FOTOGRAFAR PALAVRAS # 4936

FOTOGRAFAR PALAVRAS é um projeto especial, criado pelo querido Paulo Kellerman em 2016, e que continua a empolgar e surpreender com as múltiplas imagens que as palavras revelam. Um orgulho enorme fazer parte do coletivo. Participar é sempre uma declaração de amor ao projeto.


[Fotografar palavras is a special project, created by dear Paulo Kellerman in 2016, and it continues to excite and surprise with the multiple images that words reveal. I’m immensely proud to be part of the collective. Participating is always a declaration of love for the project.

Today’s collaboration is with my friend Fred Fullerton | Photos by me]

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Amor como um Enigma

O amor
permanece um enigma
para muitas pessoas
porque ele pode trazer infinita
alegria para uma pessoa
e um sofrimento devastador
para outra.

O amor
pode acender
instantaneamente
quente e intenso
como um incêncio
e então extinguir-se
num instante
deixando em seu rastro
um deserto de aflição
e luto.


O amor
pode confundir e sobrecarregar
aqueles que lutaram
e falharam nesse trio
clichê-
casamento
separação
divórcio

enquanto testemunham casais
que se apaixonaram jovens
e permaneceram apaixonados
devotados um ao outro
até a morte.

Outros, ainda, vivem sem
essas buscas e escolhem
a abstinência ascética
ou se acomodam com amizades

coloridas.


Love As An Enigma

Love
remains an enigma
to many people
because it can bring infinite
joy to one
and devastating misery
to another.

Love
can flare
instantaneously
hot and intense
as a wildfire
then burn itself out
in a flash
leaving in its wake
a wasteland of woe
and mourning.

Love
can puzzle and burden
those who’ve floundered
and failed in that clichéd
trifecta—
marriage
separation
divorce

while witnessing couples
who fell in love young
and remained in love
devoted to each other
until they died.

Still others do without
such quests and choose
ascetic abstinence
or settle with friendships

with benefits.

Num lugar qualquer

Sobe as escadas, lentamente, num andar que seduz. Olha em direção ao café antes de seguir para a sala de exposição. A saia curta, as pernas bem torneadas, os seios demarcados na blusa. A bolsa a tiracolo, esquecida. Tem a idade da juventude, em que os dias fluem sem pressa. Observa cada quadro com meticulosidade. Concentrada que está, não percebe que é observada. Por mim. E por ti. Talvez tenha reparado em nós, talvez em ti, apenas. Mas comporta-se como que alheia a tudo e todos. E isso é ainda mais sedutor. 

Reparo que tens os olhos fixos nela. Acompanhas cada passo, cada movimento daquele corpo. Os olhos brilham, cedes à atração. Do corpo ou da história imaginada? Não sei e isso me excita.

Sei que começas a construir-lhe uma história. Idade, ocupação, relações. Desenhas um corpo com palavras. Inventas encontros e diálogos. Ensaias situações. E isso te envaidece. 

Tem sido assim desde sempre. Nossa história é longa, feita de sedução e cumplicidade. E de novidade. Precisas de novidades para permanecermos juntos. Nada é suficiente para ti; não sou suficiente,  e há muito deixei de tentar encontrar razões para isso.  Examinas a moça e o teu olhar me agride. O teu desejo me agride; o corpo dela me agride; e a sua juventude. Agrides-me. E me excito ao imaginar-te com ela, com todas como ela. Sempre jovens e interessantes e de olhares sonhadores. O que fiz aos meus sonhos? 

Agora, ela vem em nossa direção. Parece não nos ver. Ou finge não ver. Senta-se na mesa ao lado e pede um chá. Olhas discretamente, o ângulo não favorece. Sinto a conexão que se estabelece entre os três. Sim, algo nela se insinua: o cruzar de pernas, a lentidão do bule a entornar o chá, a echarpe que é retirada, expondo o pescoço esguio.

Sinto um calor repentino, a sala se tornou sufocante. O meu rosto arde. Ela está ao teu alcance, basta que pronuncies uma palavra. Imagino a aproximação lenta, a sedução quase explícita, a conversa que terias com ela. Reparo que estou a viver tudo isso dentro de mim. Tu e ela são apenas peças do meu jogo, que levo adiante como forma de me ferir. Qual a diferença entre prazer e dor? Volto à cena e constato que já não te preocupas em disfarçar o interesse. Há agora um esquadrinhar aberto, à espera de reciprocidade. Ignoras-me. Sou feita de matéria invisível, ainda que em carne-viva.

Ela termina o chá; olha-nos. Sim, encara os dois. O que pensará? Ter-se-á interessado por ti? Por mim? Contudo, nada mais acontece. Ela se levanta, sem pressa, dá meia-volta e desaparece das nossas vidas. 

Esta noite, quando estivermos a foder, pensarás nela. Eu também.

[in A respiração do tempo, Minimalista, 2022]

FIMFA Lx24

FIMFA Lx24 LA (NOUVELLE) RONDE, de Johanny Bert – Théâtre de la Romette (FR)

[memória de um ensaio]

Teatro São Luiz, Lisboa

FIMFA Lx24

FIMFA Lx24 LA (NOUVELLE) RONDE, de Johanny Bert – Théâtre de la Romette (FR)

[memória de um ensaio]

Teatro São Luiz, Lisboa

FOTOGRAFAR PALAVRAS # 4931

Com quantas linhas se constrói uma pausa?

How many lines does it take to build a pause?

A fotografia é da Joana Neves para o meu texto.

Fotografar palavras, um projeto bonito e generoso, criado pelo Paulo Kellerman em 2016, e que reúne artistas dos mais variados estilos em diálogos criativos.

Ritual

quero tocar-me.
a minha pele
onde guardo as memórias,
(quais?)
nela, o que sei de mim
toco-me.
deslizo dedos
molhados de saliva
e a pele é animal arisco
arrepia-se, elétrica
(tesão)
toco-me
presença feita de luz
é superfície trêmula contra a pele quente
(sinto)
invento lembranças marcas gozos
e flores
toco-me.
do jeito que sabes
perto da janela
(esvoaçante)
exposta a olhares
em ritmos aquosos
palpitantes
(presença entumescida)
toco-me
na madrugada insone
silenciosa
percorro relevos
rios e fontes
mergulho profundo
(respiração entrecortada)
reverbero em camadas 
suspensa
e existo em mim.

[poema apresentado no Sarau Maroto | Lisboa 18 Out 24]

Diálogos

Uma das coisas mais bonitas da arte são os diálogos que ela permite. É sempre um prazer e uma honra descobrir que meu trabalho inspira outros artistas.

Desenho por Anxiety Rush, artista que passeia pela música, fotografia e desenho.

by Anxiety Rush

I feel you

Untouchable pt. 2 (Anathema)

Why I should feel this way?
Why I should feel this way?
Why I should feel the same?
Something I cannot say
Something I cannot say
Something I can’t explain

I feel you outside at the edge of my life
I see you walk by at the edge of my sight

Why I should follow my heart?
Why I should follow my heart?
Why I should fall apart?
Why I should follow my dreams?
Why I should follow my dreams?
Why I should be at peace?

I feel you outside at the edge of my life
I see you walk by at the edge of my sight

I had to let you go to the setting sun
I had to let you go and find a way back home
I had to let you go to the setting sun
I had to let you go and find a way back home

(When I dream, I see you)
(When I dream, I see you
)

I’ve never seen a light that’s so bright
I’ve never seen a light that’s so bright
I’ve never seen a light that’s so bright
Blinded by the light that’s inside
Blinded by the light that’s inside
Blinded by the light that’s inside you

I had to let you go to the setting sun
I had to let you go and find a way back home

silêncio

“Estava vendo um silêncio que tem a profundidade de um abraço.”

Clarice Lispector (A paixão segundo G.H.)