

espaço para preencher com novas histórias


espaço para preencher com novas histórias

[Subtleties of light]


“Despiu-se de tudo, lentamente. Muito lentamente. Até ficar apenas o amor.”
Palavras | Paulo Kellerman



Será que o tempo apenas existe para que possamos ordenar a memória dos prazeres?
[Could it be that time only exists for organizing the memories of pleasure?]
fotos minhas para o texto do Paulo Kellerman
O projeto FOTOGRAFAR PALAVRAS completou seis anos de vida, graças ao esforço bonito e generoso do Paulo Kellerman para juntar pessoas, talentos e afetos.
Como funciona o projeto?
Os escritores enviam excertos dos seus textos e os fotógrafos desdobram as palavras para encontrar uma (ou mais de uma) imagem. Coagulam a imagem em fotografia. A cumplicidade palavra/imagem é publicada aqui:
Todos nós, fotógrafos e escritores, formamos uma rede com o compromisso de manter acesa a chama do projeto, para levar uma dose diária de arte a quem estiver disponível para ser tocado pelas imagens e pelas palavras.
São 3469 publicações até hoje. E a partir da publicação #3462, o blog se tornou bilíngue (português/inglês).
Visitem, deixem-se afetar!

II
Talvez o amor
Seja feito de tempo.
Tal como de tempo são feitas algumas árvores, Daquelas que vivem duzentos anos
Ou mais.
Será que o amor também morre de pé?
Paulo Kellerman (E quando acabarem as perguntas?)

“O tempo precisa dançar para deixar de se arrastar.”
Foto da Mariana Costa para um texto meu.
Fotografar palavras, projeto bonito e generoso, criado e coordenado pelo Paulo Kellerman. Recriado, diariamente, por todos nós.
O mundo se agita em mim.

“I like to seat by the window and just look outside. there’s always the possibility of something.”
Words by Paulo Kellerman

Vestir a sombra.

As fraturas dos laços

É a poesia que nos sustenta.

Por vezes, esqueço-me de que é preciso uma fresta para que o outro me atinja feito luz.

“n.º 30
Regresso uma e outra vez à casa da minha infância. Os cheiros, os esconderijos, os lugares de cada coisa e de cada um mantêm-se, ainda, inalterados.
Evito o caminho para o interior. Subo a escada e recordo a textura do cimento fresco. Degrau a degrau, subo e penso nas inúmeras vezes que os pisei, que os meus os terão pisado. Sei as reentrâncias, os desníveis, as imperfeições. Dos degraus. Dos meus. As minhas.
Cá em cima é mais fácil respirar. Ainda assim, desvio o olhar da porta do sótão: preta, ferrugenta, retorcida. Encerra demasiada ruína, como se um cemitério de nós próprios habitasse sobre os espaços em que vivemos.
Aguardo o escurecer e contemplo o horizonte: o parque florestal, o pinhal ao fundo… e, naquele momento em que o silêncio se instala, o som do nosso mar sobrepõe-se a todas as camadas dos meus sentidos.
Elevo o olhar e procuro no escuro a segurança de tantas noites ali passadas. Encontro o norte… brilho ténue, guia de viagens difusas memória dentro. Uma âncora no firmamento, como se todo o universo nele se sustivesse, como se todo o meu viver nesta casa nele se suportasse.
Sento-me. Inspiro. Deito-me no chão rugoso e frio, sinto o desconforto no corpo e nas memórias que trago comigo. Abro os olhos para a imensidão e, por fim, entro.”
Fotografar palavras, projeto criado pelo Paulo Kellerman em 2016. Projeto criado por nós, diariamente.
Texto da Vilma Duarte, foto minha.


A respiração do tempo, de Ana Gilbert, Editora Minimalista, 2022, já se encontra à venda. É a mais recente publicação da nossa editora informal. Degustei-o de 6 a 18 de Junho. É, antes de se entrar no que nos conta, um objecto muito belo em que se nota a devoção da Ana ao criá-lo. Das ilustrações da Maraia que nos comunicam visualmente ao seu modo ímpar a essência do que as sucede, às epígrafes que também antecedem cada capítulo, chegando enfim à linguagem cuidada da Ana Gilbert. Confluem no volume que antes de ser lido é já um deleite. Depois entramos nas narrativas: breves, fortes, certeiras, apontando aos desacertos e aos enjeitados da vida. Aqueles que, por mais que se esforcem, dia nenhum serão vencedores. É preciso preparar o fôlego para as várias vezes em que nos quedamos em apneia pela violência lida. Pelo meio: erotismo. Sedução. Vontade. Dardos disparados à atenção dos leitores, incomodando esta ou aquela dor já nossa. Há neste livro muitos tempos, muitas respirações, realidades, histórias que anunciam outras. Caberá a quem leia levar a imaginação além. À Ana, continuar a escrever para que a possamos ler mais.
Andreia Azevedo Moreira (texto e imagens)




caminhar de mãos vazias

“Um dia cortei as cordas, soltei amarras e parti. Nunca mais voltei. Ainda que ninguém saiba que fui.”
Projeto: Paulo Kellerman
Texto: Inês Henriques
Fotografia: Ana Gilbert