

Roménia – crônica


“Presa ao teu olhar pressinto o encaixe perfeito em meu corpo, tua boca procurando a minha, trazendo ao meu desejo o esperado sabor de tua saliva e permito que me vasculhes até o teu prazer encontrar o meu para ambos desabarmos aliviados, deglutindo em silêncio o esperado final desse encontro.”
Palavras | Neide Rodrigues

Da materialidade dos sonhos…




“Por trás da cor dos olhos” | Ensaio |
Pulsar Companhia de Dança
As horas mortas

Foi à varanda fumar um cigarro, como de costume. Mas desta vez era diferente. Casamento desfeito, malas arrumadas, ida para um apart-hotel. Repara na vista da varanda que é desconhecida. Terá de observar cada edifício, cada árvore, até conseguir visualizá-los de olhos fechados, para que a paisagem se torne familiar, como a outra.
As roupas trazidas, poucas, menos do que necessita -ternos bermuda camisas sapatos- convivem pacificamente no armário. Uma paz que não sente. Sabe que qualquer dia destes será preciso voltar e buscar mais. Objetos, quase nenhum, salvo alguns papéis dos negócios mais recentes, coisas de uso diário e a cigarreira de prata, herança de um avô distante, que agora acaricia.
Volta a pensar na mulher, nos filhos dormindo a essa hora. Prefere a madrugada, a hora morta do dia. Sem solicitações familiares. O mundo se suspende por alguns momentos e quase é possível iludir-se de que tudo não passa de um episódio de mau gosto para perturbar sua metódica rotina. Mas sabe que não. Não desta vez. Agora é sem volta. A discussão com a mulher, que os filhos tardios presenciaram, arrebentou os últimos fios dos frágeis laços que os uniam. Corroídos pelo tédio. Era isso. Toda a sua vida se desenrolara em meio a um grande e inequívoco tédio. Dividia-se entre as roupas de trabalho e as outras, as de viver, que quase não usava.
Agora, frente ao vazio do horizonte, tenta retraçar os momentos bons, mas não consegue. Como os edifícios da nova vizinhança. Eles escorregam na memória, pregam peças, escondem-se por entre os contratos fechados com os seletos clientes. Percebe que o vazio é também seu. Depara-se com o abismo instalado, sorrateiro, cavado sistematicamente a cada novo amanhecer sem sentido.
Uma brisa morna, estagnada, balança as folhas das árvores da rua. Imagina sentir um cheiro acre, que o deixa vagamente nauseado. Um leve tremor perpassa os dedos que sustentam o cigarro. Ao olhar a sala, percebe nos móveis impessoais as escolhas que nunca foram profundamente suas, mas de alguém que o habita. Quem?
Pela primeira vez é capaz de nomear algo em si e empalidece. Um filete de suor frio escorre pela têmpora. Sente, e isso é novo, que é preciso fazer alguma coisa. Aquela sensação difusa na boca do estômago de repente grita dentro dele. Uma dor aguda corta-o em diagonal, como o risco do espelho partido pelo frasco de perfume de mulher na noite anterior.
Como que em câmera lenta, apaga o cigarro e encara o telefone. Em algum ponto da cidade, na paisagem compartilhada, um outro telefone toca.
…
Trilha sonora | The final cut (Pink Floyd)
…
Texto e foto | Ana Gilbert

“Por trás da cor dos olhos” | Ensaio |
Pulsar Companhia de Dança

“Quando voou, percebeu o quanto cansada estava de andar. Dos passos que já não se faziam sentir, ruidosos nas voltas que davam anunciando chegadas adunadas em partidas. Cansada, dos lugares perfeitos ao olhar que apenas retinham o corpo. Da terra pisada por muitos fingindo apenas beijar os seus pés.
Talvez o céu guardasse um pedacinho só dela, onde o silêncio a fizesse despertar. Talvez uma nuvem onde repousasse o coração. Quando o coração repousa, desprovimo-nos de emoções. Os olhos ganham a cor da clareza encaixando peças nos puzzles que se recusam completar. Pedaços de vida que encaixotamos em saudade.
Talvez no céu existisse quem voasse como ela. Quem fizesse brotar nas mãos páginas que cevam o voo. Livros que se abrem, por desvelo, no capítulo que mais faz impelir. Asas de papel de estórias infinitas, reescritas por quem é, e sabe dar, felicidade.
Talvez, uma vez no céu, pudesse mudar as estrelas. Criar constelações que partilhassem o brilho com quem se quer encontrar. Por sermos reflexos de luz só somos visíveis a quem nos consegue iluminar. Um fundir de cores libertadas em sorrisos de genuínos sentimentos.
São aqueles que existem para além do sangue que percorre a carne, que saboreiam o azul que envolve todos os outros. Talvez o céu pertença aos que voam pela sua essência de, somente, fazer voar…”
Projeto | Paulo Kellerman
Texto | Catarina Vale

“Descubro que ser desadaptada é a minha fonte.”
Palavras | Clarice Lispector (A descoberta do mundo)

Projeto | Paulo Kellerman
Texto | Ana Gilbert
Foto | Chico Vilaça

“A barca vai longe
O rio é turvo
Os peixes são muitos
O rio para
O rio escuta
Lodo e lama
O remo firma
O barco corre
De costas
Pequeno passarinho
Pousa em minha janela
E olha
E mira
Rechaço
Não traz folha de oliveira
Nem terra
Traz água, amigo
Traz mar
E voa”
Projeto | Paulo Kellerman
Palavras | Lorena Kim Richter
Só a tua
Primeiro azul do ano…

“As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.
Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.”
Palavras | Carlos Drummond de Andrade
Júbilo, memória, noviciado da paixão

“Eu te pareço louca?
Eu te pareço pura?
Eu te pareço moça?
Ou é mesmo verdade
Que nunca me soubeste?
Palavras | Hilda Hilst (De amor tenho vivido)
Fotografar palavras
Ando muito por aqui…
O blog Fotografar palavras, criado há dois anos e meio pelo escritor português Paulo Kellerman, propõe como exercício criativo transformar palavras em imagens. Escritores selecionam trechos de textos seus e os fotógrafos encontram uma (ou mais de uma) imagem nas palavras. O que se vê por lá é uma declaração de amor às palavras e às imagens; à literatura, à fotografia e à arte em geral, numa colaboração instigante e harmoniosa entre talentos e estilos. Afeta, emociona, faz pensar… realiza-se como arte.
O programa Fotobox, da televisão portuguesa RTP3, dedicou a edição de número 113 ao projeto. Pode ser visto aqui.



