Marés

Tenho um mar revolto e intransponível dentro de mim.

“Do I dare disturb the universe?” (T.S. Eliot, The love song of J. Alfred Prufrock)

circuito

Texto | Ana Gilbert

ela menina, eu mulher; filme em retrocesso. ela de uma nacionalidade, eu de outra; lado oposto do mundo. aqui, agora, a meio caminho dos nossos destinos; bagagem, raio x, imigração. ela no colo da mãe, tão mulher, eu sobre meus próprios pés num caminhar apressado e incerto, tão menina; à distância de um toque. o olhar marcado por pestanas escuras e longas; abissal. o frio visceral do espanto, o dela, o meu; imagens especulares. percebes? e a transparência dos corpos por detrás do espelho. fresta que se abre por onde passeiam presságios, desígnios, perguntas. vejo-me, estrangeira de mim. nenhum sorriso, apenas eletricidade; corrente contínua em circuito fechado. as duas em suspensão, no lugar do não-lugar, em travessia. azul.

“Não há nada mais temível do que o tempo que pára, ficamos iguais para sempre e essa é a maior desgraça.”

Palavras | Afonso Cruz (Para onde vão os guarda-chuvas)

o último voo

Experimento abrir as asas, lentamente. A esquerda, em especial, a mais machucada das duas. Estico-a com cuidado, visualizo cada articulação, testo uma a uma. Repito o movimento e descubro: está inteira. Pensava-a morta ou agonizante. Percorro os dedos por toda a sua extensão: sinto dor em alguns pontos e a umidade espessa de sangue. A asa direita parece não requerer maiores cuidados; sinto-a mais leve, apesar de uma pulsação atordoada.

Tenho os olhos fechados, mas sou capaz de ver (ou imaginar?) as minhas velhas asas, as saliências por onde brotam nas costas. Ainda lembro o misto de espanto e tristeza quando descobri esses pequenos brotos em mim e percebi a condenação. O corpo, sinto-o inerte, exausto. A mente, em desalinho; sentimentos confusos que são como agulhas finas e longas provocam pequenos choques que estremecem as asas. Constato o fluir incessante da vida que grita dentro de mim. Não sei bem como cheguei até aqui depois do confronto. Um repouso no meio do nada que é a noite; o vazio que suspende a saudade. Entreabro os olhos e vejo a luz que desponta no horizonte. Fere. E com a visão, tomo consciência da sensação de desconforto do rosto contra a rocha ainda fria do hálito da madrugada. Estou só e a pele escassamente coberta deixa penetrar o frio por veias e artérias.

O canto agudo de um albatroz solitário, esse irmão de alma, transpassa o coração como uma flecha; chama-me de volta ao tempo, fala-me do meu destino. Viro-me com cuidado, tentando proteger os pulsos fragilizados. Com esforço, consigo sentar e encaro a vastidão do mar que se torna céu em algum ponto além. Rastejo até a beirada e vislumbro o abismo, bem perto de mim. É preciso continuar o voo; sei que não posso descansar por muito tempo. Levanto-me, abro as asas por completo. Ensaio movimentos. Ergo a cabeça, fecho os olhos; inspiro e expiro umas quantas vezes até ter a certeza de que os pulmões ainda sabem como respirar. E num ímpeto, lanço-me ao espaço, na explosão do grito, na vertigem do novo dia, sem saber ao certo se conseguirei sustentar-me.

Texto e foto | Ana Gilbert

Do desencanto

Das coisas fascinantes do Projeto Fotografar palavras do escritor Paulo Kellerman: receber um texto para fotografar e, quando da publicação, descobrir que ele já compõe uma narrativa com outra foto e que a minha foto se alinha e complementa essa narrativa com surpreendente harmonia de elementos.

[dum lugar íntimo do desencanto]
todos os nossos passos decolam em direção ao caos
eu até parece que danço — mas condenso, só
eu até parece que passo — mas espaço, só


Texto | calí boreaz
Foto de partida: Nita Ferreira
Foto de chegada: Ana Gilbert

“Porque no Impossível é que está a realidade.”

Palavras | Clarice Lispector (Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres)

“Há uma vertigem temporal entre mim e os objetos e sinto-me a desequilibrar entre o antes e o agora.”

Palavras | Joana M. Lopes

Algures

Aquele que me habita, e escreve, vive algures numa espécie de treva.

Palavras | Al Berto (O anjo mudo)

Fotografar palavras #1823

“Fim

“No dia que fecharem
os teus olhos,
virão os amigos
as palavras doces

a escuridão
terra fria

No dia que fecharem
os teus olhos,
choros inundarão rios
fogos te consomem

teus
sonhos se extinguem

os olhos são vida
e morre a vida
no dia que fecharem
os teus olhos.”

Texto | Jorge Gomes Pereira
Foto | Ana Gilbert