A sombra

De súbito, penso que o corpo existe sem mim, sem essa dimensão pensante que escreve. Penso que ele abriga todas as palavras inventadas e as vai libertando, uma a uma, para que eu as utilize. Eu, mero instrumento de sua linguagem. Eu, identidade exagerada pela razão.”
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Excerto do meu conto ‘A SOMBRA’ para a Antologia Crocitar de Lenore, 2021.


A Antologia Crocitar de Lenore reúne releituras contemporâneas dos poemas ‘O CORVO’ e ‘LENORE’, de Edgar Allan Poe.
É um ebook editado pela Morse Laboratório Editorial de distribuição livre e gratuita. Pode ser acessado e baixado aqui.

continuas aí

“continuas aí
uma fotografia em contínua revelação
maravilho-me quando emerges
líquida resplendecendo sob o vermelho
da câmara escura
estás aqui nas minhas mãos
toco-te acaricio-te
sinto as propriedades de quem vem
do fundo das entranhas de ser
és existes já
imprimindo tacto a toda a extensão
da pele o corpo move-se
numa autêntica nova forma.”

Palavras | Helder Magalhães (Nunca estiveste aqui, Edições Húmus, 2020)

Água com Açúcar

“As mamas mal tapadas. Tapavam-se as almas porque ao corpo vendido resguardavam-se as entranhas.”

Uma imagem para um excerto de ÁGUA COM AÇÚCAR, romance de Ana Miguel Socorro

Quarta publicação da editora Minimalista

(encomendas pelo e-mail: minimalista.editora@gmail.com)

Vermelho

Vermelho-sangue, vermelho-vida, vermelho-alma, vermelho-irmandade, vermelho-encontro, vermelho-gente… aqui, lá, em qualquer lugar…

Primeiros azuis do ano…

“Porque não lembramos o que vimos da primeira vez que olhámos, da primeira vez que os nossos olhos se abriram para o mundo e fizeram a sua primeira focagem?”

“Recordamos tantas primeiras coisas. Mas não a primeira vez que olhámos, que cheirámos, que tocámos; que sorrimos. Como podemos esquecer o primeiro sorriso?”

Paulo Kellerman (Aviões de papel)

Uma edição Minimalista

Fotografar palavras #2633

“14 dias a conta gotas. Cada dia é uma gota. 24 horas a cair e a desaparecer. Gosto de fingir que não entendo a sua finitude, a sua não importância, explicando-a desta forma: 24 horas a cair e a desaparecer. Afinal, o que é uma gota num oceano? É um oceano mais uma gota. Simples.

Lá fora, o frio e as feridas em sangue, em patas que já não suportam o peso. Amor sem retorno que já não se queixa de dor. Cá dentro, a lareira, dois gatos e a falsa sensação de calor. Do outro lado da rua, a insegurança. O tempo em modo decrescente. Fora dos limites geográficos do meu ninho, a ideia vaga de um oxigénio rarefeito em bolha de marfim. Impossível de respirar. O marfim é uma pedra. A pedra não tem pulmões. Nem cérebro. Nem coração. Tem apenas um corpo frio e duro. Um corpo sem pulmões não mexe. Move-se apenas com a ação conjugada de forças, mas não dança.

24 horas a cair e a desaparecer. Os meus dias em forma de gota. A ideia bonita dos dias transformados num imenso azul. É nisso que me detenho enquanto violento as insónias, quase diárias. Talvez assim custe menos ignorar a trágica ideia da gravidade. Recordo a ironia da maçã na vida de Newton. Poderia ter sido uma laranja, mas não foi. Uma melancia certamente seria uma falácia científica. Não levaria a lado nenhum. As melancias crescem na terra. As abóboras também. Ambas flores de uma terra que engole e deglute, mais tarde, corpos que não são pedras. Muito menos pedras de marfim. Essas ficam inalteráveis. Corpos quentes e moles. Corpos providos de pulmões que respiram. Uma idiossincrasia humana, enquanto a sorte o ditar. Questiono-me se os pensamentos também podem cair e desaparecer. A Elis Regina e o Nick Cave no gira-discos e um estômago alérgico a noticiários, dizem-me que sim.”

Fotografar palavras
Projeto | Paulo Kellerman
Texto | Rita Rosa
Foto | Ana Gilbert

Verdade inventada

“Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada.”
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Clarice Lispector (Água viva)