quando desces da montanha

quando desces da montanha
trazes contigo o rumor dos sobreiros
e o hálito agreste da urze colado à pele.
há sempre um frio que te antecede,
como se a geada te tivesse escolhido
para corpo e manto.

eu, que me perco nas planícies,
reconheço em ti a altura do que não alcanço.
não desces apenas
trazes um mundo em suspensão,
um tremor antigo que me percorre os ossos
como um bicho indizível.

o sol recua para te deixar passar.
os charcos, esses, guardam o reflexo do teu riso
como quem aprende a arte da claridade.
e eu, que há muito deixei de esperar,
espero-te.
porque quando desces da montanha
sinto o meu corpo regressar ao seu princípio:
um sopro húmido, uma lembrança de lume,
o desejo de me perder outra vez
num inverno, que apesar de denso
deve acolher a claridade dos cristais.

Poema | Rui Coutinho

vazios

já não há santos nos oratórios.

[Gaza também é aqui]

there are no saints left in the shrines.

[Gaza is here too]

Imaginar

memória é o que se vê com os olhos da imaginação.

[no dia em que fui mais feliz]

Chegares

um instante na memória de chegares é mais valioso do que jardins, do que montanhas, do que anos de tempo.

José Luís Peixoto (A Casa, a Escuridão)

Mesmo mundo

Nós somos um mesmo mundo e uma mesma substância”.

Emanuele Coccia (Metamorfoses)

[isto também é sobre Gaza]

“Somos essa vida que compartilha o corpo de um outro, prolongada e levada para outro lugar.”

Emanuele Coccia (Metamorfoses, 2022)

Longe

“Antes longe era distante
Perto, só quando dava
Quando muito, ali defronte
E o horizonte acabava”

Gilberto Gil

morar

“Morar não significa apenas estar cercado por qualquer coisa, nem ocupar determinada área no espaço terrestre. Significa criar um vínculo tão intenso com certas coisas e certas pessoas que a felicidade e a nossa respiração se tornam inseparáveis.”

Emanuele Coccia (Filosofia da casa)

linhas sem fuga

o que fazer com as linhas de fuga deleuzianas quando não há fuga possível?

[isto também é sobre Gaza]