One art

“The art of losing isn’t hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.
 
Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn’t hard to master.
 
Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.
 
I lost my mother’s watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn’t hard to master.
 
I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn’t a disaster.
 
—Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan’t have lied. It’s evident
the art of losing’s not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.”

Words | Elizabeth Bishop

“Pareço ter perdido uma coisa não se sabe onde e quando.”

Palavras | Clarice Lispector (Um sopro de vida)

Ponto

Texto | Ana Gilbert

Sou um ponto. Giro, giro, até perder-me. Retorno. Descubro, encontro. Perco. Perco sempre. E volto a encontrar (-me). Aqui.

(Foto e texto a partir da proposta de Inesa Markava, por ocasião da performance coreográfica na exposição “O mundo é redondo”, de Rachel Caiano.)

Entressonho

Texto Ana Gilbert

Acordo. Sem vontade. Quero apenas ficar na cama um pouco mais. Não sei o que pensar, não consigo pensar, não quero pensar. Quero apenas dormir. Quero tanto. Mas algo em mim não deixa que me entregue à fuga do esquecimento. Senso de obrigação? Ou um resto de força? Espio devagarinho para fora de mim. Tento, pelo menos. Espreguiço-me, um espreguiçar mecânico, sem prazer. Continuo do lado de dentro. Levanto. Não sei qual roupa vestir para trabalhar e isso torna-se paralisante. Fico a olhar as roupas, à espera, talvez, de que uma se ofereça para que a vista. Mas, claro, isso não acontece. Fico durante um tempo a olhar o vazio. Não tenho fome, talvez uma ponta de enjoo; desânimo é o que tenho e me entrego a ele. O mundo gira na velocidade do meu desânimo: lento, os sons distorcidos por uma rotação alterada. Eterna. Afinal, termino de vestir a roupa que mecanicamente apanhei no armário e agora já não há tempo para mais. Ignoro o espelho: desisto de conferir as olheiras que sei que tenho, o vazio do olhar, a pergunta; não quero ver a roupa um pouco amarfanhada, falta-me paciência para esses pequenos detalhes. Ou cuidados comigo. É tarde e saio apressada, tentando me ajustar à velocidade do mundo.

Ao chegar à rua, caminho entressonhada, num recitar melancólico de tarefas a cumprir. Ao virar a esquina, o impacto da brisa do mar, fria, sobre a pele, quente, traz contra a minha vontade lembranças de outros tempos adormecidos, quem sabe soterrados, onde tudo era possível, ali, junto a outro mar. Mar da infância, mar de dentro, mar das minhas histórias. O tempo linear congela; movo-me no tempo abissal dos afetos.

Encontro-me novamente junto àquele mar, distante, quando ainda podia sonhar e fazer planos. O cheiro de maresia invade as narinas; sinto o gosto de sol, o sal a queimar-me a pele jovem, ainda infantil. Paro de lutar contra as lembranças e entrego-me às sensações familiares. Mas logo o roçar do tecido torna-se insuportável, lançando-me de volta à realidade escaldante deste dia de verão. Contudo, as cicatrizes do corpo haviam sido tocadas, despertando o incômodo da alma e o que há muito decidi esquecer. Afundo novamente; é mais forte do que eu.

Como foi que aconteceu? Não consigo lembrar com clareza. Por mais que revire as lembranças, não consigo juntá-las, não consigo sentir. Um toque, um sussurro, uma sombra. Uma ameaça. Um hálito conhecido, um rasgar de tecido, uma dor. Depois, ninguém. Apenas a minha mão a sentir a textura dos grãos de areia, a imaginar-lhes a cor; e os meus olhos, fechados, a encherem-se de vermelho. Imagens enevoadas, dispersas, fantasmagóricas. Quanto mais penso nisso, mais embaçados e confusos ficam meus contornos. A clareza esvai-se em solidão e sinto-me afundar em areia movediça.

Tento me agarrar a algo para não ser tragada: penso em fragmentos de cartas, pedaços de ilusão, cheiros de amores antigos, mortes envoltas em delicados papéis de seda azul, guardadas a sete chaves em pequenos baús. Inútil. A única coisa que me sustentaria seria um fio, esse fio que se rompeu naquele preciso momento, tornando-me dura, distante, determinada a esquecer o inominável.

Recolhi-me, anestesiei-me, armei-me; há muito deixei de ser inteira. Não permito que ninguém me penetre; ou me saiba. Perdi o rumo; perdi-me. Não consigo desistir de vez. Resta seguir.

Afundada nesse estupor, percebo que cheguei ao trabalho. Com um resto de vida.

***

Texto e foto| Ana Gilbert

Loucura

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Vou até à janela para ver o mundo passar. E ele passa, vagaroso e indiferente. Talvez já tenha tido a esperança que, um dia, me levasse consigo; mas para onde me levaria? E eu gostaria de ter ido? Não sei. Da minha janela vejo o céu azul e sinto o sol no rosto. Por mais longe que o mundo me levasse, não seria sempre o mesmo sol a aquecer-me a pele? Sorrio enquanto penso isto, e é bom quando uma pessoa consegue sorrir sozinha; apesar de haver quem chame a isso loucura. Talvez ainda possa ir pelo mundo fora, em busca de outros sóis; talvez baste acreditar e imaginar que é possível. Se existe o desejo, haverá sempre a possibilidade? Por agora não quero pensar em possibilidades, basta-me sentir a realidade concreta deste sol no rosto. Para onde irá toda esta luz que a minha pele absorve? Tanto sol que apanhei ao longo da vida, certamente que o interior do meu corpo será muito iluminado, resplandecente de luz; se tiver de ser operada ainda vou cegar os médicos. Sorrio de novo, enquanto olho a rua em busca de gente. Sempre gostei de observar pessoas, sempre gostei de lhes escutar as conversas e, através das suas vozes, conhecer-lhes os pensamentos e os sentimentos. Mas agora são raras as pessoas que passam por esta rua; e as que passam nunca conversam. Não entendo por que motivo não falam, não entendo por que motivo calam os seus pensamentos; se não são verbalizados, para onde irão todos esses pensamentos que as pessoas têm dentro de si? Permanecerão aprisionados nos corpos para sempre? Formando gases, talvez. Escuto o silêncio da rua, respiro o cheiro das árvores que estão lá mais à frente. Respirá-las é uma forma de as guardar, a verdade é que tenho florestas inteiras dentro de mim; mas ninguém sabe. Talvez seja por ter tanta luz no meu interior, as árvores dão-se bem com a claridade. Sorrio. Penso tanta tolice, são sucessões de pensamentos tolos que chegam não sei de onde e me fazem sorrir. Talvez por ser essa a única forma que os pensamentos têm de sair para o mundo: agora que a trombose me levou a capacidade de falar, resta-me sorrir. E por isso, sorrio; é como se fosse uma libertação. Mas continua a não passar ninguém na rua; o céu mantém-se azul, indiferente aos meus sorrisos. Se todas as pessoas do mundo fossem cegas, haveria quem sorrisse? Ou deixariam de o fazer, por não existir quem pudesse ver esses sorrisos? Não sei; as perguntas sempre me agradaram mas as respostas causam-me azia, são como portas que se fecham com estrondo. O que sei é que gosto de sorrir ao céu azul, apesar de ele nunca me sorrir de volta. Sinto-me livre quando o faço. Olhar e sorrir, é tudo o que me resta fazer. E esperar. Espero mas a rua permanece deserta. Desconfio que estar à janela é como olhar para o futuro; mas hoje o futuro não virá. Talvez esteja confusa e me tenha baralhado, talvez não seja domingo, talvez os netos afinal não venham. Talvez o futuro seja feito de esperas. E enquanto se espera, o mundo continua a passar; vagaroso e indiferente.
(Crônica para o Jornal de Leiria)

Extensão

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(Projeto com Paulo Kellerman)

Cena

No estúdio improvisado a câmera percorre o espaço distraidamente, parando aqui e ali sem se deter. O olho por detrás dela busca algo que o capture, há muito tempo busca. Já nem sabe quanto. Percorreu espaços, encontrou ângulos mas nenhum que o arrebatasse. Ao olho por detrás da lente. Gira… pára… torna a começar… insaciável… desamparado porque não encontra, nada-ninguém-amor-azul. Pulsa. Líquido, escorre-sofre. Pensa no que olha, não, não pensa, apenas percorre, desliza lentes como dedos, afaga, apalpa, quer ser tocado como a lente ao focar o espaço. Mas não é assim, é apenas a frieza do obturador que clique claque abre e fecha sem piedade. Comentários soltos, quase vazios. Como o olho que olha e que parece vazado.

De repente a câmera se detém.

O que tanto buscava o encontrou. O olho por detrás da câmera. Paralisado, muda o plano ajustando o foco, diminui a abertura, o tempo de exposição. O tripé, sabe que não conseguirá sustentar o olhar sem ele. A câmera escuta a si mesma e o olho no jogo dos espelhos se reconhece. Esconde-se, fecha-se, o olho que olha por detrás da câmera. Teme ser visto. Sente-se perseguido ao descobrir-se no outro.

O tempo se esgota. Pinga lentamente da torneira semi-aberta. Escoa de um reservatório que nunca é alimentado. Escoará até acabar.

Sabe que não há mais tempo. De recuperar o amor perdido, o tempo gasto em buscar, que o esgarçou até onde não podia mais e o reduziu a um olho que olha através e que busca incessantemente algo que olhar.

Texto: Ana Gilbert

Reservatório

Toca-me, diz ela.
Apenas assim me podes conhecer, diz ela.

Há pessoas que são como máquinas fotográficas, não achas? Captam tudo, captam a realidade nas suas ínfimas nuances e delicadezas, captam a luz e a sombra e tudo o que há entre luz e sombra, captam um beijo de dois amantes e o voo de um pássaro, captam a sombra de um nuvem e a magnificência do grão de areia na praia, captam a textura da pele do pescoço e da coxa e da mão daqueles que amam, captam a imutabilidade e a passagem do tempo, captam a suavidade das rugas de um velho que vai morrer mas ainda ri uma última vez, captam as dobras de um lençol impregnado com o cheiro a sexo, captam o momento mágico em que uma folha se solta da árvore e se lança no abismo da liberdade. Há pessoas que captam tudo, porque tudo é captável, tudo é fixável, tudo é registável. Basta olhar. Olhas, logo captas. Mas tal como as máquinas fotográficas que tudo captam, há pessoas incapazes de sentir, de interiorizar, de incorporar aquilo que olham e vêem. Pessoas que são como máquinas. Apenas captam e registam. Acumulam. Coleccionam. Mas não sentem. E ainda assim sorriem. Como é possível que as máquinas fotográficas sorriam? De que sorriem elas, se não sentem? Porque sorriem? Como sorriem? Não entendo. Mas sei que há pessoas que são como máquinas fotográficas. Assustam-me muito, estas pessoas.

O que pensa o teu nariz quando respira o meu cheiro? O que pensa o teu coração quando perscrutas o meu rosto? Percebo que estranhas as minhas perguntas. Talvez não saibas que cada pedaço do teu corpo tem pensamentos autónomos. O teu coração pensa, o teu sexo pensa, as tuas mãos pensam, a tua boca pensa. Infinitos pensamentos cruzam-se no teu interior, faíscam por um instante ou eternizam-se entre as células, arrastam-se, combatem-se, anulam-se, misturam-se, morrem e renascem. E tudo converge para o cérebro, onde toda essa imensidão de pensamentos antagónicos é recolhida, analisada, conjugada, resumida. E aquilo que julgas ser o teu pensamento – o teu pensamento oficial – é apenas uma breve e tosca súmula da infinidade de pensamentos que o teu corpo produz.

– Queres dizer que o cérebro aprisiona os pensamentos?

Penso com todo o corpo. Vejo com todo o corpo. Sinto com todo o corpo. Emociono-me com todo o corpo. E apenas depois fotografo. As fotografias são uma extensão de mim, do que penso e vejo e sinto e sonho e imagino e fantasio e questiono com o corpo; sempre com o corpo. Tal como um abraço é uma extensão de mim, de todo o meu corpo. Ou a dança. Gosto de dançar, tu não? Há uma convergência de tudo o que o corpo é e emana: carne, emoção, sentimento, alma; tudo convertido em movimento, em beleza, em harmonia, em liberdade. E quem me vir dançar fica a conhecer-me melhor. Quem me abraçar fica a conhecer-me melhor. Não sei se faz sentido para ti. Mas pensa assim: quando vês uma foto tirada por mim é como se me tocasses; em mim própria, no meu corpo. Olhar é tocar. Isto parece-te muito louco? Pode ser loucura. E talvez tenha havido um tempo em que me protegia atrás da máquina fotográfica; como se fosse uma cortina. Isso passou, o tempo é outro, a cena mudou. Agora: a máquina não me esconde; revela-me.

Deixa que os teus dedos me conheçam, diz ela.
Ele pega a fotografia que ela lhe estende. Vê-a com os olhos, vê-a com os dedos. Sente-a com os olhos, sente-a com os dedos. Pensa-a com os olhos, pensa-a com os dedos. Conhece-a com os olhos, conhece-a com os dedos.
É só uma foto, pensaria ele antes.
Agora sabes que não é apenas uma foto, diz ela.
E sorriem.

O tempo se esgota. Pinga lentamente da torneira semi-aberta. Escoa de um reservatório que nunca é alimentado. Escoará até acabar. Por isso é tão importante fixá-lo. Com o corpo. No corpo: é esse o verdadeiro reservatório.

Texto: Paulo Kellerman

Procissão

“Caminhamos pelas ruas tranquilas da minha infância.

O caixão avança devagarinho, atrás a multidão geme silenciosamente. Um silêncio feito de murmúrios e rumores, de chilreares de pássaros invisíveis e da cantoria fantasmagórica dos sinos, de arrastares de pés e estalos de bengala. Há, também, lágrimas que se ouvem. Há tristezas que pairam, que convidam à desistência, à rendição; ou talvez sejam apenas nuvens a passar, apressadas e opressivas.”

Texto: Paulo Kellerman (Um relógio a tiquetaquear, Os mundos separados que partilhamos)