
O teu mundo no meu



“Não quero mais me expressar por palavras: quero por ‘beijo-te’ “.
Clarice Lispector (Um sopro de vida)

“É sempre por rizoma que o desejo se move e produz.”
Deleuze e Guattari
[intervenção em fotografia]

a impossibilidade de narrar o que se vê.
[isto também é sobre Gaza]

a do encontro









uma câmera
um rolo de filme
dois fotógrafos
Frankie Boy fotografou Ana Gilbert
Ana Gilbert fotografou Frankie Boy
escreveram com luz
com palavras
fragmentos de tempo
atravessamentos de histórias
encontro
***
a camera
a roll of film
two photographers
Frankie Boy photographed Ana Gilbert
Ana Gilbert photographed Frankie Boy
they wrote with light
with words
fragments of time
interweaving of stories
encounter


Crescer nos acentos perpétuas cobras d’água e logo a seguir
para que o ciúme não te adelgace
Pela cauda desengomo-te virgulados alguns actos
entre uma mornura de focinhos islandeses
{rafeiras arfadas}
e o inteira me prumares recatada.
Tibar-nos, como se tiba a latina linguagem, julgo branco e impossível.
Texto da Ana Sofia Elias e foto minha
[do nosso baú imaginado de imagens e palavras ardentes]

Era uma vez um professor de filosofia que repete as mesmas ideias turma após turma, como se fosse uma gravação e não estivesse realmente ali, de corpo e alma. A gravação refere-se ao mito de Sísifo. Explica a voz, distanciando-se do corpo, como um certo rei fora punido com o castigo eterno de erguer uma pedra gigante até ao cimo de uma montanha, apenas para depois a ver deslizar montanha abaixo, até ao ponto de partida. Explica a voz, mecânica e sem vida, como o rei repetia aquela tarefa vez após vez, apesar de saber que o desfecho seria sempre o mesmo, e o propósito inútil. Explica a voz, cansada e apática, como aquela conformação do rei em repetir uma tarefa sabendo qual a sua conclusão e irrelevância poderia ser uma metáfora poderosa do destino dos humanos, condenados a repetirem tarefas que não compreendem e não controlam. Explica a voz, desinteressada do que diz, algumas das implicações filosóficas possíveis de especular a partir da postura do rei castigado, e como poderiam ter ressonância em todas as pessoas que as especulassem, incluindo os jovens que se encontram à sua frente.
– E a pedra?
A gravação emperra. A interrupção é inesperada, e a voz vê-se forçada a suspender o discurso automático. Há silêncio na sala de aula.
– Todo o foco está no rei. Mas e a pedra?
A turma agita-se, o professor pede explicações.
-Talvez o protagonista do mito não seja o rei e a sua teimosia absurda. Talvez o que importa realmente seja a pedra, e o seu comportamento. Porque insiste em regressar sempre ao ponto de partida? Não pode ser apenas por força da gravidade ou assim. Isso seria uma explicação científica, e os mitos não são lugares de ciência. Para mim, acho que é por resistência. O rei é teimoso, a pedra é resistente. Ou seja, a pedra tem mais personalidade do que o rei.
É a sétima aula do dia. E a primeira vez que o professor sorri.

o que fazer com as linhas de fuga deleuzianas quando não há fuga possível?
[isto também é sobre Gaza]


as paredes pulsam histórias.
(A sonhadora, 2022)
[por seres tão inventivo | e pareceres contínuo | tempo, tempo, tempo, tempo | és um dos deuses mais lindos – Caetano Veloso]

medo. a dominação que nos separa.
[ensaio com Ana Sofia Elias]

Texto do Jorge VAz Dias sobre AISHA, no Jornal de Leiria.
Obrigada, poeta, por mais esta vida de Aisha.
AISHA, colaboração com Paulo Kellerman | Portable Link

Here I am, where I have always been, in this space that does not belong to me. Or at least, not entirely. I need these moments when I no longer have to exist for the other; when I peel off the makeup of the daily theatre and carefully remove the mask from my body. I face myself without disguise and trace the memories etched in the skin, those that live only in the body and can be unleashed by a single touch. Perhaps I should not touch them, nor even think of them. They open watery spaces that leave me adrift. I avoid speaking of them and shield myself in a shell of silence you do not know. In those moments, my gaze drifts in search of a light that might swallow me whole and spit me out somewhere else, where the muted scream I carry might escape, coarse, through the pores. Yes, there is a scream locked deep inside, a scream of desire. A scream that hides in the crystalline setting, in the perfect arrangement of the room. As if the clarity of the house, the precise focus of my gaze upon the house, could somehow compensate for the disorder that inhabits me. For the pain that pulses incessantly beneath the skin and could be revealed through scanning. I fear that more watchful eyes might notice the slight tremor in the fingers that support my face. Or the involuntary twitch of my eye, the left one. Or the restless shifting of objects, a mechanical act from which I am absent. But you are not attentive. You do not notice the smallnesses that compose my inner landscapes, landscapes that only dare emerge when the world quiets around me and the objects come alive. When I become just another object in our home, perfectly ordered. I, perfectly aligned with the rest. I, perfectly, an object. I could remain like this for hours, motionless, breathing imperceptibly, in the soft undulation of matter. It would be enough not to disturb the peace that invades me. A peace that smells of stagnation, a kind of death that hides in the folds of your gesture. You are sleeping, or perhaps you are simply absent, it is all the same. This time is mine alone, and immersed in this atmosphere, I let the latent desire pour out. I feel it spreading slowly through my body, with a life of its own, seeking out the lesser-frequented corners. It arouses me. It satiates me. I exist in this interval of silence. A silence brimming with life, even if fleeting. I exist in the suspension of light that draws me in. I exist in the seduction that imagination provokes, in the glimmer of reinventing myself. And I tremble. I fear. I still do not know how. The shadows thicken and the light pulls away. Dawn is rising. I return to opacity. Only the consciousness of the skin endures.

I look like a Barbie
but feel like a poet.
Ana Sofia Elias (Uca, 2024)
[Uca é viagem demorada, sem volta. Desdobra-nos pelo caminho e já não conseguimos refazer o origami que um dia fomos]

















Exposição VARAL FOTOGRÁFICO, com fotografias dos projetos AISHA (com Paulo Kellerman) e LATITUDES (com Cristina Vicente). Na Casa da Lídia, que tem a esplanada mais verde da cidade | Leiria

às vezes é preciso acertar
a velocidade da pele
com a do coração
Isabel Pires (Vai formosa e mui segura, 2024)