O meu nome

Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem os lábios
sopra-o com a suavidade
de uma confidência
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça

Mia Couto [poemas escolhidos]

Na noturna claridade
me esqueci
que nunca havias nascido.

Mia Couto [poemas escolhidos]

Desencontro (1)

Não ter morada
habitar
como um beijo
entre os lábios
fingir-se ausente
e suspirar
(o meu corpo
não se reconhece na espera)
percorrer com um só gesto
o teu corpo
e beber toda a ternura
para refazer
o rosto em que desapareces
o abraço em que desobedeces

Mia Couto [poemas escolhidos]

A demora

O teu vestido tomba
e é uma nuvem.
O teu corpo se deita no meu,
um rio se vai aguando até ser mar.

Mia Couto [poemas escolhidos]

Uca

UCA, o livro de Ana Sofia Elias, é viagem demorada, sem volta.
Lisérgica.
Uca é desajuste.
É dor partilhada, sonho segredado, fantasia projetada.
Uca é pausa, lugar de descanso inquieto, de entrega temerosa. E prazerosa.
Uca é desafio da fala, é dança cantada.
Dança das palavras, por vezes, descompassada.
É grito mudo.
Ensurdecedor.
É beleza delicada e pulsante.
É toque sutil. Por vezes, soco no estômago.
Desdobra-nos pelo caminho e já não conseguimos refazer o origami que um dia fomos.

Uca é Ana.
E esta Ana que escreve espelha a Ana que escreveu.

Anas em voo livre.

***

Escantilhão

Quando eu nasci
Deus entregou-me um escantilhão e, desde esse dia, tenho sido uma recortadora de vida
Sigo entretida
a passá-la por um escantilhão
e a ser escantilhada por ela

Esse tal Deus que não tem nome – mas desceu para me visitar –
deu-me olhos de lince
e fome de me deslumbrar

    Os olhos de lince servem para
    caçar as coisas delicadas
    que gostam de brincar às escondidas
    com os meros mortais
    para quem elas passam despercebidas
    e desiguais

    O Deus anónimo
    também me deu mãos de violino
    para fabricar delicadezas a partir da cidade que me rodeia
    e o que me rodeia é esta sala que faz parte desta casa
    que habita neste bairro
    que um dia, tal como eu, também nasceu desta cidade

    Mas este poema não é sobre o meu nascimento
    É sobre a minha chegada
    Hoje eu sou aquela que chega a ela própria que aterra em si

    Hoje
    eu sou aquela que carrega os intestinos nos olhos
    е a garganta nas mãos

    Faço a digestão de todos as montras do mundo
    através dos olhos
    E respiro o mundo dos coisas e das cidades pelos pulmões das mãos.

    O delicado é
    o meu fado.

    Ana Sofia Elias (Uca, 2024)

    Chegares

    um instante na memória de chegares é mais valioso do que jardins, do que montanhas, do que anos de tempo.

    José Luís Peixoto (A Casa, a Escuridão)

    XXXVI


    It is this body that holds all that I am.

    An envelope that contains me,
    Defines me,
    Limits me.

    And everything I am is born in it.
    But is everything that is born in my body mine?

    Universes of desires that arise and grow
    And multiply,
    Fleeting or perhaps eternal,
    Powerful and immense in their power
    Of disconcerting.

    Do they belong to me?

    Desires that are dreams
    Without flesh
    Or material density
    Or geometric contour
    Or palpability.

    Perhaps dreams are a concrete reality,
    As concrete as the most consistent
    Of realities.
    Concrete like a tree or a bridge or a clothesline or a fire
    Or a body.m
    But a reality lacking the senses.

    Concrete,
    But without dimension or volume.
    Without physical outline or measurability,
    Just intention and design.
    Like when you say you want to give me a hug
    Or a kiss,
    But you do not really give me a hug
    Or a kiss.

    My body produces universes of desires,
    Immense in their power
    Of disconcerting.

    But useless.

    What good are dreams
    If you cannot touch them?

    in And when the questions are over? REIMAGINED

    Paulo Kellerman (text) & Ana Gilbert (photo)

    Se

    Se fosse aguaceiro
    Caía em ti como pena
    Como cena de filme.
    Como película
    Que desvenda
    Sopros no peito.
    Leitos.

    Jorge VAz Dias

    I am made of volcanic ash
    where pipe dreams and grief marry and clash

    words: Ana Sofia Elias

    [there are people who reflect and unfold us, who share wings and shadows]

    encontro

    Acaso é este encontro
    entre o tempo e o espaço
    mais do que um sonho que eu conto
    ou mais um poema que eu faço?

    Paulo Leminski (Toda poesia)

       

    Que o ciúme não te adelgace

    Crescer nos acentos perpétuas cobras d’água e logo a seguir
    para que o ciúme não te adelgace
    Pela cauda desengomo-te virgulados alguns actos
    entre uma mornura de focinhos islandeses
    {rafeiras arfadas}
    e o inteira me prumares recatada.

    Tibar-nos, como se tiba a latina linguagem, julgo branco e impossível.

    Texto da Ana Sofia Elias e foto minha

    [do nosso baú imaginado de imagens e palavras ardentes]

    FOTOGRAFAR PALAVRAS # 5237

    Elas, mulheres algodoeiras do mar 

    Estendidas por uma vasta praia 

    -com bosques dourados, falésias amaciantes, templos, rios, lagos e estradas sem cavalos voadores ou torangeiras, onde palácios vermelhos, jardins suspensos e torres de cúpulas brancas espelhavam as nossas malváceas damascenas – 

    Nessa praia, estas palavras.
    De musselina tridente 
    têm-nos presas a nenhum lírio fixo. 

    Pequenas mordidelas atlântidas 
    de plâncton saciante 
    que não ficaram presas ao anzol de frésia.

    Deitadas, agachadas, hirtas 
    como a renda que ainda não madrugou na água 
    Mulheres algodoeiras do mar
    colhem palavras abracadabrantes 

    O poema acontece na costura a linha de peixe 
    onde penduram pedras preciosas, quase invisíveis.

    E o som é de figo maduro tragado a meia romã 
    Porque é na Pangeia da manhã 
    que se provam as despedidas e os orvalhos. 

    *****

    Them, cotton-harvester women of the sea

    Spread across a vast shore

    —with golden woods, softening cliffs, temples, rivers, lakes,
    and roads untraveled by flying horses or grapefruit trees, where crimson palaces, hanging gardens, and white-domed towers
    mirrored our damascene mallows—

    On that shore, these words.
    Of trident muslin,
    they keep us bound to no fixed lily.

    Small Atlantidean nibbles
    of satiating plankton
    never caught on a freesia fishhook.

    Reclining, crouched, upright—
    like lace not yet awakened in water—
    Cotton-harvester women of the sea
    gather abracadabra-like words.

    The poem takes shape along the fishline-made seam
    where they hang near-invisible gems.

    And the sound is that of ripe fig
    swallowed with half a pomegranate—
    For it is in each morning’s Pangaea
    that farewells and dewdrops are tasted.


    Texto | Text: Ana Sofia Elias (com interferência de | with interference by Ana Gilbert)

    Fotografia | Photography: Ana Gilbert (com interferência de | with interference by Ana Sofia Elias)

    FOTOGRAFAR PALAVRAS, projeto desenhado pelo Paulo Kellerman, é casa para imaginar e criar.
    Diariamente, desde 2016.

    Da arte interior

    às vezes é preciso acertar
    a velocidade da pele
    com a do coração

    Isabel Pires (Vai formosa e mui segura, 2024)