Best of

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Best of é o novo livro de Paulo Kellerman em parceria com a ilustradora Lisa Teles (Edição Escaravelho). São seis contos, seis gravuras, seis objetos. Palavras, texturas, traços, formas, cores. Materialidade que aguça os sentidos e a imaginação e provoca outras imagens, inúmeras, que se desdobram e convidam o leitor a continuar nelas (sim, porque os textos carreiam imagens), a explorá-las e a ir além.

O fio que une os textos e as imagens refere-se à busca de si, à consciência de si, ao susto da descoberta e à solidão intrínseca a esse processo. Os diálogos que acontecem entre o eu e o outro, um outro ao mesmo tempo externo e interno, revelam mundos separados, desencontros dolorosos, encontros às avessas, ânsia por intimidade e o medo dela. A angústia de ser quem se é convive com a busca pela liberdade de ser, de viver. As imagens e os textos nos fazem pensar em como nos percebemos ao sermos vistos por alguém, como nos mostramos, ou não, ao outro, como nos escondemos de nós; expectativas e decepções; anseios, vazios e obsessões; prazer. Tudo reunido e pensado num corpo, por vezes quase ausente (como se fosse possível), por vezes insuportavelmente presente.

Vazios (cheios de tanto!) que se disfarçam sob a forma de pensamentos, emoções, desejos, sonhos, fantasias; voláteis e impalpáveis como o ar, materiais e concretos como o ar. Silêncios que pesam e gritam para nós, sobre nós, que nos espantam com as suas vozes assustadoramente familiares. Olhares que preenchem, que atravessam, que pedem, que tocam. Que veem.

Sabemos que texto e imagem compõem ‘substâncias’ diferentes, e não são mera reprodução um do outro. As belas ilustrações criam narrativas autônomas que, se por um lado oferecem novos sentidos aos textos, por outro, comportam, elas próprias, outros fios narrativos possíveis. Somos delicadamente capturados e surpreendemo-nos a perguntar, a imaginar, a olhar por cada uma dessas janelas.

Textos e imagens instigam, questionam, desassossegam. Enchem os olhos de poesia. E de algo mais.

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Diálogos narrativos

Colaboração com Paulo Kellerman

“E então senti uma dor tão visceral, tão imensa, tão desconcertante, que a única coisa que consegui fazer para lhe fugir foi esmurrar o meu reflexo no espelho, uma e outra vez, com ambas as mãos, com toda a força que possuía, tentando desesperadamente que a dor física suplantasse por um segundo (bastaria um segundo) a outra dor que se apoderara de mim, tentando desesperadamente que a dor física me distraísse da dor da perda e da impotência, da dor do desespero, da dor do ódio. Fui esmurrando o meu reflexo no espelho, fui esmurrando-me.”

Almas Desligadas | com Paulo Kellerman

Fotografar palavras #1738

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“Hoje convidei-te para tomar um café, ou um chocolate quente, algo que nos aqueça o olhar ou nos aqueça por dentro e é um bom começo. Ha-de haver sempre um bom começo e sempre dá para te olhar mais de perto e quando te olho mais de perto apaixono-me mais. Quando te olho mais de perto por apenas aqueles segundos em que bebes o café, sou feliz para sempre, juro, se tu soubesses que te pago o café para me apaixonar todos os dias por ti, ficavas ali de chávena na mão a vida inteira. E eu apaixonava-me, sempre, vestia-me de ti, todas as vezes. Sim porque estar apaixonado é estar vestido de alguém. E nunca se está mal vestido quando se está apaixonado.”

Fotografar palvras

Projeto | Paulo Kellerman
Texto | Jorge Gomes Pereira
Foto | Ana Gilbert

Relevos

Auto-retrato 162 1

“O que sentirá o meu corpo com o teu abraço, depois de ter sido tocado pelo teu olhar?”

Texto e foto | Ana Gilbert

Almas desligadas

Em novembro de 2016, Paulo Kellerman publicou o romance Serviços Mínimos de Felicidade. Em julho de 2017, Ana Gilbert recebeu-o de presente do autor: um livro impactante, denso, poético e extremamente imagético. A vontade de transformar as imagens potenciais em atuais levou-a a escolher (difícil tarefa) e fotografar 27 excertos do romance. A partir desse conjunto de fotos, novas leituras e possibilidades surgiram e Paulo Kellerman escreveu o conto Almas desligadas, que pode ser lido como um capítulo escondido do romance.

Palavras fotografadas, fotografias narradas…

Almas desligadas integra a exposição Almas Desligadas e Outras Histórias que inaugura amanhã na Galeria Indoor.

Produção | Rococó Clean

Desejo de presença

Na série Desejo de Presença, Ana Gilbert trabalha o autorretrato como suporte de expressão artística e tem como objetivo experimentar o corpo como ficção na sua relação com o mundo. A fluidez dos contornos, a reverberação desses contornos no espaço e a ênfase do corpo como ‘presença’ que interpela e afeta são características marcantes deste trabalho da artista.

Os autorretratos são parte da exposição Almas Desligadas e Outras Histórias, que inaugura dia 12 de abril na Galeria Indoor a partir das 19h. Todas as obras estarão à venda e a galeria ficará de portas abertas também no dia 13 de abril, das 14:30 às 20h.

Produção | Rococó Clean

Almas Desligadas e Outras Histórias | Exposição |

Na exposição Almas Desligadas e Outras Histórias, Ana Gilbert apresenta três fragmentos de seu trabalho que dialogam entre si de forma natural. São autorretratos, recortes de esculturas em mármore e uma série de fotos de excertos do livro Serviços Mínimos de Felicidade, escrito pelo autor português Paulo Kellerman, numa bonita parceria entre fotografia e literatura.

Todas as obras estarão à venda na Galeria Indoor a partir da noite de abertura, no dia 12 de abril.

Galeria Indoor | Produção: Rococó Clean

Fotografar palavras #1661

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“Querido Ausente, espero que te encontres bem. Hoje fui mais cedo para o ensaio, o que me impossibilitou de ver o nosso homem jovem a olhar, furtivamente, o rio. Em contrapartida, estive muito tempo na rua. Sempre gostei de ruas, e não são raras as vezes, que sinto serem elas, as ruas, a observarem-me, e não o contrário. As ruas são uma espécie de entidade que pertence ao ar livre. Nelas, ouve-se de tudo. Listas de compras de supermercado, o preço de pneus, considerações futebolísticas, doenças, para além dos habituais “é a vida!”, “são todos uns ladrões” ou ” amanhã vai chover “. No regresso a casa, ouvi um homem dizer a outro:” São sempre os portugueses que lixam os portugueses. Mais ninguém. “Há coisas curiosas, como, por exemplo, o poder que algumas palavras têm de me transportar para outro lugar, sem qualquer autorização. O comentário sentencioso daquele português levou-me para Kafka. Para a sua história O Médico Rural. E perguntei -me quais são as regras gramaticais – caso existam – que explicam que um ser universal deverá ser como o médico rural que sai, no Inverno, da sua casa, para atender doentes que não querem ser curados mas, unicamente, serem salvos. O médico daquela história é dilacerado pelos camponeses. Não sei como as ruas fazem, querido Ausente, se calhar tapam os ouvidos e os olhos. Ou então, riem-se. Ou talvez se alimentem dos beijos dos outros. Minhas queridas ruas que tanto custaram a conquistar. 
Beijos da tua rapariga simples”
 
Projeto | Paulo Kellerman
Texto: Susana Sá
Fotos: Ana Gilbert