seja.
E ínfima, tangente
Aspire indefinida
Um infinito de sonhos
E de vidas.” 

Palavras | Hilda Hilst (Cantares de perda e predileção, XLVI)

(obrigada, R. R.)

Novo…

Primeiro azul do ano…

“Para compor um tratado sobre passarinhos
É preciso por primeiro que haja um rio com árvores e palmeiras nas margens.
E dentro dos quintais das casas que haja pelo menos goiabeiras.
E que haja por perto brejos e iguarias de brejos.
É preciso que haja insetos para os passarinhos.
Insetos de pau sobretudo que são os mais palatáveis.
A presença de libélulas seria uma boa.
O azul é muito importante na vida dos passarinhos
Porque os passarinhos precisam antes de belos ser eternos.
Eternos que nem uma fuga de Bach.”

Palavras | Manoel de Barros (Tratado geral das grandezas do ínfimo)

Another intensity

“Here and there does not matter
We must be still and still moving
Into another intensity
For a further union, a deeper communion
Through the dark cold and the empty desolation,
The wave cry, the wind cry, the vast waters
Of the petrel and the porpoise. In my end is my beginning.”

Words | T.S.Eliot (Four Quartets, East Coker)

Ainda assim

“… nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
ainda assim,
escrevo.”

Palavras | Mia Couto [poemas escolhidos]

A borra

“Prefiro as palavras obscuras que moram nos 
fundos de uma cozinha – tipo borra, latas, cisco 
Do que as palavras que moram nos sodalícios – 
tipo excelência, conspícuo, majestade. 
Também os meus alter egos são todos borra, 
ciscos, pobres-diabos 
Que poderiam morar nos fundos de uma cozinha – tipo Bola Sete, Mário Pega Sapo, Maria Pelego Preto etc. 
Todos bêbedos ou bocós. 
E todos condizentes com andrajos. 
Um dia alguém me sugeriu que adotasse um 
alter ego respeitável – tipo um príncipe, um 
almirante, um senador. 
Eu perguntei: 
Mas quem ficará com os meus abismos se os 
pobres-diabos não ficarem?”

Palavras | Manoel de Barros (Ensaios fotográficos)

Pedi…

“preparei uma festa no coração
as veias penduradas como
gambiarras corpo fora
 
pedi que viesses esperei que viesses
mas a alegria que inventei era só um
modo de ir embora”

Palavras | Valter Hugo Mãe (Publicação da mortalidade)

One art

“The art of losing isn’t hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.
 
Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn’t hard to master.
 
Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.
 
I lost my mother’s watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn’t hard to master.
 
I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn’t a disaster.
 
—Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan’t have lied. It’s evident
the art of losing’s not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.”

Words | Elizabeth Bishop

“Ali…

… até o meu fascínio era azul.”

Palavras | Manoel de Barros (Ensaios fotográficos)