“ Estou farto de portas fechadas” | Ensaio

O presente ensaio celebra os 150 anos de nascimento de Carl G. Jung e seu brilhante entendimento do ser humano como ser criativo.

O texto aborda o tema da ética de hospitalidade em análise. Para tanto, parte da arte, mais especificamente, da ópera contemporânea portuguesa O Tempo (Somos nós), cujo libreto é de autoria de Paulo Kellerman, para iluminar a prática clínica, tendo por base o texto O Banquete, de Platão, em articulação com a psicologia analítica.

Tanto na ópera quanto no processo analítico, Eros surge como fenômeno mais amplo, capaz de restaurar uma possibilidade criativa que reacende a alma, enquanto lugar da experiência do indivíduo, e de integrar aspectos dissociados da psique individual e coletiva.

*** 

This paper examines the subject of hospitality in analysis. It starts from art, more specifically the contemporary Portuguese opera Time (As we are), whose libretto was written by Paulo Kellerman, to illuminate the clinical activity based on Plato’s Symposium, in articulation with the analytical psychology.

Both in the opera and in the analytical process, Eros emerges as a broader phenomenon, capable of restoring a creative possibility that rekindles the soul as a locus for the individual experience, and of integrating dissociated aspects of the individual and the collective psyche. 

TEXTO COMPLETO PARA DOWNLOAD AQUI

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Humanity: the ability to put ourselves in someone else’s shoes. If we choose not to do so, we are not human. We are something else, but not human. Something else. Something. 

Searching for meaning in life is like asking a mountain to explain what a kiss is.

Texts | Paulo Kellerman

Photos | Ana Gilbert

PORTABLE LINK , a dialogue between photography and literature

XXXVI


It is this body that holds all that I am.

An envelope that contains me,
Defines me,
Limits me.

And everything I am is born in it.
But is everything that is born in my body mine?

Universes of desires that arise and grow
And multiply,
Fleeting or perhaps eternal,
Powerful and immense in their power
Of disconcerting.

Do they belong to me?

Desires that are dreams
Without flesh
Or material density
Or geometric contour
Or palpability.

Perhaps dreams are a concrete reality,
As concrete as the most consistent
Of realities.
Concrete like a tree or a bridge or a clothesline or a fire
Or a body.m
But a reality lacking the senses.

Concrete,
But without dimension or volume.
Without physical outline or measurability,
Just intention and design.
Like when you say you want to give me a hug
Or a kiss,
But you do not really give me a hug
Or a kiss.

My body produces universes of desires,
Immense in their power
Of disconcerting.

But useless.

What good are dreams
If you cannot touch them?

in And when the questions are over? REIMAGINED

Paulo Kellerman (text) & Ana Gilbert (photo)

Nem bestas nem santas

Esta é a minha contribuição para a performance NEM BESTAS NEM SANTAS, com o tema da opressão do feminino e o patrimônio intemporal de feminilidade.

É a quarta produção NEM MARIAS NEM MANÉIS, uma companhia jovem que tem produzido trabalhos contundentes e poéticos que nos fazem sentir e questionar. E, principalmente, que nos irmanam numa experiência de coletividade.
Parabéns e muito obrigada.

A performance aconteceu ontem, 19 de setembro, no m|i|mo, em diálogo com a bela exposição do nosso projeto FOTOGRAFAR PALAVRAS, em Leiria, Portugal, essa cidade que também é casa.
…..

“Olha as estrelas e pensa: são minhas testemunhas.
Pensa: estão a ver tudo o que sinto e faço.
Tal como viram tudo o que biliões de outras mulheres
sentiram e fizeram.
Desde a primeira mulher que viveu.
As estrelas são as mesmas. Aquelas que tu própria podes olhar enquanto pensas: são minhas testemunhas.”

…..

Texto: Paulo Kellerman
Encenação e Dramaturgia: Cátia Ribeiro
Interpretação: Andreia Mateus, Catarina Mamede, Cátia Ribeiro e Rita Rosa
Movimento coreográfico: Cátia Ribeiro e Rita Rosa
Ilustração ao vivo: Maraia
Música: Nelson Brites
Vídeo: Milady
Artes manuais: Cátia Ribeiro e Sandra Ribeiro

Círculo: Daniela Mateus, Dora Fonseca, Fátima Gonçalves e Mariana Lourenço

Fotografia: Ana Gilbert, Andreia Mateus, Anna Monica Rigon, Anna Papachristou, Carina Martinho Coelho, Carolina Geiger, Cristina Vicente, Elsa Arrais, Fabiana Fraga, Federica (Final Girl 7), Jelena Stankovic, Joana Neves, Julie Flam, Martha Takahashi, Nadir Social Lens, Sêmmada Arrais, Sílvia Bernardino, Teresa Santos e Vanda Cristina

Fotografia de Cena e produção: Cristina Vicente

Dia caindo em horas mornas; a saudade, provocante, desenha tempo com luz, aproximando-se em intervalos sussurrados:

– Contas-me os teus segredos?

    …..

    The day falling into lukewarm hours; longing, provocative, drawing time with light, approaching at whispered intervals:

    – Will you tell me your secrets?

      Text(o) | Cristina Vicente

      in LATITUDES, 2025

      Ana Gilbert & Cristina Vicente

      I am made of volcanic ash
      where pipe dreams and grief marry and clash

      words: Ana Sofia Elias

      [there are people who reflect and unfold us, who share wings and shadows]

      Your absence has made you more real, more authentic. Can you understand?

      A tua ausência tornou-te mais real, mais autêntica. Percebes isto?

      Text(o): Paulo Kellerman

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      um lugar de passagem

      a place of passage

      uma câmera
      um rolo de filme
      dois fotógrafos

      Frankie Boy fotografou Ana Gilbert
      Ana Gilbert fotografou Frankie Boy

      escreveram com luz
      com palavras

      fragmentos de tempo
      atravessamentos de histórias
      encontro

      ***

      a camera
      a roll of film
      two photographers

      Frankie Boy photographed Ana Gilbert
      Ana Gilbert photographed Frankie Boy

      they wrote with light
      with words

      fragments of time
      interweaving of stories
      encounter

      Que o ciúme não te adelgace

      Crescer nos acentos perpétuas cobras d’água e logo a seguir
      para que o ciúme não te adelgace
      Pela cauda desengomo-te virgulados alguns actos
      entre uma mornura de focinhos islandeses
      {rafeiras arfadas}
      e o inteira me prumares recatada.

      Tibar-nos, como se tiba a latina linguagem, julgo branco e impossível.

      Texto da Ana Sofia Elias e foto minha

      [do nosso baú imaginado de imagens e palavras ardentes]

      FOTOGRAFAR PALAVRAS # 5237

      Elas, mulheres algodoeiras do mar 

      Estendidas por uma vasta praia 

      -com bosques dourados, falésias amaciantes, templos, rios, lagos e estradas sem cavalos voadores ou torangeiras, onde palácios vermelhos, jardins suspensos e torres de cúpulas brancas espelhavam as nossas malváceas damascenas – 

      Nessa praia, estas palavras.
      De musselina tridente 
      têm-nos presas a nenhum lírio fixo. 

      Pequenas mordidelas atlântidas 
      de plâncton saciante 
      que não ficaram presas ao anzol de frésia.

      Deitadas, agachadas, hirtas 
      como a renda que ainda não madrugou na água 
      Mulheres algodoeiras do mar
      colhem palavras abracadabrantes 

      O poema acontece na costura a linha de peixe 
      onde penduram pedras preciosas, quase invisíveis.

      E o som é de figo maduro tragado a meia romã 
      Porque é na Pangeia da manhã 
      que se provam as despedidas e os orvalhos. 

      *****

      Them, cotton-harvester women of the sea

      Spread across a vast shore

      —with golden woods, softening cliffs, temples, rivers, lakes,
      and roads untraveled by flying horses or grapefruit trees, where crimson palaces, hanging gardens, and white-domed towers
      mirrored our damascene mallows—

      On that shore, these words.
      Of trident muslin,
      they keep us bound to no fixed lily.

      Small Atlantidean nibbles
      of satiating plankton
      never caught on a freesia fishhook.

      Reclining, crouched, upright—
      like lace not yet awakened in water—
      Cotton-harvester women of the sea
      gather abracadabra-like words.

      The poem takes shape along the fishline-made seam
      where they hang near-invisible gems.

      And the sound is that of ripe fig
      swallowed with half a pomegranate—
      For it is in each morning’s Pangaea
      that farewells and dewdrops are tasted.


      Texto | Text: Ana Sofia Elias (com interferência de | with interference by Ana Gilbert)

      Fotografia | Photography: Ana Gilbert (com interferência de | with interference by Ana Sofia Elias)

      FOTOGRAFAR PALAVRAS, projeto desenhado pelo Paulo Kellerman, é casa para imaginar e criar.
      Diariamente, desde 2016.