Nem bestas nem santas

Esta é a minha contribuição para a performance NEM BESTAS NEM SANTAS, com o tema da opressão do feminino e o patrimônio intemporal de feminilidade.

É a quarta produção NEM MARIAS NEM MANÉIS, uma companhia jovem que tem produzido trabalhos contundentes e poéticos que nos fazem sentir e questionar. E, principalmente, que nos irmanam numa experiência de coletividade.
Parabéns e muito obrigada.

A performance aconteceu ontem, 19 de setembro, no m|i|mo, em diálogo com a bela exposição do nosso projeto FOTOGRAFAR PALAVRAS, em Leiria, Portugal, essa cidade que também é casa.
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“Olha as estrelas e pensa: são minhas testemunhas.
Pensa: estão a ver tudo o que sinto e faço.
Tal como viram tudo o que biliões de outras mulheres
sentiram e fizeram.
Desde a primeira mulher que viveu.
As estrelas são as mesmas. Aquelas que tu própria podes olhar enquanto pensas: são minhas testemunhas.”

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Texto: Paulo Kellerman
Encenação e Dramaturgia: Cátia Ribeiro
Interpretação: Andreia Mateus, Catarina Mamede, Cátia Ribeiro e Rita Rosa
Movimento coreográfico: Cátia Ribeiro e Rita Rosa
Ilustração ao vivo: Maraia
Música: Nelson Brites
Vídeo: Milady
Artes manuais: Cátia Ribeiro e Sandra Ribeiro

Círculo: Daniela Mateus, Dora Fonseca, Fátima Gonçalves e Mariana Lourenço

Fotografia: Ana Gilbert, Andreia Mateus, Anna Monica Rigon, Anna Papachristou, Carina Martinho Coelho, Carolina Geiger, Cristina Vicente, Elsa Arrais, Fabiana Fraga, Federica (Final Girl 7), Jelena Stankovic, Joana Neves, Julie Flam, Martha Takahashi, Nadir Social Lens, Sêmmada Arrais, Sílvia Bernardino, Teresa Santos e Vanda Cristina

Fotografia de Cena e produção: Cristina Vicente

Carta

“O trem veloz chegou carregado das mais belas rosas do mundo. Mas você não veio.
Se isso acontecer outra vez estendo-me sobre os trilhos.”

excerto de carta de Nise da Silveira a Marco Lucchesi (in Viagem a Florença, de Marco Lucchesi, 2025)

FOTOGRAFAR PALAVRAS # 5274

O blog FOTOGRAFAR PALAVRAS comemora 9 anos neste mês de agosto.
Criado pelo querido amigo Paulo Kellerman e cuidado por tod@s nós, o projeto é uma casa artística que nos abriga e alimenta em tempos sombrios.
Espaço de resistência poética, o blog une fotógrafos e escritores no amor partilhado por palavras e imagens. É uma galeria de arte que nos oferece a oportunidade de contemplação silenciosa; um outro tempo, fora da volatilidade das redes.
Visitem; há muito o que ler e ver por lá.

A parceria de hoje na publicação # 5274 é com o Paulo:

Disse: o mundo está a desmoronar e ninguém o pode impedir. Disse: essa sensação de impotência é tão dolorosa. Disse: gostaria muito que alguém pudesse reverter as desgraças que vemos dia após dia. Disse: mas já não acredito mais que isso seja possível. Disse: o mundo está a morrer e ninguém pode fazer nada.
Respondi: então agora sabes como deus se sente desde que o mundo existe. Agora sabes como é ser deus. Gostas?

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He said: the world is collapsing and no one can stop it. He said: this feeling of powerlessness is so painful. He said: I wish so much that someone could reverse this disgrace that we see day after day. He said: but I no longer believe it’s possible. He said: the world is dying and nobody can do anything about it.
I replied: so now you know how god has felt since the world existed. Now you know what it’s like to be god. Do you like it?

Texto | Text: Paulo Kellerman

time is out of joint

Time is out of joint, diz Hamlet, na tragédia de William Shakespeare, ao saber do assassinato do rei, seu pai, pelo tio.

Time is out of joint, diz Paul B. Preciado, sobre o colapso do capitalismo petrossexorracial.

Time is out of joint, é o que diz cada célula do meu corpo quando olha o reflexo do mundo na superfície do sangue derramado.

[isto também é sobre Gaza]

sonho

“Fui sonhada por ti.”

José Eduardo Agualusa (Manual prático de levitação)

I am made of volcanic ash
where pipe dreams and grief marry and clash

words: Ana Sofia Elias

[there are people who reflect and unfold us, who share wings and shadows]

Your absence has made you more real, more authentic. Can you understand?

A tua ausência tornou-te mais real, mais autêntica. Percebes isto?

Text(o): Paulo Kellerman

Portable link

Desejo

“É sempre por rizoma que o desejo se move e produz.”

Deleuze e Guattari

[intervenção em fotografia]

um lugar de passagem

a place of passage

uma câmera
um rolo de filme
dois fotógrafos

Frankie Boy fotografou Ana Gilbert
Ana Gilbert fotografou Frankie Boy

escreveram com luz
com palavras

fragmentos de tempo
atravessamentos de histórias
encontro

***

a camera
a roll of film
two photographers

Frankie Boy photographed Ana Gilbert
Ana Gilbert photographed Frankie Boy

they wrote with light
with words

fragments of time
interweaving of stories
encounter