
Encontra-me na luz que te afaga.

Encontra-me na luz que te afaga.

As fotografias de uma vida são um tempo segmentado em várias pessoas ou é a mesma pessoa segmentada em vários tempos?
Are the photographs of a life time segmented into many people, or the same person segmented across many moments in time? [my translation]
Antonio Tabucchi (Para Isabel: uma mandala)

olho a menina de meia estação
que gosta de casaco marrom
e não escuta música de criança
flor em botão
enquanto a bomba h quer explodir no jardim
saboreia palavras
como caramelos
mas antes
antes
a lembrança do mundo
antes de ser seu mundo
livro aberto sobre as pernas
as marquinhas pretas
sobre fundo branco
não consegue decifrar
ainda não sabe ler
—-
I look at the girl of in-between seasons
who likes brown coats
and doesn’t listen to children’s music
flower in bud
while the H-bomb wants to explode in the garden
she savours words
like caramels
but before
before
the memory of the world
before it became her world
an open book across her lap
the little black marks
against a white background
she cannot decipher
she still does not know how to read

Como é que eu posso fazer de mim uma palavra?
Clarice Lispector


quem deixou sobre o coração um feixe de luz cega nunca
Valter Hugo Mãe (publicação da mortalidade)


A vida é assim, feita a golpes de pequenas solidões.
Roland Barthes (A câmara clara)

Quinta-feira é um dia transparente como asa de inseto na luz.
Clarice Lispector (Água viva)
Vem à quinta-feira.
Filipa Leal



Pensei que dançar era sonhar com as mãos
Entre os dedos
Com lágrimas, suor e sangue
Mas dançar é morrer e renascer, é morrer e renascer, é morrer e renascer
É a cada embate levantar-se do chão e voltar a dançar
A cada embate levantar-se do chão e voltar a dançar
As mãos esse tentáculo sensitivo que não nos deixam afogar
Tantos os que nos querem afogados, cancelados
Os medíocres
Mas acabamos sempre por vir à tona
Em espirais dançantes
Eternas, de eterno retorno, de eternidade
E enquanto dançamos, alargamos os horizontes daqueles que se deixam transportar e sonhar
E irritamos e entristecemos as almas daqueles que já morreram
Mas nada nem ninguém nos retira a liberdade de dançar uma e outra vez sempre e até sempre
Por isso a dança é um ofício da Eternidade
Viva, Poderosa, Orgânica e Mágica
Dessa eternidade que nos livra
Da intolerável opressão do sucessivo
Do mesquinho
A dança é uma ave que quando privada de liberdade
Prefere Morrer
Mas hoje e sempre continuaremos a dançar em espirais
Voo astrais
Serpentes emplumadas
Polvos telúricos
Ouroboros
E entre seres mágicos
Como os bailarinos e (com) todos aqueles que dizem sempre que sim a este sonho de Dançar, com D de gente com Dádiva, com as mãos bem abertas e de olhos fechados para o abismo de uma eternidade esplendorosa
Joana von Mayer Trindade (Dançar com D de Gente com Dádiva, in Onde Está O Relâmpago Que Vos Lamberá As Vossas Labaredas, de Hugo Calhim Cristóvão & Joana von Mayer Trindade – Nuisis ZoBoP)

Existo na sedução que a imaginação provoca.
(Um grito mudo)

Diz-me coisas que nunca ouvi.
Raul Brandão (Húmus)


Como se te perdesse, assim te quero.
Hilda Hilst



Beijar-te as costas
Com a pele. As horas
São segundos.
O teu suspiro a minha
Respiração. A espera
É o ponto de partida.
És o tempo em suspenso.
[o belo poema de Jorge VAz Dias]
