Almas desligadas

Em novembro de 2016, Paulo Kellerman publicou o romance Serviços Mínimos de Felicidade. Em julho de 2017, Ana Gilbert recebeu-o de presente do autor: um livro impactante, denso, poético e extremamente imagético. A vontade de transformar as imagens potenciais em atuais levou-a a escolher (difícil tarefa) e fotografar 27 excertos do romance. A partir desse conjunto de fotos, novas leituras e possibilidades surgiram e Paulo Kellerman escreveu o conto Almas desligadas, que pode ser lido como um capítulo escondido do romance.

Palavras fotografadas, fotografias narradas…

Almas desligadas integra a exposição Almas Desligadas e Outras Histórias que inaugura amanhã na Galeria Indoor.

Produção | Rococó Clean

Almas Desligadas e Outras Histórias | Exposição |

Na exposição Almas Desligadas e Outras Histórias, Ana Gilbert apresenta três fragmentos de seu trabalho que dialogam entre si de forma natural. São autorretratos, recortes de esculturas em mármore e uma série de fotos de excertos do livro Serviços Mínimos de Felicidade, escrito pelo autor português Paulo Kellerman, numa bonita parceria entre fotografia e literatura.

Todas as obras estarão à venda na Galeria Indoor a partir da noite de abertura, no dia 12 de abril.

Galeria Indoor | Produção: Rococó Clean

Roménia – crônica

Roménia

Talvez os comboios do Paulo Kellerman sejam como vasos alquímicos, formas vazias que recebem e são preenchidas com o que é material mas também invisível e impalpável: “os risos e os choros e os sonhos e os desejos e os segredos e as expectativas e os medos e as fantasias” de todos nós… em nós…
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“Sabes o que mais me impressionou? A enorme quantidade de vagões de comboio abandonados em linhas secundárias, nas proximidades das pequenas estações por onde ia passando. Pareceu-me mesmo impressionante. Olhava as carruagens, dezenas delas, de diversas cores, de diversas formas e modelos e funções, de diversos tempos; ordenadas em longas filas, como se pudessem ser usadas uma vez mais; como se alguém as tivesse deixado ali provisoriamente, com a expectativa de lhes dar utilidade no dia seguinte, na semana seguinte; mas os dias passam, as semanas passam. E como tantas vezes acontece, o tempo passa e nada traz; apenas mais tempo. Impressionou-me aquela visão de abandono, de decadência. Olhava e perguntava-me: o que esperam que aconteça a todos estes vagões? Que desapareçam por si próprios, que se dissolvam no ar? Que morram devagar? Quanto tempo demora um comboio a morrer? Sabes aquilo que dizem das árvores, que morrem de pé? Se calhar é parecido com os comboios, devem morrer inteiros e sobre os carris; de pé. No fundo, talvez os estejam a deixar morrer com dignidade. Talvez fosse mais triste se os desmantelassem e reciclassem as peças, se fizessem panelas ou martelos com o metal. Percebi que há uma certa dignidade em deixá-los assim: comboios que nunca mais irão marchar, sobre linhas férreas que nunca mais serão percorridas. Uma espécie de homenagem, não? E desse modo, a memória da passagem de todas as pessoas que ocuparam aqueles comboios, os risos e os choros e os sonhos e os desejos e os segredos e as expectativas e os medos e as fantasias de todos aqueles que momentaneamente viveram naqueles vagões, permanece preservada e intacta. Como num museu. Um museu erguido sob o sol e as estrelas, onde chove e o vento sopra, onde bichinhos desconhecidos encontram refúgio, onde ervas daninhas nascem e crescem e se multiplicam; um museu vivo onde se guarda essa fatia tão frágil e impalpável de vida a que se chama memória. Mas sabes o que mais pensei? Em metáforas. Não será a memória individual de cada pessoa formada por comboios abandonados ao relento? O que nos faz seguir em frente, afinal? O que nos faz viver? Pode ser um desejo, um sonho, uma ambição, uma necessidade; depois, realiza-se o desejo, cumpre-se o sonho, satisfaz-se a ambição, preenche-se a necessidade. Avançámos mas aquilo que nos fez avançar ficou lá para trás, transformado em memória. Transformado em comboio abandonado, porque só nos interessa o comboio que a cada momento nos transporta. Só nos interessa o desejo e o sonho e a ambição e a necessidade do momento. Pelo caminho, deixamos esquecidos todos os comboios que já não nos servem, abandonados e gastos. Simples memórias. E lá seguimos em busca da próxima estação, julgando-nos livres mas presos aos carris que nos condicionam e apontam a única direcção possível. E esquecidos de que somos os nossos próprios museus.”
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Paulo Kellerman (Crônica para o Jornal de Leiria.)

Fotografar palavras

Ando muito por aqui…

O blog Fotografar palavras, criado há dois anos e meio pelo escritor português Paulo Kellerman, propõe como exercício criativo transformar palavras em imagens. Escritores selecionam trechos de textos seus e os fotógrafos encontram uma (ou mais de uma) imagem nas palavras. O que se vê por lá é uma declaração de amor às palavras e às imagens; à literatura, à fotografia e à arte em geral, numa colaboração instigante e harmoniosa entre talentos e estilos. Afeta, emociona, faz pensar… realiza-se como arte.

O programa Fotobox, da televisão portuguesa RTP3, dedicou a edição de número 113 ao projeto. Pode ser visto aqui.

 

Dos sonhos…

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“Talvez, afinal, o propósito da vida seja a conservação dos sonhos, sendo os homens meros instrumentos da sua sobrevivência, simples receptáculos. Ou talvez sejam os sonhos, em abstracto, aquilo a que se chama deus.”

Palavras | Paulo Kellerman (As sirenes, Os mundos separados que partilhamos)

Geografias corporais

| Fotos: Ana Gilbert | Textos: Paulo Kellerman

| Dança: Inesa Markava

Projeto em andamento com o grupo de pesquisa sobre movimento Te encontro lá no Cacilda / Pulsar Cia. de Dança | Teatro Cacilda Becker, Rio de Janeiro, Brasil.

Saber-se no corpo, ser o corpo, ser no corpo… o próprio e o do outro. Corpos humanos como materialidades diversas e criativas que se atualizam no dançar… corpos dançantes que interagem e se afetam mutuamente.

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“Estende-me a mão. E diz: Não a agarres. Diz: Sente-a, apenas.
Aproximo a minha mão. As duas palmas tocam-se, e assim ficam: juntas.
Diz: Agarrar significa prender, não achas? Para sentir o outro basta tocar-lhe. Talvez tocar seja uma forma de agarrar com liberdade.
E sorri. Também sorrio. Enquanto as nossas mãos se tocam. Livres e sorridentes.”

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Loucura

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Vou até à janela para ver o mundo passar. E ele passa, vagaroso e indiferente. Talvez já tenha tido a esperança que, um dia, me levasse consigo; mas para onde me levaria? E eu gostaria de ter ido? Não sei. Da minha janela vejo o céu azul e sinto o sol no rosto. Por mais longe que o mundo me levasse, não seria sempre o mesmo sol a aquecer-me a pele? Sorrio enquanto penso isto, e é bom quando uma pessoa consegue sorrir sozinha; apesar de haver quem chame a isso loucura. Talvez ainda possa ir pelo mundo fora, em busca de outros sóis; talvez baste acreditar e imaginar que é possível. Se existe o desejo, haverá sempre a possibilidade? Por agora não quero pensar em possibilidades, basta-me sentir a realidade concreta deste sol no rosto. Para onde irá toda esta luz que a minha pele absorve? Tanto sol que apanhei ao longo da vida, certamente que o interior do meu corpo será muito iluminado, resplandecente de luz; se tiver de ser operada ainda vou cegar os médicos. Sorrio de novo, enquanto olho a rua em busca de gente. Sempre gostei de observar pessoas, sempre gostei de lhes escutar as conversas e, através das suas vozes, conhecer-lhes os pensamentos e os sentimentos. Mas agora são raras as pessoas que passam por esta rua; e as que passam nunca conversam. Não entendo por que motivo não falam, não entendo por que motivo calam os seus pensamentos; se não são verbalizados, para onde irão todos esses pensamentos que as pessoas têm dentro de si? Permanecerão aprisionados nos corpos para sempre? Formando gases, talvez. Escuto o silêncio da rua, respiro o cheiro das árvores que estão lá mais à frente. Respirá-las é uma forma de as guardar, a verdade é que tenho florestas inteiras dentro de mim; mas ninguém sabe. Talvez seja por ter tanta luz no meu interior, as árvores dão-se bem com a claridade. Sorrio. Penso tanta tolice, são sucessões de pensamentos tolos que chegam não sei de onde e me fazem sorrir. Talvez por ser essa a única forma que os pensamentos têm de sair para o mundo: agora que a trombose me levou a capacidade de falar, resta-me sorrir. E por isso, sorrio; é como se fosse uma libertação. Mas continua a não passar ninguém na rua; o céu mantém-se azul, indiferente aos meus sorrisos. Se todas as pessoas do mundo fossem cegas, haveria quem sorrisse? Ou deixariam de o fazer, por não existir quem pudesse ver esses sorrisos? Não sei; as perguntas sempre me agradaram mas as respostas causam-me azia, são como portas que se fecham com estrondo. O que sei é que gosto de sorrir ao céu azul, apesar de ele nunca me sorrir de volta. Sinto-me livre quando o faço. Olhar e sorrir, é tudo o que me resta fazer. E esperar. Espero mas a rua permanece deserta. Desconfio que estar à janela é como olhar para o futuro; mas hoje o futuro não virá. Talvez esteja confusa e me tenha baralhado, talvez não seja domingo, talvez os netos afinal não venham. Talvez o futuro seja feito de esperas. E enquanto se espera, o mundo continua a passar; vagaroso e indiferente.
(Crônica para o Jornal de Leiria)

Almas desligadas

15. O mundo 1

15. O mundo 2

15. O mundo 3

“Será que, no fundo, quando olhamos para o mundo e procuramos os outros pretendemos apenas fugir de nós? Distrairmo-nos de nós próprios? Serão os outros distracções, seremos nós distracções dos outros?”

Texto: Paulo Kellerman

O autor escreveu o romance Serviços mínimos de felicidade. Escolhi e fotografei 27 excertos. O texto acima é um desses excertos. A partir das fotos, o autor escreveu o conto Almas desligadas, que pode ser lido como um capítulo escondido do livro.

Palavras fotografadas, fotografias narradas…

“Uma mulher com um saco cheio de mundo, ou de nada, na mão.”

Texto: Paulo Kellerman (Almas desligadas)

Memória do corpo

“Como fazes quando precisas tocar as tuas próprias memórias? Tocar-lhes mesmo, com a ponta dos dedos?”

Palavras| Paulo Kellerman

da palavra à imagem, da imagem à palavra

quero tocar-me.
a minha pele
onde guardo as memórias,
(quais?)
nela, o que sei de mim
toco-me.
mas a pele é inalcançável,
etérea,
presença feita de luz
toco-me.
mas é superfície fria contra a pele quente
(sinto)
invento lembranças marcas feridas
e flores
toco-me.
no lugar onde não posso estar
(presença fugidia)
para, quem sabe,
existir em mim.

Palavras| Ana Gilbert