Almas desligadas

15. O mundo 1

15. O mundo 2

15. O mundo 3

“Será que, no fundo, quando olhamos para o mundo e procuramos os outros pretendemos apenas fugir de nós? Distrairmo-nos de nós próprios? Serão os outros distracções, seremos nós distracções dos outros?”

Texto: Paulo Kellerman

O autor escreveu o romance Serviços mínimos de felicidade. Escolhi e fotografei 27 excertos. O texto acima é um desses excertos. A partir das fotos, o autor escreveu o conto Almas desligadas, que pode ser lido como um capítulo escondido do livro.

Palavras fotografadas, fotografias narradas…

“Uma mulher com um saco cheio de mundo, ou de nada, na mão.”

Texto: Paulo Kellerman (Almas desligadas)

Memória do corpo

“Como fazes quando precisas tocar as tuas próprias memórias? Tocar-lhes mesmo, com a ponta dos dedos?”

Palavras| Paulo Kellerman

da palavra à imagem, da imagem à palavra

quero tocar-me.
a minha pele
onde guardo as memórias,
(quais?)
nela, o que sei de mim
toco-me.
mas a pele é inalcançável,
etérea,
presença feita de luz
toco-me.
mas é superfície fria contra a pele quente
(sinto)
invento lembranças marcas feridas
e flores
toco-me.
no lugar onde não posso estar
(presença fugidia)
para, quem sabe,
existir em mim.

Palavras| Ana Gilbert

Extensão

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(Projeto com Paulo Kellerman)

Cena

No estúdio improvisado a câmera percorre o espaço distraidamente, parando aqui e ali sem se deter. O olho por detrás dela busca algo que o capture, há muito tempo busca. Já nem sabe quanto. Percorreu espaços, encontrou ângulos mas nenhum que o arrebatasse. Ao olho por detrás da lente. Gira… pára… torna a começar… insaciável… desamparado porque não encontra, nada-ninguém-amor-azul. Pulsa. Líquido, escorre-sofre. Pensa no que olha, não, não pensa, apenas percorre, desliza lentes como dedos, afaga, apalpa, quer ser tocado como a lente ao focar o espaço. Mas não é assim, é apenas a frieza do obturador que clique claque abre e fecha sem piedade. Comentários soltos, quase vazios. Como o olho que olha e que parece vazado.

De repente a câmera se detém.

O que tanto buscava o encontrou. O olho por detrás da câmera. Paralisado, muda o plano ajustando o foco, diminui a abertura, o tempo de exposição. O tripé, sabe que não conseguirá sustentar o olhar sem ele. A câmera escuta a si mesma e o olho no jogo dos espelhos se reconhece. Esconde-se, fecha-se, o olho que olha por detrás da câmera. Teme ser visto. Sente-se perseguido ao descobrir-se no outro.

O tempo se esgota. Pinga lentamente da torneira semi-aberta. Escoa de um reservatório que nunca é alimentado. Escoará até acabar.

Sabe que não há mais tempo. De recuperar o amor perdido, o tempo gasto em buscar, que o esgarçou até onde não podia mais e o reduziu a um olho que olha através e que busca incessantemente algo que olhar.

Texto: Ana Gilbert

Reservatório

Toca-me, diz ela.
Apenas assim me podes conhecer, diz ela.

Há pessoas que são como máquinas fotográficas, não achas? Captam tudo, captam a realidade nas suas ínfimas nuances e delicadezas, captam a luz e a sombra e tudo o que há entre luz e sombra, captam um beijo de dois amantes e o voo de um pássaro, captam a sombra de um nuvem e a magnificência do grão de areia na praia, captam a textura da pele do pescoço e da coxa e da mão daqueles que amam, captam a imutabilidade e a passagem do tempo, captam a suavidade das rugas de um velho que vai morrer mas ainda ri uma última vez, captam as dobras de um lençol impregnado com o cheiro a sexo, captam o momento mágico em que uma folha se solta da árvore e se lança no abismo da liberdade. Há pessoas que captam tudo, porque tudo é captável, tudo é fixável, tudo é registável. Basta olhar. Olhas, logo captas. Mas tal como as máquinas fotográficas que tudo captam, há pessoas incapazes de sentir, de interiorizar, de incorporar aquilo que olham e vêem. Pessoas que são como máquinas. Apenas captam e registam. Acumulam. Coleccionam. Mas não sentem. E ainda assim sorriem. Como é possível que as máquinas fotográficas sorriam? De que sorriem elas, se não sentem? Porque sorriem? Como sorriem? Não entendo. Mas sei que há pessoas que são como máquinas fotográficas. Assustam-me muito, estas pessoas.

O que pensa o teu nariz quando respira o meu cheiro? O que pensa o teu coração quando perscrutas o meu rosto? Percebo que estranhas as minhas perguntas. Talvez não saibas que cada pedaço do teu corpo tem pensamentos autónomos. O teu coração pensa, o teu sexo pensa, as tuas mãos pensam, a tua boca pensa. Infinitos pensamentos cruzam-se no teu interior, faíscam por um instante ou eternizam-se entre as células, arrastam-se, combatem-se, anulam-se, misturam-se, morrem e renascem. E tudo converge para o cérebro, onde toda essa imensidão de pensamentos antagónicos é recolhida, analisada, conjugada, resumida. E aquilo que julgas ser o teu pensamento – o teu pensamento oficial – é apenas uma breve e tosca súmula da infinidade de pensamentos que o teu corpo produz.

– Queres dizer que o cérebro aprisiona os pensamentos?

Penso com todo o corpo. Vejo com todo o corpo. Sinto com todo o corpo. Emociono-me com todo o corpo. E apenas depois fotografo. As fotografias são uma extensão de mim, do que penso e vejo e sinto e sonho e imagino e fantasio e questiono com o corpo; sempre com o corpo. Tal como um abraço é uma extensão de mim, de todo o meu corpo. Ou a dança. Gosto de dançar, tu não? Há uma convergência de tudo o que o corpo é e emana: carne, emoção, sentimento, alma; tudo convertido em movimento, em beleza, em harmonia, em liberdade. E quem me vir dançar fica a conhecer-me melhor. Quem me abraçar fica a conhecer-me melhor. Não sei se faz sentido para ti. Mas pensa assim: quando vês uma foto tirada por mim é como se me tocasses; em mim própria, no meu corpo. Olhar é tocar. Isto parece-te muito louco? Pode ser loucura. E talvez tenha havido um tempo em que me protegia atrás da máquina fotográfica; como se fosse uma cortina. Isso passou, o tempo é outro, a cena mudou. Agora: a máquina não me esconde; revela-me.

Deixa que os teus dedos me conheçam, diz ela.
Ele pega a fotografia que ela lhe estende. Vê-a com os olhos, vê-a com os dedos. Sente-a com os olhos, sente-a com os dedos. Pensa-a com os olhos, pensa-a com os dedos. Conhece-a com os olhos, conhece-a com os dedos.
É só uma foto, pensaria ele antes.
Agora sabes que não é apenas uma foto, diz ela.
E sorriem.

O tempo se esgota. Pinga lentamente da torneira semi-aberta. Escoa de um reservatório que nunca é alimentado. Escoará até acabar. Por isso é tão importante fixá-lo. Com o corpo. No corpo: é esse o verdadeiro reservatório.

Texto: Paulo Kellerman

Almas desligadas

23. Deixar de me olhar

“Será que se deixar de me olhar ao espelho conseguirei esquecer o meu rosto? Conseguirei esquecer como sou, o que sou, quem sou? Conseguirei esquecer-me?”

Texto: Paulo Kellerman

O autor escreveu o romance Serviços mínimos de felicidade. Escolhi e fotografei 27 excertos. O texto acima é um desses excertos. A partir das fotos, o autor escreveu o conto Almas desligadas, que pode ser lido como um capítulo escondido do livro.

Palavras fotografadas, fotografias narradas…

“Um rosto escondido pela escuridão porque a luz que ilumina a vida nunca é suficiente.”

Texto: Paulo Kellerman (Almas desligadas)

Para os comboios não há escolha

Crônica 1
 …
Crônica 2
 …
Crônica 3
Os pássaros começam a cantar. E só depois o dia nasce. Só depois o sol aparece. Só depois o mundo começa a rodar, levando consigo as pessoas e as suas vidas. Mas no início de tudo está o cantar dos pássaros. Sente-os do lado de lá da janela do seu quarto, distribuídos pelos ramos das árvores do jardim (são três árvores, trinta e cinco ramos; por várias vezes pensou em contar também as folhas mas ainda não teve coragem); quietos e serenos, à espera do momento em que começarão a cantar. Ouve-os, e desse modo conhece-os. Sabe que a segunda melhor forma de conhecer alguém é escutar. E como os conhece já consegue antecipar o momento em que o silêncio se vai converter em canto. Gosta dessa rotina, e chamar-lhe rotina é uma forma de dizer que é algo que se tornou essencial para si (como respirar ou sorrir, duas rotinas fundamentais): abre os olhos, deambula ao acaso entre o mundo dos sonhos que acabou de abandonar e o mundo da realidade a que está a regressar, respira devagar, sente o cheiro da manhã que entra pela janela entreaberta. Depois, há sempre um momento em que sente no seu corpo: vão cantar; e nesse instante, os pássaros cantam. Serão eles que mantêm o mundo em movimento com o seu canto? Acredita que sim. Levanta-se da cama, caminha até à janela, espreita as árvores; e ouve. O canto dos pássaros é uma linguagem que desconhece mas, apesar disso, sente nela uma alegria que a contamina, que lhe transmite ânimo. O que pensarão os pássaros quando olham das suas árvores e a vêem à janela? Talvez pensem que ela esteja dentro de uma gaiola e, por isso, cantam para lhe trazer um pouco de alegria. E é com alegria que se entrega às primeiras tarefas da manhã, sentindo que a vida começa a arrancar; como se o mundo fosse um comboio a sair da estação, preparando-se para recolher passageiros e, depois, distribuí-los pelos locais onde querem estar ou precisam estar ou sonham estar. Quando entra na cozinha, o mundo está em pleno andamento. A luz do sol entra pela janela, há um cheiro a chá que demora a identificar, misturado com o cheiro a laranja. Os cheiros fazem-na sentir parte do universo; é como se a essência das coisas entrasse em si, e assim as coisas passassem a fazer parte do seu corpo. Distrai-se a tentar perceber qual será o chá do dia e, por isso, demora um instante a perceber que a mãe, sentada à mesa segurando uma laranja, está triste. Aproxima-se e toca-a na mão com suavidade (sabe que a melhor forma de conhecer alguém é tocar-lhe); a mãe olha-a, corresponde ao seu toque, tenta sorrir; quase consegue, mas depois há um momento em que o quase-sorriso se pode transformar em choro. Ficam em silêncio, unidas pelas mãos. É como se o comboio tivesse subitamente parado, indeciso sobre que caminho seguir; mas para os comboios não há escolha, o único caminho possível é apenas um: em frente. Levanta-se e aproxima-se da janela, puxando a mãe consigo; olham as árvores, o céu, as nuvens; e escutam o canto dos pássaros. O tempo passa devagar, o chá arrefece. O comboio arranca, ganha velocidade. A mãe diz: «Sabes o que devíamos fazer, um dia destes? Contar quantas folhas existem nestas árvores. Sempre quis fazer isso, tu não?»
Paulo Kellerman (Crônica para o Jornal de Leiria)

“… se me tivesses abraçado, se adivinhasses que um abraço era tudo o que desejava. Mas não adivinhaste. Não voltaste a tocar-me.”

Palavras: Paulo Kellerman (Diz-me o teu nome, pergunta-me o meu, Gastar palavras)

“Nunca tinha pensado que a solidão pudesse ser não uma ausência de tudo mas a saturação de presenças fantasmagóricas, de pensamentos solidificados, de imagens resplandecentes de cor e brilho e magnetismo.”

Projeto e texto: Paulo Kellerman

“De onde surgem os gritos, como nascem?”

Fotografar palavras
Projeto e texto: Paulo Kellerman
Foto: Ana Gilbert

Palavras fotografadas, fotografias narradas…

“A vulnerabilidade de um peito que esconde um coração, um coração que esconde medos e desesperos insuspeitos para quem olha e apenas vê um peito, apesar de saber que algures há um coração.”

(Paulo Kellerman, Almas desligadas)

Almas desligadas

Paulo Kellerman  escreveu o romance Serviços mínimos de felicidade. Escolhi e fotografei 27 excertos. A partir das fotos, o autor escreveu o conto Almas desligadas, que pode ser lido como um capítulo escondido do livro.

Palavras fotogradas, fotografias narradas.

O resultado: um ebook, que pode ser lido e baixado aqui.