Duas Anas numa aeronave improvisada a (des)pilotar a caminho de. Pausa e ponto de interrogação. Tocamo-nos no escuro e iluminamos arquipélagos. Fluida-Mente.
Esta é uma colaboração especial que nasceu de um exercício de escrita orgânico e fascinante entre mim e a Ana e de um lugar de curiosidade mútua.
A(ero)NA(ve)S
{~Texto zipado para desdobrar em imagens~}
e o que queres fazer?
Eros, erótico, está sempre presente na criação
O dedo (in)vísivel
que percorre a pele da palavra
e os poros da fotografia.
Captar o hálito da imagem
e fugir do hábito da palavra
para habitar a palavra
que faz montanhas parirem retratos
|| parir em retratos
o desejo que se vê
dentro da cabana do acento circunflexo
havia fios de trama || ou ele passa por baixo || ou ele passa por cima ||
dos fios de urdume ||
é o jacquard de entre_peles
que nos veste a timidez
e desloca inflexões
– Passa-me um Marlboro. Ali atrás da persiana
(ecoo-me para tocar-te)
O arranha-céus de jacquard rasga o tecto da cabana
Delírio a céu aberto.
*****
[O texto foi escrito a quatro mãos com a Ana Sofia Elias | a foto é minha]
Junto a velhos carris cravados nas lajes do cais do Ginjal De vagões desativados E murais com retratos de homens de rosto duro e olhos de carvão Grafitados nas paredes E que me ignoram Caminho desengonçada como quem se procura a si mesma Uma indígena suburbana de saias levantadas e pernas enfiadas Numas botas Beges Sujas e desajustadas Nas orelhas umas argolas largas e prateadas Que fazem um estranho barulho batidas pelo vento Como música esquecida de um continente De onde fui deportada
II
Nas grandes estruturas navais Enferrujadas pelo tempo e esquecidas pela ganância dos homens A mente pendurada num áspero cordão de aço Observo o que resta de uma grande herança de homens pescadores Sentados em bancos e nos pontões Lançam ao rio espetados em anzóis Sonhos, quimeras, mágoas, desalentos Em canas curvadas e gastas pelas horas E uma vida inteira fechada dentro de uma lata Como conserva que azedou
III
Nas falésias casas amontoadas em ruínas Como uma memória em escada Sem vidros nem olhos nas janelas Profundas como um abismo Portas entijoladas com restos de madeira desventradas Paredes como telas decadentes, cheias de palavras pintadas Pisos com histórias desmoronadas E no chão um bosque de gente esquecida Silvas e arbustos que crescem como um caos Pelo meio o espectro de uma árvore magnífica Cheia de frutos rubros como ginjas maduras Escorrem sonhos viscosos e traídos Com um perfume que nos embebeda os sentidos
IV
Entalada num pórtico elevatório de barcos Os pés como rodas sobre barras de ferro que descarrilaram E ficaram estacionadas no cais do esquecimento Escuto sons metálicos que ficaram guardados no leito do rio Mulheres de passo apressado com cestas cheias de artroses na cabeça Ancas largas, seios fartos e saias rodadas E um pescoço que ficou torto pelo peso da existência Espalhados pelo chão como um teatro de sombras Homens com a alma embarcada em grandes arrastões Camisas de tecido grosso arregaçadas Cheios de sal e escamas nos braços que brilham como prata Um sabor a vinagre na boca São como páginas de um livro que alguém escreveu E sepultou nas águas
V
Presos por cordas nos velhos atracadouros Alinhados no paredão como espectros de ferro Canoas, fragatas, faluas como navios fantasmas Velas recolhidas e passageiros em terra São como uma gigantesca manifestação do passado Amontoada sobre o cais Os rostos iluminados pela dourada luz do pôr-do-sol Como uma despedida Ficam a olhar petrificados o estranho trânsito fluvial Cheios de veleiros e embarcações de luxo Com gente sorridente que lhes acena com a mão
VI
Nas cadeiras desmembradas e atadas com panos Espalhadas nas grandes plataformas junto a um terminal Com corpos afundados nos estofos gastos Sinto-me como Briseida a contemplar o horizonte Sequestrada como um troféu na guerra de Tróia Entregue como despojo aos caprichos de um guerreiro Deixo-me ir na corrente na superfície a boiar Como uma anémona indiferente Até desaparecer na foz Para trás a flutuar gentilmente com boias de salvação Um Cacilheiro velho E um Mestre cansado de navegar Liga o motor para alcançar a outra margem.
***
Ginjal Pier
I
Next to old rails embedded in the slabs of the Ginjal pier Of decommissioned wagons And murals with portraits of men with hard faces and charcoal eyes Graffitied on the walls And who ignore me I walk awkwardly like someone looking for herself A suburban indigenous woman with her skirts up and her legs tucked in In boots Beige Dirty and mismatched In her ears, wide silver rings That make a strange noise when the wind hits them Like forgotten music from a continent From where I was deported
II
In the great naval structures Rusted by time and forgotten by the greed of men My mind hangs on a rough steel cord I observe what remains of a great heritage of fishermen Sitting on benches and piers Throwing hooks into the river Dreams, chimeras, sorrows, discouragements On reeds bent and worn by the hours And a lifetime locked up in a can Like preserves that have gone sour
III
On the cliffs houses heaped in ruins Like a memory on a staircase Without glass or eyes in the windows Deep as an abyss Doors hinged with the remains of gutted wood Walls like decaying canvases, full of painted words Floors with crumbling stories And on the ground a forest of forgotten people Brambles and bushes that grow like chaos In the middle the spectre of a magnificent tree Filled with fruits as red as ripe sour cherries Slimy, betrayed dreams drip down With a perfume that drenches our senses
IV
Trapped in a boat lifting gantry Feet like wheels on iron bars that have derailed And were parked on the quay of oblivion I hear metallic sounds that have been stored in the riverbed Women in a hurry with baskets full of arthritis on their heads Wide hips, full breasts and swirling skirts And a neck that was twisted by the weight of existence Scattered across the floor like a shadow theater Men with their souls on large trawlers Thick fabric shirts rolled up Full of salt and scales on their arms that shine like silver A taste of vinegar in the mouth They’re like pages from a book that someone wrote And buried in the waters
V
Bound by ropes on the old moorings Lined up on the wall like iron spectres Canoes, frigates, sloops like ghost ships Sails down and passengers ashore They are like a gigantic manifestation of the past Piled up on the quay Their faces illuminated by the golden light of sunset Like a farewell They stare petrified at the strange river traffic Full of sailing ships and luxury boats With smiling people waving their hands
VI
On the dismembered chairs tied with cloths Spread out on the large platforms next to a terminal With bodies sunk into the worn upholstery I feel like Briseida gazing at the horizon Kidnapped like a trophy in the Trojan War Delivered as spoils to the whims of a warrior I let myself go in the current, floating on the surface Like an indifferent anemone Until I disappear at the mouth Back gently floating with lifebuoys An old coxswain And a Master tired of sailing Starts the engine to reach the other shore.
O belo poema | the beautiful poem: Ana Paula Jardim
Diz o meu nome pronuncia-o como se as sílabas te queimassem os lábios sopra-o com a suavidade de uma confidência para que o escuro apeteça para que se desatem os teus cabelos para que aconteça
Porque eu cresço para ti sou eu dentro de ti que bebe a última gota e te conduzo a um lugar sem tempo nem contorno
Porque apenas para os teus olhos sou gesto e cor e dentro de ti me recolho ferido exausto dos combates em que a mim próprio me venci
Porque a minha mão infatigável procura o interior e o avesso da aparência porque o tempo em que vivo morre de ser ontem e é urgente de navegar outro rumo outro pulsar para dar esperança aos portos que aguardam pensativos
No húmido centro da noite diz o meu nome como se eu te fosse estranho como se fosse intruso para que eu mesmo me desconheça e me sobressalte quando suavemente pronunciares o meu nome
Escovar os dentes após todas as refeições, disseram-me. E, desde muito cedo, eu aprendi esta regra básica de higiene. E continuo a cumpri-la, mesmo quando uma parte da frase está ausente. Refeições. Escovo os dentes com um resto de escova, um resto de pasta, um resto de água, a escorrer, morna, de um copo descartável, que guardo cuidadosamente no meu armário de inventar. Esfrego bem os dentes, as gengivas, a língua. Até sentir ânsia de vômito. Mas não tenho o que vomitar. Na verdade, não sei se essa vontade de vomitar é pelo escovar da língua, pelo estômago vazio, ou por essas pessoas que comem ali, naquele café, e se divertem. Imagino o que conversam, imagino o som dos risos, as pernas que se tocam, discretas, por baixo da mesa, insinuando amanhãs, essa palavra que vou esquecendo o significado aos poucos. Ninguém vai querer me tocar, não desse jeito. Mas talvez eu ainda tenha esperança e, por isso, escove os dentes. Durmo perto desse café por causa do cheiro de pão recém-saído do forno, logo de manhã cedo e da refeição que recebo depois. Cheiro de uma infância feliz, ou quase. Na minha rotina de todos os dias, guardo o meu colchão de papelão num espaço estreito entre dois edifícios, que faço de esconderijo. As brechas me fazem sentir seguro. Como naquela vez. O coração batendo forte, as pernas cansadas de correr, o peso da mão na minha perna. Preciso voltar a escovar os dentes. Até enjoar, porque o estômago está vazio de novo. Olho a água que escorre pela sarjeta, com espuma de pasta e cuspe. E penso nesta imensidão que é a rua. O jeito que a água faz um pequeno redemoinho perto do bueiro me confunde e me faz pensar naquele dia. O revoar no colo de alguém, para depois tombar, num abismo sem fim. A velha dor na perna. A sujeira nos dentes. O estômago vazio. A ânsia. Um riso ao longe e a mulher que passa e me olha. Ela tem um olhar que penetra. Vê as minhas feridas. Encaramo-nos por momentos, a escova suspensa, a baba a escorrer. Os olhos lacrimejam. Ela sabe o que eu sei. O redemoinho dá mais uma volta e tudo é invadido de branco. Ao longe, uma sirene.
(Prêmio Off Flip 2024, categoria Conto)
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Afirmação
tenho a pele marcada da roupa da idade de ti
nem sei
tenho o prazer tatuado em mim como um rastro que deixaste ainda ontem ou anteontem
nem sei
tenho o sonho escondido nas dobras a busca entranhada na alma a vontade de seguir sem ti
FOTOGRAFAR PALAVRAS é um projeto especial, criado pelo querido Paulo Kellerman em 2016, e que continua a empolgar e surpreender com as múltiplas imagens que as palavras revelam. Um orgulho enorme fazer parte do coletivo. Participar é sempre uma declaração de amor ao projeto.
[Fotografar palavras is a special project, created by dear Paulo Kellerman in 2016, and it continues to excite and surprise with the multiple images that words reveal. I’m immensely proud to be part of the collective. Participating is always a declaration of love for the project.
Today’s collaboration is with my friend Fred Fullerton | Photos by me]
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Amor como um Enigma
O amor permanece um enigma para muitas pessoas porque ele pode trazer infinita alegria para uma pessoa e um sofrimento devastador para outra.
O amor pode acender instantaneamente quente e intenso como um incêncio e então extinguir-se num instante deixando em seu rastro um deserto de aflição e luto.
O amor pode confundir e sobrecarregar aqueles que lutaram e falharam nesse trio clichê- casamento separação divórcio
enquanto testemunham casais que se apaixonaram jovens e permaneceram apaixonados devotados um ao outro até a morte.
Outros, ainda, vivem sem essas buscas e escolhem a abstinência ascética ou se acomodam com amizades
coloridas.
Love As An Enigma
Love remains an enigma to many people because it can bring infinite joy to one and devastating misery to another.
Love can flare instantaneously hot and intense as a wildfire then burn itself out in a flash leaving in its wake a wasteland of woe and mourning.
Love can puzzle and burden those who’ve floundered and failed in that clichéd trifecta— marriage separation divorce
while witnessing couples who fell in love young and remained in love devoted to each other until they died.
Still others do without such quests and choose ascetic abstinence or settle with friendships
quero tocar-me. a minha pele onde guardo as memórias, (quais?) nela, o que sei de mim toco-me. deslizo dedos molhados de saliva e a pele é animal arisco arrepia-se, elétrica (tesão) toco-me presença feita de luz é superfície trêmula contra a pele quente (sinto) invento lembranças marcas gozos e flores toco-me. do jeito que sabes perto da janela (esvoaçante) exposta a olhares em ritmos aquosos palpitantes (presença entumescida) toco-me na madrugada insone silenciosa percorro relevos rios e fontes mergulho profundo (respiração entrecortada) reverbero em camadas suspensa e existo em mim.
[poema apresentado no Sarau Maroto | Lisboa 18 Out 24]
O Sol quando se põe, desce devagar e sem pressa, mas mais depressa do que quando nasce, a queda é sempre mais veloz.
The Sun, when it sets, descends slowly and without haste, yet swifter than when it rises; the fall is always faster.
Texto | Text: Sara Viscondessa Fotografia | Photography: Ana Gilbert
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O nosso querido projeto FOTOGRAFAR PALAVRAS é uma criação do amigo Paulo Kellerman, que edifica diariamente (com muito trabalho e arte) esta moldura onde podemos existir com as nossas obras e as de outra(o)s artistas. Desde 2016.