sonho

“Fui sonhada por ti.”

José Eduardo Agualusa (Manual prático de levitação)

I am made of volcanic ash
where pipe dreams and grief marry and clash

words: Ana Sofia Elias

[there are people who reflect and unfold us, who share wings and shadows]

encontro

Acaso é este encontro
entre o tempo e o espaço
mais do que um sonho que eu conto
ou mais um poema que eu faço?

Paulo Leminski (Toda poesia)

   

morar

“Morar não significa apenas estar cercado por qualquer coisa, nem ocupar determinada área no espaço terrestre. Significa criar um vínculo tão intenso com certas coisas e certas pessoas que a felicidade e a nossa respiração se tornam inseparáveis.”

Emanuele Coccia (Filosofia da casa)

Your absence has made you more real, more authentic. Can you understand?

A tua ausência tornou-te mais real, mais autêntica. Percebes isto?

Text(o): Paulo Kellerman

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Desejo

“É sempre por rizoma que o desejo se move e produz.”

Deleuze e Guattari

[intervenção em fotografia]

um lugar de passagem

a place of passage

uma câmera
um rolo de filme
dois fotógrafos

Frankie Boy fotografou Ana Gilbert
Ana Gilbert fotografou Frankie Boy

escreveram com luz
com palavras

fragmentos de tempo
atravessamentos de histórias
encontro

***

a camera
a roll of film
two photographers

Frankie Boy photographed Ana Gilbert
Ana Gilbert photographed Frankie Boy

they wrote with light
with words

fragments of time
interweaving of stories
encounter

Que o ciúme não te adelgace

Crescer nos acentos perpétuas cobras d’água e logo a seguir
para que o ciúme não te adelgace
Pela cauda desengomo-te virgulados alguns actos
entre uma mornura de focinhos islandeses
{rafeiras arfadas}
e o inteira me prumares recatada.

Tibar-nos, como se tiba a latina linguagem, julgo branco e impossível.

Texto da Ana Sofia Elias e foto minha

[do nosso baú imaginado de imagens e palavras ardentes]

FOTOGRAFAR PALAVRAS # 5237

Elas, mulheres algodoeiras do mar 

Estendidas por uma vasta praia 

-com bosques dourados, falésias amaciantes, templos, rios, lagos e estradas sem cavalos voadores ou torangeiras, onde palácios vermelhos, jardins suspensos e torres de cúpulas brancas espelhavam as nossas malváceas damascenas – 

Nessa praia, estas palavras.
De musselina tridente 
têm-nos presas a nenhum lírio fixo. 

Pequenas mordidelas atlântidas 
de plâncton saciante 
que não ficaram presas ao anzol de frésia.

Deitadas, agachadas, hirtas 
como a renda que ainda não madrugou na água 
Mulheres algodoeiras do mar
colhem palavras abracadabrantes 

O poema acontece na costura a linha de peixe 
onde penduram pedras preciosas, quase invisíveis.

E o som é de figo maduro tragado a meia romã 
Porque é na Pangeia da manhã 
que se provam as despedidas e os orvalhos. 

*****

Them, cotton-harvester women of the sea

Spread across a vast shore

—with golden woods, softening cliffs, temples, rivers, lakes,
and roads untraveled by flying horses or grapefruit trees, where crimson palaces, hanging gardens, and white-domed towers
mirrored our damascene mallows—

On that shore, these words.
Of trident muslin,
they keep us bound to no fixed lily.

Small Atlantidean nibbles
of satiating plankton
never caught on a freesia fishhook.

Reclining, crouched, upright—
like lace not yet awakened in water—
Cotton-harvester women of the sea
gather abracadabra-like words.

The poem takes shape along the fishline-made seam
where they hang near-invisible gems.

And the sound is that of ripe fig
swallowed with half a pomegranate—
For it is in each morning’s Pangaea
that farewells and dewdrops are tasted.


Texto | Text: Ana Sofia Elias (com interferência de | with interference by Ana Gilbert)

Fotografia | Photography: Ana Gilbert (com interferência de | with interference by Ana Sofia Elias)

FOTOGRAFAR PALAVRAS, projeto desenhado pelo Paulo Kellerman, é casa para imaginar e criar.
Diariamente, desde 2016.

Da arte interior

às vezes é preciso acertar
a velocidade da pele
com a do coração

Isabel Pires (Vai formosa e mui segura, 2024)