“Pareço ter perdido uma coisa não se sabe onde e quando.”

Palavras | Clarice Lispector (Um sopro de vida)

Ponto

Texto | Ana Gilbert

Sou um ponto. Giro, giro, até perder-me. Retorno. Descubro, encontro. Perco. Perco sempre. E volto a encontrar (-me). Aqui.

(Foto e texto a partir da proposta de Inesa Markava, por ocasião da performance coreográfica na exposição “O mundo é redondo”, de Rachel Caiano.)

Entressonho

Texto Ana Gilbert

Acordo. Sem vontade. Quero apenas ficar na cama um pouco mais. Não sei o que pensar, não consigo pensar, não quero pensar. Quero apenas dormir. Quero tanto. Mas algo em mim não deixa que me entregue à fuga do esquecimento. Senso de obrigação? Ou um resto de força? Espio devagarinho para fora de mim. Tento, pelo menos. Espreguiço-me, um espreguiçar mecânico, sem prazer. Continuo do lado de dentro. Levanto. Não sei qual roupa vestir para trabalhar e isso torna-se paralisante. Fico a olhar as roupas, à espera, talvez, de que uma se ofereça para que a vista. Mas, claro, isso não acontece. Fico durante um tempo a olhar o vazio. Não tenho fome, talvez uma ponta de enjoo; desânimo é o que tenho e me entrego a ele. O mundo gira na velocidade do meu desânimo: lento, os sons distorcidos por uma rotação alterada. Eterna. Afinal, termino de vestir a roupa que mecanicamente apanhei no armário e agora já não há tempo para mais. Ignoro o espelho: desisto de conferir as olheiras que sei que tenho, o vazio do olhar, a pergunta; não quero ver a roupa um pouco amarfanhada, falta-me paciência para esses pequenos detalhes. Ou cuidados comigo. É tarde e saio apressada, tentando me ajustar à velocidade do mundo.

Ao chegar à rua, caminho entressonhada, num recitar melancólico de tarefas a cumprir. Ao virar a esquina, o impacto da brisa do mar, fria, sobre a pele, quente, traz contra a minha vontade lembranças de outros tempos adormecidos, quem sabe soterrados, onde tudo era possível, ali, junto a outro mar. Mar da infância, mar de dentro, mar das minhas histórias. O tempo linear congela; movo-me no tempo abissal dos afetos.

Encontro-me novamente junto àquele mar, distante, quando ainda podia sonhar e fazer planos. O cheiro de maresia invade as narinas; sinto o gosto de sol, o sal a queimar-me a pele jovem, ainda infantil. Paro de lutar contra as lembranças e entrego-me às sensações familiares. Mas logo o roçar do tecido torna-se insuportável, lançando-me de volta à realidade escaldante deste dia de verão. Contudo, as cicatrizes do corpo haviam sido tocadas, despertando o incômodo da alma e o que há muito decidi esquecer. Afundo novamente; é mais forte do que eu.

Como foi que aconteceu? Não consigo lembrar com clareza. Por mais que revire as lembranças, não consigo juntá-las, não consigo sentir. Um toque, um sussurro, uma sombra. Uma ameaça. Um hálito conhecido, um rasgar de tecido, uma dor. Depois, ninguém. Apenas a minha mão a sentir a textura dos grãos de areia, a imaginar-lhes a cor; e os meus olhos, fechados, a encherem-se de vermelho. Imagens enevoadas, dispersas, fantasmagóricas. Quanto mais penso nisso, mais embaçados e confusos ficam meus contornos. A clareza esvai-se em solidão e sinto-me afundar em areia movediça.

Tento me agarrar a algo para não ser tragada: penso em fragmentos de cartas, pedaços de ilusão, cheiros de amores antigos, mortes envoltas em delicados papéis de seda azul, guardadas a sete chaves em pequenos baús. Inútil. A única coisa que me sustentaria seria um fio, esse fio que se rompeu naquele preciso momento, tornando-me dura, distante, determinada a esquecer o inominável.

Recolhi-me, anestesiei-me, armei-me; há muito deixei de ser inteira. Não permito que ninguém me penetre; ou me saiba. Perdi o rumo; perdi-me. Não consigo desistir de vez. Resta seguir.

Afundada nesse estupor, percebo que cheguei ao trabalho. Com um resto de vida.

***

Texto e foto| Ana Gilbert

Loucura

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Vou até à janela para ver o mundo passar. E ele passa, vagaroso e indiferente. Talvez já tenha tido a esperança que, um dia, me levasse consigo; mas para onde me levaria? E eu gostaria de ter ido? Não sei. Da minha janela vejo o céu azul e sinto o sol no rosto. Por mais longe que o mundo me levasse, não seria sempre o mesmo sol a aquecer-me a pele? Sorrio enquanto penso isto, e é bom quando uma pessoa consegue sorrir sozinha; apesar de haver quem chame a isso loucura. Talvez ainda possa ir pelo mundo fora, em busca de outros sóis; talvez baste acreditar e imaginar que é possível. Se existe o desejo, haverá sempre a possibilidade? Por agora não quero pensar em possibilidades, basta-me sentir a realidade concreta deste sol no rosto. Para onde irá toda esta luz que a minha pele absorve? Tanto sol que apanhei ao longo da vida, certamente que o interior do meu corpo será muito iluminado, resplandecente de luz; se tiver de ser operada ainda vou cegar os médicos. Sorrio de novo, enquanto olho a rua em busca de gente. Sempre gostei de observar pessoas, sempre gostei de lhes escutar as conversas e, através das suas vozes, conhecer-lhes os pensamentos e os sentimentos. Mas agora são raras as pessoas que passam por esta rua; e as que passam nunca conversam. Não entendo por que motivo não falam, não entendo por que motivo calam os seus pensamentos; se não são verbalizados, para onde irão todos esses pensamentos que as pessoas têm dentro de si? Permanecerão aprisionados nos corpos para sempre? Formando gases, talvez. Escuto o silêncio da rua, respiro o cheiro das árvores que estão lá mais à frente. Respirá-las é uma forma de as guardar, a verdade é que tenho florestas inteiras dentro de mim; mas ninguém sabe. Talvez seja por ter tanta luz no meu interior, as árvores dão-se bem com a claridade. Sorrio. Penso tanta tolice, são sucessões de pensamentos tolos que chegam não sei de onde e me fazem sorrir. Talvez por ser essa a única forma que os pensamentos têm de sair para o mundo: agora que a trombose me levou a capacidade de falar, resta-me sorrir. E por isso, sorrio; é como se fosse uma libertação. Mas continua a não passar ninguém na rua; o céu mantém-se azul, indiferente aos meus sorrisos. Se todas as pessoas do mundo fossem cegas, haveria quem sorrisse? Ou deixariam de o fazer, por não existir quem pudesse ver esses sorrisos? Não sei; as perguntas sempre me agradaram mas as respostas causam-me azia, são como portas que se fecham com estrondo. O que sei é que gosto de sorrir ao céu azul, apesar de ele nunca me sorrir de volta. Sinto-me livre quando o faço. Olhar e sorrir, é tudo o que me resta fazer. E esperar. Espero mas a rua permanece deserta. Desconfio que estar à janela é como olhar para o futuro; mas hoje o futuro não virá. Talvez esteja confusa e me tenha baralhado, talvez não seja domingo, talvez os netos afinal não venham. Talvez o futuro seja feito de esperas. E enquanto se espera, o mundo continua a passar; vagaroso e indiferente.
(Crônica para o Jornal de Leiria)

Extensão

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(Projeto com Paulo Kellerman)

Cena

No estúdio improvisado a câmera percorre o espaço distraidamente, parando aqui e ali sem se deter. O olho por detrás dela busca algo que o capture, há muito tempo busca. Já nem sabe quanto. Percorreu espaços, encontrou ângulos mas nenhum que o arrebatasse. Ao olho por detrás da lente. Gira… pára… torna a começar… insaciável… desamparado porque não encontra, nada-ninguém-amor-azul. Pulsa. Líquido, escorre-sofre. Pensa no que olha, não, não pensa, apenas percorre, desliza lentes como dedos, afaga, apalpa, quer ser tocado como a lente ao focar o espaço. Mas não é assim, é apenas a frieza do obturador que clique claque abre e fecha sem piedade. Comentários soltos, quase vazios. Como o olho que olha e que parece vazado.

De repente a câmera se detém.

O que tanto buscava o encontrou. O olho por detrás da câmera. Paralisado, muda o plano ajustando o foco, diminui a abertura, o tempo de exposição. O tripé, sabe que não conseguirá sustentar o olhar sem ele. A câmera escuta a si mesma e o olho no jogo dos espelhos se reconhece. Esconde-se, fecha-se, o olho que olha por detrás da câmera. Teme ser visto. Sente-se perseguido ao descobrir-se no outro.

O tempo se esgota. Pinga lentamente da torneira semi-aberta. Escoa de um reservatório que nunca é alimentado. Escoará até acabar.

Sabe que não há mais tempo. De recuperar o amor perdido, o tempo gasto em buscar, que o esgarçou até onde não podia mais e o reduziu a um olho que olha através e que busca incessantemente algo que olhar.

Texto: Ana Gilbert

Reservatório

Toca-me, diz ela.
Apenas assim me podes conhecer, diz ela.

Há pessoas que são como máquinas fotográficas, não achas? Captam tudo, captam a realidade nas suas ínfimas nuances e delicadezas, captam a luz e a sombra e tudo o que há entre luz e sombra, captam um beijo de dois amantes e o voo de um pássaro, captam a sombra de um nuvem e a magnificência do grão de areia na praia, captam a textura da pele do pescoço e da coxa e da mão daqueles que amam, captam a imutabilidade e a passagem do tempo, captam a suavidade das rugas de um velho que vai morrer mas ainda ri uma última vez, captam as dobras de um lençol impregnado com o cheiro a sexo, captam o momento mágico em que uma folha se solta da árvore e se lança no abismo da liberdade. Há pessoas que captam tudo, porque tudo é captável, tudo é fixável, tudo é registável. Basta olhar. Olhas, logo captas. Mas tal como as máquinas fotográficas que tudo captam, há pessoas incapazes de sentir, de interiorizar, de incorporar aquilo que olham e vêem. Pessoas que são como máquinas. Apenas captam e registam. Acumulam. Coleccionam. Mas não sentem. E ainda assim sorriem. Como é possível que as máquinas fotográficas sorriam? De que sorriem elas, se não sentem? Porque sorriem? Como sorriem? Não entendo. Mas sei que há pessoas que são como máquinas fotográficas. Assustam-me muito, estas pessoas.

O que pensa o teu nariz quando respira o meu cheiro? O que pensa o teu coração quando perscrutas o meu rosto? Percebo que estranhas as minhas perguntas. Talvez não saibas que cada pedaço do teu corpo tem pensamentos autónomos. O teu coração pensa, o teu sexo pensa, as tuas mãos pensam, a tua boca pensa. Infinitos pensamentos cruzam-se no teu interior, faíscam por um instante ou eternizam-se entre as células, arrastam-se, combatem-se, anulam-se, misturam-se, morrem e renascem. E tudo converge para o cérebro, onde toda essa imensidão de pensamentos antagónicos é recolhida, analisada, conjugada, resumida. E aquilo que julgas ser o teu pensamento – o teu pensamento oficial – é apenas uma breve e tosca súmula da infinidade de pensamentos que o teu corpo produz.

– Queres dizer que o cérebro aprisiona os pensamentos?

Penso com todo o corpo. Vejo com todo o corpo. Sinto com todo o corpo. Emociono-me com todo o corpo. E apenas depois fotografo. As fotografias são uma extensão de mim, do que penso e vejo e sinto e sonho e imagino e fantasio e questiono com o corpo; sempre com o corpo. Tal como um abraço é uma extensão de mim, de todo o meu corpo. Ou a dança. Gosto de dançar, tu não? Há uma convergência de tudo o que o corpo é e emana: carne, emoção, sentimento, alma; tudo convertido em movimento, em beleza, em harmonia, em liberdade. E quem me vir dançar fica a conhecer-me melhor. Quem me abraçar fica a conhecer-me melhor. Não sei se faz sentido para ti. Mas pensa assim: quando vês uma foto tirada por mim é como se me tocasses; em mim própria, no meu corpo. Olhar é tocar. Isto parece-te muito louco? Pode ser loucura. E talvez tenha havido um tempo em que me protegia atrás da máquina fotográfica; como se fosse uma cortina. Isso passou, o tempo é outro, a cena mudou. Agora: a máquina não me esconde; revela-me.

Deixa que os teus dedos me conheçam, diz ela.
Ele pega a fotografia que ela lhe estende. Vê-a com os olhos, vê-a com os dedos. Sente-a com os olhos, sente-a com os dedos. Pensa-a com os olhos, pensa-a com os dedos. Conhece-a com os olhos, conhece-a com os dedos.
É só uma foto, pensaria ele antes.
Agora sabes que não é apenas uma foto, diz ela.
E sorriem.

O tempo se esgota. Pinga lentamente da torneira semi-aberta. Escoa de um reservatório que nunca é alimentado. Escoará até acabar. Por isso é tão importante fixá-lo. Com o corpo. No corpo: é esse o verdadeiro reservatório.

Texto: Paulo Kellerman

Procissão

“Caminhamos pelas ruas tranquilas da minha infância.

O caixão avança devagarinho, atrás a multidão geme silenciosamente. Um silêncio feito de murmúrios e rumores, de chilreares de pássaros invisíveis e da cantoria fantasmagórica dos sinos, de arrastares de pés e estalos de bengala. Há, também, lágrimas que se ouvem. Há tristezas que pairam, que convidam à desistência, à rendição; ou talvez sejam apenas nuvens a passar, apressadas e opressivas.”

Texto: Paulo Kellerman (Um relógio a tiquetaquear, Os mundos separados que partilhamos)