
Liminal space




“E assim, de repente, apercebeu-se de que não era só o seu coração que estava seco, mas também a sua voz e as suas mãos.
Pelas palavras que não mais foram ditas e as letras que, presas nas suas mãos imóveis, se refugiaram na timidez de quem nada sente.”
Fotografar palavras
Projeto | Paulo Kellerman
Texto | Maria João Faísca
Fotos | Ana Gilbert
O evento CONVERSAS LITERÁRIAS: CLARICE LISPECTOR | Água Viva – desdobramentos aconteceu hoje, 01 de outubro de 2021, com a participação de Sigrid Haikel, Maria Lúcia Lorêdo Jorge, Aurea C. Torres e eu.
Conversas Literárias é o núcleo de literatura do Instituto Junguiano do Rio de Janeiro (IJRJ /AJB), e o evento aconteceu no âmbito das CONVERSAS JUNGUIANAS.
A renda do evento será revertida para a Casa das Palmeiras – Nise da Silveira.
O vídeo e o texto abaixo são a minha contribuição para o evento.
Comecei a participar do grupo Conversas Literárias há pouco tempo. Quando entrei, o livro Água Viva, de Clarice Lispector, avançava para o seu final. Porém, ele já reverberava dentro mim: vinha fotografando suas frases, usando, por vezes, a vertente do autorretrato como forma de expressão. Assim, quando surgiu a ideia de apresentarmos os nossos desdobramentos do livro, compreendi que só poderia trazer a vivência da leitura através destas imagens-palavras.
Falar de Água Viva é falar do entrelaçamento entre palavra e imagem, relação essa que me é tão cara como terapeuta e artista. Em um texto que escapa à definição de romance, no sentido de uma história mais estruturada, com personagens e ações mais claramente delimitadas, Clarice dá vazão a um fluxo de consciência de extrema beleza e profundidade. Convida-nos ao mergulho e avisa-nos dos perigos. O perigo das palavras e suas sombras. Da tensão que existe entre as palavras e as imagens que delas emanam. O fascínio exercido por essa zona limítrofe, a superfície da água, que demarca a fronteira entre a vigília e o sono, entre as instâncias da psique (consciência e inconsciente).
E nós aceitamos o convite. Sabedoras do que nos espera. Nunca preparadas. Acompanhamos a personagem/narradora, um eu feminino, que escreve a um tu masculino, um tu que é também cada uma de nós, leitoras. Percorremos trilhas de qualidade aquática, fragmentadas e poéticas, marcadas pelo tempo lento da alternância entre movimento e quietude. Experimentamos, em nós, o assombro do instante-já de que fala a narradora, a vivência de algo que escapa à racionalidade e se manifesta como fluxo. Experienciamos a relação com o espaço que nos circunda. Um espaço que é, ao mesmo tempo, externo e interno. Cheio e vazio. Um espaço que se descortina estranho e ampliado quando vislumbrado na superfície refletora da água ou do espelho. Múltiplos espelhos, múltiplas imagens: de nós e do mundo que habitamos e que nos habita. Instantes-já da relação eu-tu, coagulados como fotografias. Cenas e, com elas, a profundidade das palavras que nos leva ao seu outro lado: à sua sombra, ao seu avesso. À realidade enviesada. Da água morna e convidativa à queimadura dolorosa da água-viva.
Contudo, ela, a personagem (e a própria Clarice, talvez), precisa respirar; a intensidade pode ser demasiadamente cansativa e é preciso repousar. Deste modo, a experiência pura desse fluxo de vida oferece-nos, a cada tanto, uma pausa, um olhar para o que há de mais banal no cotidiano, uma respiração mais longa, um relaxar de músculos que nos prepara para o mergulho seguinte. Para o milagre seguinte. Para o que há “detrás do pensamento”.
A personagem/narradora é pintora e quer escrever como pinta: com o corpo todo. Quer escrever com as palavras que estão justamente aí, atrás do pensamento, como quem fotografa o instante, instante esse que é como o silêncio que está no silêncio das coisas e não pode ser ouvido, a não ser com o corpo inteiro; como uma realidade que se cria a partir da escuridão e do sonho. A partir da imaginação.
É assim que li Água Viva, com o corpo todo. E da imaginação surgiram pinturas. Pinturas feitas com luz. Fotografias. Água, ar, planta, corpo. A alternância entre a sensação de dissolução que o texto, por vezes, suscita e a aventura arriscada de fixar a delicadeza do encontro eu-outro, eu-mundo.
O que vai ser apresentado a seguir é um vídeo feito com estas imagens-palavras; uma tentativa de capturar o incapturável: a respiração que rege a ordem do mundo, do meu mundo. O ritmo da pulsação. A liberdade de vida e morte. O seu mistério. Efemeridade e eternidade em mim.


“Fotografo cada instante. Aprofundo as palavras como se pintasse, mais do que um objeto, a sua sombra.”
Clarice Lispector (Água Viva)
Conversas Junguianas e Conversas Literárias
Instituto Junguiano do Rio de Janeiro
01 de Outubro de 2021 | 14h às 16h

e agora que abri todas as trancas?

Conversa sobre o livro Água Viva de Clarice Lispector
O evento contará com a participação das integrantes do Instituto Junguiano do Rio de Janeiro (IJRJ):
Sigrid Haikel, Maria Lúcia Lorêdo, Áurea Torres e Ana Gilbert
Dia 01 de Outubro de 2021| Sexta-feira, de 14h às 16h.
Valor simbólico de R$ 25,00 que será revertido para Casas das Palmeiras – Nise da Silveira

A vida será sempre sonho.
Fotografar palavras
Projeto | Paulo Kellerman
Texto | Ana Gilbert
Foto | Peter A. Gilbert

“Às vezes tudo à nossa volta precisa de morrer para que possamos viver.”
Elsa Margarida Rodrigues (As horas do fim)
Uma publicação Minimalista

encomendas: minimalista.editora@gmail.com


Tenho os olhos fechados, mas sou capaz de ver (ou imaginar?) as minhas velhas asas, as saliências por onde brotam nas costas. Ainda lembro o misto de espanto e tristeza quando descobri esses pequenos brotos em mim e percebi a condenação.
Excerto do meu conto, O último voo (Selo Off Flip, 2021)

“Não somos o que vestimos mas os farrapos que escondemos…”
Fotografar palavras
Projeto | Paulo Kellerman
Texto | Cristina Vicente
Foto | Ana Gilbert


Partes de mim / Se partem se / Partes de mim.
Palavras: Pedro Machado

“A verdadeira liberdade talvez esteja no nada.“
Fotografar palavras
Projeto e texto | Paulo Kellerman
Foto | Ana Gilbert




“Soprando rajadas fortes e intensas de pensamentos. Ofuscando o olhar com belezas imensas, pré concebidas, um tanto excêntricas, incapacitando a audição com demasiado ruídos ensurdecedores, parei no tempo. Incapacitei-me à vida, sem viver. Reescrevi uma história sem saber escrever, enumerei os dias longos, as manhãs mais compridas e todas as tardes de pôr do sol, sem saber contar. Dialoguei com estranhos, sem vez alguma ter conhecido a linguagem deles. E como se no vazio eu tivesse estado, simplesmente adormecida, um sopro de pensamento mudou de novo o meu rumo, o rumo da minha mente.”
Fotografar palavras
Projeto | Paulo Kellerman
Texto | Joana Gonçalves
Foto | Ana Gilbert

“Palavras – movo-me com cuidado entre elas que podem se tornar ameaçadoras.”
Clarice Lispector (Água viva)

a pele é também consciência.

“O tempo dilata-se em angústia.”
Fotografar palavras
Projeto | Paulo Kellerman
Texto | Ana Gilbert
Foto | Juliana Monteiro Carrascoza

O tempo precisa dançar para deixar de se arrastar

[rosa dos ventos]
o coração apontava
um rumo contrário oposto
e surdos seguiam os pés
cada passo a esmagar
uma pétala um sonho
Fotografar palavras
Projeto | Paulo Kellerman
Texto | Dulci Dantas
Foto | Ana Gilbert

“Everything breathes together.”
Plotino