Respiras devagarinho, não te moves; e o tempo passa por ti, esvai-se, indiferente aos ruídos, aos soluços do mundo. Estamos sós, juntos por um momento que não vai durar o suficiente.
Paulo Kellerman (excerto do conto Morreste: e ainda não sabes)
Na publicação # 5403 do FOTOGRAFAR PALAVRAS, a companhia é do belo poema do ~nassr
Lar
Reconheci-te no instante em que te encontrei — o teu sorriso, rebeldia talhada em alegria contida, as conversas que murmuravas às folhas de chá, como se o futuro se escondesse no perfume do vapor. Conhecia a tua alma muito antes de a tua pele dizer o primeiro olá. Não foi fogo, nem carne, nem vertigem, foi apenas o ver através: as tuas inseguranças — disfarçadas de armadura, o teu perfume — um mapa sem destino.
Ergui um lar dentro de ti. Mas o chão tremia, o vidro partiu-se sob o nosso peso, e o lar desfez-se — um fantasma de abrigo, deixando-me órfão de um lugar onde nunca vivi.
Procurei-te noutros rostos, derramei-me em corações abertos, na esperança de que guardassem o eco da saudade. Mas cada casa onde entrei era um quarto sem ar, um corpo sem morada.
Ser refugiado ensinou-me que os lares não se talham em pedra — a pedra cede sob o peso do exílio. Um ano, um lugar, e recomeça-se. Mas a alma cansa-se de paredes que não escutam.
Uma casa pode conter o corpo, mas é o lar que contém o coração. E se os lares que ergui nos outros nunca pudessem suportar o peso da minha alma? E se todo o coração precisar de repouso, mas nem todo o lugar o puder acolher? Talvez o lar não seja um destino. Talvez seja o instante do reconhecimento, o breve pulsar onde duas almas murmuram: “Também eu te procurava.”
***
Home
I recognised you when I met you, your grin—rebellion carved in quiet joy, your whispered debates with tea leaves as if they held your future in their scent. I knew your soul, long before your skin introduced itself. No fire of attraction, no storm of flesh, but I saw through the layers: your insecurities—dressed as armor, your perfume—a map to nowhere.
I built a home within you. The foundation trembled, glass fractured beneath our weight, and suddenly, the home dissolved— a phantom of safety, leaving me homesick for a place I’ve never been.
I searched for you in others, emptied myself into open hearts, hoping they’d catch the echo of longing, but every house I entered was a room empty of air.
Being a refugee taught me homes aren’t carved in stone; stone crumbles under the weight of exile. One year, one place, then you build again, but the soul grows weary of walls that don’t listen.
A house may hold the body, but a home holds the heart. What if the homes I’ve built in others could not hold my soul’s weight? What if every heart needs a place to rest, but not every place can carry the heart? Perhaps home isn’t a destination. Perhaps it’s the pulse of recognition, perhaps it’s the moment two souls whisper, “I’ve been looking for you, too.”
Texto | Text: ~nassr Fotografia | Photography: Ana Gilbert
Você não tem medo de mim Você tem medo é do amor Que você guarda para mim Você não tem medo de mim Você não tem medo de mim Você tem medo é de você Você tem medo é de querer Me amar