
Dois anos de sutilezas…

Dois anos…
Obrigada a todos os que de alguma forma participaram deste percurso: aos que passaram rapidamente, aos que se demoraram, aos que conversaram, aos que me entregaram seus silêncios… porque o blog também se faz com os seus olhares…
“Agora você vai ter que assumir as suas irresponsabilidades.
Eu assumi: entrei no mundo das imagens.”
(Manoel de Barros, Ensaios fotográficos)

Fotografar palavras #1738

“Hoje convidei-te para tomar um café, ou um chocolate quente, algo que nos aqueça o olhar ou nos aqueça por dentro e é um bom começo. Ha-de haver sempre um bom começo e sempre dá para te olhar mais de perto e quando te olho mais de perto apaixono-me mais. Quando te olho mais de perto por apenas aqueles segundos em que bebes o café, sou feliz para sempre, juro, se tu soubesses que te pago o café para me apaixonar todos os dias por ti, ficavas ali de chávena na mão a vida inteira. E eu apaixonava-me, sempre, vestia-me de ti, todas as vezes. Sim porque estar apaixonado é estar vestido de alguém. E nunca se está mal vestido quando se está apaixonado.”
Projeto | Paulo Kellerman
Texto | Jorge Gomes Pereira
Foto | Ana Gilbert
Sorrisos

Certos sorrisos existem no desenho do vir a ser.

“A barca vai longe
O rio é turvo
Os peixes são muitos
O rio para
O rio escuta
Lodo e lama
O remo firma
O barco corre
De costas
Pequeno passarinho
Pousa em minha janela
E olha
E mira
Rechaço
Não traz folha de oliveira
Nem terra
Traz água, amigo
Traz mar
E voa”
Projeto | Paulo Kellerman
Palavras | Lorena Kim Richter
Primeiro azul do ano…

“As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.
Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.”
Palavras | Carlos Drummond de Andrade
Loucura

“Há momentos que, com tão ínfima duração, são enormes na sua capacidade de nos reduzir a uma insignificância tremendamente dolorosa de sentir.
Carregamos toda a nossa existência no incerto de decisões nascidas no medo, trémulas em assertividade, que nos empurram para ir no simultâneo de ficar.
Viajamos até onde fomos mais, desejando voltar a ser e ter, enfrentando toda a impotência que nos cerca.
Percebemos que o pouco que éramos não somos, e que a única matéria que conseguimos arrastar é apenas, tanto e só, a que nos constitui.
Acordamos em nós, sedentos de viver pelo que permanece sempre connosco…
Há momentos, que de tanto os esquecer, ficarão em mim para sempre.”
Um ano de sutilezas…

O blog Sutilezas do olhar nasceu do meu interesse por imagens e por palavras e pelas possibilidades infinitas de entrelaçamento entre elas… Com as imagens e as palavras vieram as pessoas; e com as pessoas, os sonhos, as ideias, as parcerias, os projetos, os sorrisos e os abraços… Também chegaram pessoas que nunca encontrei; pessoas que passam por aqui, demoram-se mais ou menos e deixam suas marcas, não apenas sob a forma de curtidas ou comentários, mas marcas silenciosas dos seus olhares, como se fossem toques sutis, que impregnam as imagens e me devolvem algo sobre mim, algo apreendido e filtrado pelos seus olhos.
Obrigada a todos os que por aqui passam; a todos os que dedicam algum tempo a descobrir e apreciar a forma como vejo o mundo…
… porque “às vezes o que eu vejo quase ninguém vê.” (Renato Russo)

Livros, livros, livros…



É no silêncio de mim que tudo se transforma…

“Formam-se assim lentamente crostas: dentro de cada ser, como dentro das casas de granito salitroso, as paixões tecem na escuridão e no silêncio teias de escuridão e de silêncio.”
Texto: Raul Brandão (Húmus)

Vi medo nos teus olhos e prometi ficar contigo. Foste levada, assim, meio às pressas, com a camisola vestida, o robe a cobrir as pernas e a proteger o peito do frio. Dias frios, aqueles, mas naquela tarde, no pátio, o vento era cálido, o sol, ameno. Estavas cansada; fechaste os olhos, como a receber aquela útima brisa, aquele último raio de sol, a última vez que saías ao ar livre, e foste inclinando a cabeça, depois o corpo todo. Segurei teu rosto com a mão para te colocar de volta ereta, mas te deixaste ficar, cabeça apoiada na mão em concha, aliviando o cansaço de anos. Deixei, e assim seguimos até a ambulância.




