Fotografar palavras #2564

“A minha casa existe em partes de luz e sombra, de ausência e dor. Existe à beira do mundo, das coisas, assim, em pedaços. Como uma flecha que se divide ao ser lançada ao espaço, num gesto autônomo que acontece por si.
Escrevo em busca da casa inteira, das imagens que levantarão as paredes, que completarão a costura, que anteciparão a quebra.”
 
 
Fotografar palavras
Projeto | Paulo Kellerman
Texto | Ana Gilbert
Foto | Francisco Válga

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(obrigada, Francisco, por aceitares o desafio. Obrigada, Paulo, pela acolhida)

3 anos…

3 anos de sutilezas…

O meu obrigada, sempre, aos que me acompanham por aqui… pelos sorrisos, pelo desassossego, pelo espanto que o meu olhar possa ter provocado… porque a função da arte é afetar…

“O problema não é inventar. É ser inventado hora após hora e nunca ficar pronta nossa edição convincente.”

(Carlos Drummond de Andrade, Corpo)

 

Geografias corporais | Ensaio

Academia e arte. Brasil e Portugal. Dança, fotografia e literatura. Diálogos em torno de múltiplas corporeidades.

Projeto com o grupo de pesquisa sobre movimento Te encontro lá no Cacilda / Pulsar Cia. de Dança | Teatro Cacilda Becker, Rio de Janeiro, Brasil.

Geografias corporais: dança, corpo e deficiência | Ana Gilbert e Paulo Kellerman

Revista Interface – Comunicação, Saúde, Educação | Seção Criação

Biblioteca SciELO Brasil e SciELO Saúde Pública

(Foto: Ana Gilbert)

“Entro na sala e sorrio. Digo: Oi. Depois digo: Tudo bem? E continuo a sorrir.
(Penso: Sorrir será a melhor forma de espera, de adiamento, de suspensão?)
Olha-me e sorri. Levanta-se, aproxima-se lentamente. Depois, abraça-me.
Sinto estranheza. Não é fácil receber o abraço de uma pessoa desconhecida. Não é fácil abraçar uma pessoa desconhecida. Mas correspondo.
Foi assim que nos conhecemos. Apenas mais tarde percebi que abraçar é uma forma de comunicar; como se o abraço fosse voz, e cada abraço tivesse uma tonalidade específica. Tal como cada palavra pode ser dita com um timbre diferente.
Não o ouvi falar. Mas conheço a sua voz.”

(Paulo Kellerman)

 

do tempo

os dias as cores os medos a respiração
parados, à espera
à espera
dos dias das cores dos medos da respiração
livres
das angústias medidas
das dores mediadas

reverberação

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reverberação

Ao escutar o som amplificado do violino, a primeira reação é de contrariedade: a melancolia do instrumento é corrompida pelo amplificador barato. Irritada, volto ao café, quero aproveitar os últimos minutos antes de começar o dia de trabalho; porém, é mais forte do que eu e me pego a imaginar que o som já terá chegado à sala (reverbera dentro de mim) e que me distrairá das histórias, das pessoas (não quero que se aninhe em algum canto escondido). Um vidro e uma parede me separam (protegem?) da cena. Folheio o livro sem foco, percorro as telas do celular sem interesse, a passar por caricaturas que são vidas, a escoar a minha própria vida. Sinto incômodo. Olho de relance e só agora noto a presença da partitura, o pé a marcar o compasso do texto. A vida entra em modo pause. Espicho o pescoço. Pela primeira vez busco ver o músico e descubro que são dois rapazes a tocar; a mala aberta no piso coberta com o pano cor de vida para receber os trocados que nem sei se dão para alguma coisa.
Tento ler seus olhos: estão lacrados, ou talvez, apenas concentrados naquelas pequenas marcas negras sobre o fundo branco. Partitura. Partido. Partes. Imagino-lhes a vida: estudantes de música, quase com certeza. Devem ser de outra cidade e vieram cursar a faculdade; alugam um quarto numa casa antiga com outros estudantes iguais a eles. Ou quase. O arco desliza, em câmera lenta; vez por outra, sons de buzinas estilhaçam o ar, impacientes. Uma criança de uns três anos se aproxima com uma nota. Quer entregá-la na mão de um dos músicos (a relação se faz de mãos que pedem e nem sempre recebem? que doam e nem sempre são acolhidas?); ainda não percebe as diagonais, as perpendiculares, os trajetos dos desencontros. A mãe indica a mala e ela deposita feliz aquilo que ainda não entende. O livro esquecido, o celular na bolsa, presto atenção à música, um Vivaldi mal executado, um inverno neste verão escaldante e empoeirado, mas que de súbito toca alguma corda em mim e provoca uma ternura por esses seres anônimos, perdidos numa cidade abandonada, a tentar espalhar alguns sorrisos distorcidos pela tecnologia, a tentar ganhar algum dinheiro distorcido pela caridade. E eu olho, penso se tenho dinheiro trocado (deveria dar alguma coisa em retribuição ao que eles provocaram em mim?). Olho as árvores em volta, a rua movimentada, os motores rasgando o asfalto, o estado de sobrevivência, e penso se estou a viver, de verdade. A tecla pause é desligada e a vida continua seu movimento autônomo. A ternura escorre, a comunhão durou pouco; também eu sou feita de desencontros. Uma pergunta grita dentro de mim: o que não fizeste por nós?

Texto e fotos | Ana Gilbert

Zona crepuscular

É fim de tarde, o sol desce no horizonte e traz aquele silêncio de um tempo limítrofe. A água do mar me chama, num apelo surdo, hipnótico. Entro devagarinho e sinto o silêncio; sobe cálido pelos pés, pernas, contornos, sexo, cintura. Mergulho e a água envolve-me como um afago. Sinto o corpo distensionar, músculo a músculo, fibra a fibra, poros e pensamentos. Inspiro e o silêncio me penetra, ecoa pelo corpo, expande os pulmões, aquieta a pulsação, suspende o tempo. O vento sopra solidão sobre a pele.

Mexo mãos e pés, deslizo dedos sobre superfícies imaginárias, o teu corpo, o meu. Os olhos fechados tornam-se lúcidos; voltam-se para outro mundo, aquele que deixei há tantas vidas. Nele me encontro, e vejo-te, à espera. Estiveste sempre aí? O toque se materializa e sinto: são arraias, grandes e pequenas, várias, muitas, numa dança etérea, um voo fora do ar. Circundam-me, algumas se enterram na areia, como ouro profundo à espera de revelação. Ondulo como elas, voo com elas, deixo-me ficar, entregue a essa liberdade momentânea. Nossas superfícies se encontram, num prazer mútuo.

Subitamente, algo me faz abrir os olhos. Anoiteceu sem que me desse conta. A maré subiu, a água que chegava à cintura quase me cobre inteira. Perdi-me em devaneios e me desnorteei. Volto-me sobressaltada à procura da praia, da textura da areia, da referência. Tenho medo de ser levada pela correnteza. As arraias continuam a nadar, alheias ao meu pânico; elas que eram parte de mim, agora me parecem estranhas, ameaçadoras. Não consigo tocar a areia; engulo a água salgada, engasgo-me. Sinto falta de ar e preciso me concentrar para não afundar por completo. Os olhos abertos não servem para muito na escuridão da realidade. A noite acontece dentro de mim e já não estás.

Percebo que me estou a mover, um nado instintivo que me tira do desespero. Aliviada, agora sei onde está a praia e esforço-me na intenção de chegar até lá. Ganho ritmo, a respiração torna-se cadenciada; a praia está logo ali, à frente, penso, e quase consigo sentir um pouco do prazer de antes. Nado mais e mais, porém algo está diferente, desestabiliza a determinação. Começo a duvidar da direção que escolhi; volto a olhar em redor e não distingo nenhuma silhueta, nenhum vestígio de terra firme. Constato que me enganei: nadei em direção ao mar aberto e não chegarei a lugar algum. O tempo cai pesado sobre mim, empurrando-me para baixo. A exaustão toma conta e já não há volta possível. As arraias voltam a circundar-me; aprisionam-me, fantasmáticas. Fecho novamente os olhos antes da entrega. E penso em ti.

Texto e foto | Ana Gilbert