
Sussurra-me ao ouvido que já é amanhã.

Sussurra-me ao ouvido que já é amanhã.

“14 dias a conta gotas. Cada dia é uma gota. 24 horas a cair e a desaparecer. Gosto de fingir que não entendo a sua finitude, a sua não importância, explicando-a desta forma: 24 horas a cair e a desaparecer. Afinal, o que é uma gota num oceano? É um oceano mais uma gota. Simples.
Lá fora, o frio e as feridas em sangue, em patas que já não suportam o peso. Amor sem retorno que já não se queixa de dor. Cá dentro, a lareira, dois gatos e a falsa sensação de calor. Do outro lado da rua, a insegurança. O tempo em modo decrescente. Fora dos limites geográficos do meu ninho, a ideia vaga de um oxigénio rarefeito em bolha de marfim. Impossível de respirar. O marfim é uma pedra. A pedra não tem pulmões. Nem cérebro. Nem coração. Tem apenas um corpo frio e duro. Um corpo sem pulmões não mexe. Move-se apenas com a ação conjugada de forças, mas não dança.
24 horas a cair e a desaparecer. Os meus dias em forma de gota. A ideia bonita dos dias transformados num imenso azul. É nisso que me detenho enquanto violento as insónias, quase diárias. Talvez assim custe menos ignorar a trágica ideia da gravidade. Recordo a ironia da maçã na vida de Newton. Poderia ter sido uma laranja, mas não foi. Uma melancia certamente seria uma falácia científica. Não levaria a lado nenhum. As melancias crescem na terra. As abóboras também. Ambas flores de uma terra que engole e deglute, mais tarde, corpos que não são pedras. Muito menos pedras de marfim. Essas ficam inalteráveis. Corpos quentes e moles. Corpos providos de pulmões que respiram. Uma idiossincrasia humana, enquanto a sorte o ditar. Questiono-me se os pensamentos também podem cair e desaparecer. A Elis Regina e o Nick Cave no gira-discos e um estômago alérgico a noticiários, dizem-me que sim.”
Fotografar palavras
Projeto | Paulo Kellerman
Texto | Rita Rosa
Foto | Ana Gilbert

“Aguardo com paciência a harmonia dos contrários.”
Clarice Lispector (A descoberta do mundo)


Espreguicei as pestanas… e lá estavas tu…
(instantes ficcionais: expressão de João Gilberto Noll que se refere a narrativas mínimas, instantes coagulados que privilegiam a imagem e que capturam o mundo por meio de uma linguagem poética que se aproxima da fotografia)

“Porque o barro que nos compõe,
é esse que nos desintegra.”
Luiz Ruffato (As máscaras singulares)

Fotografe – Revista de Fotografia


“sou um momento de espera, quase um fim de solidão”
Palavras | Lya Luft (Mulher no palco)

“Que valor teria para mim a vida sem o sonho?”
Palavras | Raul Brandão (O Pobre de Pedir)

Paraty Em Foco 2020 – de 21 a 25 de outubro
Inaugurou no dia 21 de outubro a edição 2020 do Paraty Em Foco – Festival Internacional de Fotografia, umas das mais importantes referências dos festivais brasileiros de fotografia.
É uma honra e uma enorme satisfação ter, novamente, uma foto minha entre as 30 selecionadas para a mostra de autorretratos, Selfie Em Foco 2020.
É bonito ver que o festival acontece, apesar de todas as dificuldades que vivemos.
Como disse o fotográfo Juan Esteves:
“Só a arte salva! Paraty Em Foco 2020 Resistir é Preciso.
III Exposição Coletiva | “MEU MUNDO EM PORTA RETRATO”



Coletivo Fotógrafas Guarulhenses
(ao seguir o link, clicar na câmera e depois, clicar numa das imagens para visualização em tela cheia)

“Eu sou eu e minha circunstância.”
Palavras | Ortega y Gasset

Quando uma história termina? Como se identifica o seu fim?



“there is only the dance”
T. S. Eliot (Burnt Norton, Four Quartets)



O gesto aquieta o medo.


A profunda consciência do corpo.

“Imagens de mim na caminhada.”
Palavras | Hilda Hilst (Cantares de perda e predileção, XVII)