Regresso uma e outra vez à casa da minha infância. Os cheiros, os esconderijos, os lugares de cada coisa e de cada um mantêm-se, ainda, inalterados. Evito o caminho para o interior. Subo a escada e recordo a textura do cimento fresco. Degrau a degrau, subo e penso nas inúmeras vezes que os pisei, que os meus os terão pisado. Sei as reentrâncias, os desníveis, as imperfeições. Dos degraus. Dos meus. As minhas. Cá em cima é mais fácil respirar. Ainda assim, desvio o olhar da porta do sótão: preta, ferrugenta, retorcida. Encerra demasiada ruína, como se um cemitério de nós próprios habitasse sobre os espaços em que vivemos. Aguardo o escurecer e contemplo o horizonte: o parque florestal, o pinhal ao fundo… e, naquele momento em que o silêncio se instala, o som do nosso mar sobrepõe-se a todas as camadas dos meus sentidos. Elevo o olhar e procuro no escuro a segurança de tantas noites ali passadas. Encontro o norte… brilho ténue, guia de viagens difusas memória dentro. Uma âncora no firmamento, como se todo o universo nele se sustivesse, como se todo o meu viver nesta casa nele se suportasse. Sento-me. Inspiro. Deito-me no chão rugoso e frio, sinto o desconforto no corpo e nas memórias que trago comigo. Abro os olhos para a imensidão e, por fim, entro.”
A respiração do tempo, de Ana Gilbert, Editora Minimalista, 2022, já se encontra à venda. É a mais recente publicação da nossa editora informal. Degustei-o de 6 a 18 de Junho. É, antes de se entrar no que nos conta, um objecto muito belo em que se nota a devoção da Ana ao criá-lo. Das ilustrações da Maraia que nos comunicam visualmente ao seu modo ímpar a essência do que as sucede, às epígrafes que também antecedem cada capítulo, chegando enfim à linguagem cuidada da Ana Gilbert. Confluem no volume que antes de ser lido é já um deleite. Depois entramos nas narrativas: breves, fortes, certeiras, apontando aos desacertos e aos enjeitados da vida. Aqueles que, por mais que se esforcem, dia nenhum serão vencedores. É preciso preparar o fôlego para as várias vezes em que nos quedamos em apneia pela violência lida. Pelo meio: erotismo. Sedução. Vontade. Dardos disparados à atenção dos leitores, incomodando esta ou aquela dor já nossa. Há neste livro muitos tempos, muitas respirações, realidades, histórias que anunciam outras. Caberá a quem leia levar a imaginação além. À Ana, continuar a escrever para que a possamos ler mais.
“Agora, sente o toque da liberdade: no espírito, no pensamento, no corpo. Nunca lhe ocorrera antes que a liberdade pudesse ser apenas isso: leveza. Mas agora sabe.”
foto minha, texto do Paulo Kellerman
O projeto Fotografar Palavras propõe como exercício criativo transformar palavras em imagens. Foi criado em 2016 pelo amigo Paulo Kellerman e conta hoje com 3381 publicações.
O que se vê no blog é uma declaração de amor às palavras e às imagens; à literatura, à fotografia e à arte em geral, numa colaboração instigante e harmoniosa que carrega a marca do Paulo: generosidade, amizade e capacidade de conciliar talentos e estilos. Afeta, emociona, faz pensar… realiza-se como arte.
A partir do dia 5 de junho, acontece no m[i]mo, em Leiria, a terceira das quatro exposições do projeto.
É um gosto e um orgulho fazer parte dela. E, principalmente, é uma felicidade ter podido estar presente no dia da inauguração, depois de dois anos de pandemia.
Aos companheiros de projeto, meu afeto e minha admiração. Ao Paulo, um obrigada gigante. Apareçam!
Até 20 de agosto de 2022
Fotografia:Ana França | Ana Gilbert | Ana Isa | Ana Leiria | Ana Marques | Ana Moderno | Ana Paula Fadoni | António Carreira | Carla de Sousa | Catarina Casaca | Célia Góis | Cristina Vicente | Diana R. Castro | Elsa Arrais | Flávia Barros | Francisco Válga | Frankie Boy | Goretti Pereira | João Antunes | João Oliveira | José Luís Jorge | Maria Augusta | Maria João Dias | Maria Jorge Soares | Mariana Costa | Mário Teixeira | Raquel Ferreira Coimbra | Renata Barbosa | Selma Preciosa | Sílvia Bernardino | Sónia Silva | Tânia Silva | Teresa Bret Afonso | Teresa David | Teresa Maria dos Santos | Teresa Marques dos Santos | Vanda Cristina | Vilma Serrano
Palavras: Ana Miguel Socorro | Andreia Azevedo Moreira | Carina Martinho Coelho | Catarina Vale | Clara Ribeiro | Elisabete Neves | Elsa Margarida Rodrigues | Helder Magalhães | Isabel Pires | Joana Gonçalves | Joana M. Lopes | Liliana Silva | Maria João Faísca | Maria João Rocha | Mónia Camacho | Nuno Pinto Bastos | Paulo Kellerman | Renata Barbosa | Sandra Francisco | Sara Viscondessa | Teresa Bret Afonso
Trabalho, muito trabalho; esforço conjunto. O resultado: um espetáculo multimídia, complexo e denso, como o tema, envolvendo músicos profissionais e jovens detentos, atuações presenciais e remotas. O tema é o tempo, em seus desdobramentos de espera e viagem. O contexto onde esse tema se desenrola é a prisão: a externa, palpável, do domínio da justiça (o Estabelecimento Prisional de Leiria, Portugal), onde jovens estão à espera. E também a(s) interna(s): a das escolhas, a das ilusões, a da inconsciência, a dos valores coletivos. As portas que se nos apresentam no decorrer da vida.
“Estou farto de portas fechadas”, diz o coro.
Mas como abrir as portas? Como perceber que estamos a atravessar portas, ou a fechá-las? Como suportar ver as possibilidades e os limites? As seduções, os enganos, as necessidades, as insatisfações?
Tendo o mito de Ulisses e Penélope como fio condutor, a ópera nos guia por entre símbolos e metáforas e nos oferece a oportunidade de refletir sobre a forma como existimos no mundo, sobre a nossa relação com o tempo (ser humano é existir no tempo e no espaço), sobre a perspectiva de diferenciação entre indivíduo e coletividade. Sobre as nossas certezas protetoras. Sobre as nossas fraquezas. O espetáculo nos desestabiliza e emociona. E também nos faz sorrir em seus momentos de leveza.
O coro repete:
“Abre os olhos.” | “Estás preso e nem sabes.”
As tentações para não ver são muitas. O trabalho de consciência é constante. Exige esforço, exige escuta; é solitário. Ser cego pode ser, aparentemente, mais fácil. A lembrança de onde estamos nos faz pensar em voos, em fuga (em algum momento, fugimos todos), em regresso. Para enfrentar.
O amor surge como a luz da consciência, que não nos deixa esquecer quem somos; como a conexão com a alma, essa instância profunda do humano, capaz de nos libertar da prisão do tempo.
“Somos nós que fazemos o tempo. Nós é que somos a consciência do tempo.”
[assisti à estreia do espetáculo, no dia 4 de junho, no Estabelecimento Prisional de Leiria – Jovens. E, para mim, o espaço foi consciência.]
Este foi um ano especial, apesar das sombras da pandemia: além da produção fotográfica, o meu livro de contos pela Minimalista materializou-se. Ambos me ajudaram a continuar criativa acima de tudo. Ajudaram-me a respirar.
Um enorme agradecimento a todos os que acompanham este processo; aos que voltam por sentirem que há algo aqui que faz sentido. Aos que passam de forma breve, por curiosidade ou acaso.
“O clique acontece por dentro e o dedo aciona o disparador. Não sei o que fotografei. (nunca sei. iludo-me)”