
“As imagens que vivem em nós constituem uma espécie de corpo.”
Emanuele Coccia (A vida sensível)

“As imagens que vivem em nós constituem uma espécie de corpo.”
Emanuele Coccia (A vida sensível)

morte. a violência que nos separa.




Deslizo lentes como dedos.

“E no entanto, refaço minhas asas | Cada dia.”
Hilda Hilst

O toque que nos separa.


“Só por hoje eu não quero mais chorar
Só por hoje eu não vou me destruir”
Legião Urbana

Time within myself.


“Não há casas, há apenas o fazer casa.”
Emanuele Coccia (Filosofia da casa, 2024)


“É impossível amar sem fazer lar.”
Emanuele Coccia (Filosofia da casa, 2024)

desenhar um corpo com palavras.


quem deixou sobre o coração
um feixe de luz
cega nunca
Valter Hugo Mãe (Publicação da mortalidade)

Ser alma gentil com fogo nas asas.
Palavras | words: Jorge VAz Dias

a fantasia que nos separa.
[in A respiração do tempo, Minimalista, 2022]

Sobe as escadas, lentamente, num andar que seduz. Olha em direção ao café antes de seguir para a sala de exposição. A saia curta, as pernas bem torneadas, os seios demarcados na blusa. A bolsa a tiracolo, esquecida. Tem a idade da juventude, em que os dias fluem sem pressa. Observa cada quadro com meticulosidade. Concentrada que está, não percebe que é observada. Por mim. E por ti. Talvez tenha reparado em nós, talvez em ti, apenas. Mas comporta-se como que alheia a tudo e todos. E isso é ainda mais sedutor.
Reparo que tens os olhos fixos nela. Acompanhas cada passo, cada movimento daquele corpo. Os olhos brilham, cedes à atração. Do corpo ou da história imaginada? Não sei e isso me excita.
Sei que começas a construir-lhe uma história. Idade, ocupação, relações. Desenhas um corpo com palavras. Inventas encontros e diálogos. Ensaias situações. E isso te envaidece.
Tem sido assim desde sempre. Nossa história é longa, feita de sedução e cumplicidade. E de novidade. Precisas de novidades para permanecermos juntos. Nada é suficiente para ti; não sou suficiente, e há muito deixei de tentar encontrar razões para isso. Examinas a moça e o teu olhar me agride. O teu desejo me agride; o corpo dela me agride; e a sua juventude. Agrides-me. E me excito ao imaginar-te com ela, com todas como ela. Sempre jovens e interessantes e de olhares sonhadores. O que fiz aos meus sonhos?
Agora, ela vem em nossa direção. Parece não nos ver. Ou finge não ver. Senta-se na mesa ao lado e pede um chá. Olhas discretamente, o ângulo não favorece. Sinto a conexão que se estabelece entre os três. Sim, algo nela se insinua: o cruzar de pernas, a lentidão do bule a entornar o chá, a echarpe que é retirada, expondo o pescoço esguio.
Sinto um calor repentino, a sala se tornou sufocante. O meu rosto arde. Ela está ao teu alcance, basta que pronuncies uma palavra. Imagino a aproximação lenta, a sedução quase explícita, a conversa que terias com ela. Reparo que estou a viver tudo isso dentro de mim. Tu e ela são apenas peças do meu jogo, que levo adiante como forma de me ferir. Qual a diferença entre prazer e dor? Volto à cena e constato que já não te preocupas em disfarçar o interesse. Há agora um esquadrinhar aberto, à espera de reciprocidade. Ignoras-me. Sou feita de matéria invisível, ainda que em carne-viva.
Ela termina o chá; olha-nos. Sim, encara os dois. O que pensará? Ter-se-á interessado por ti? Por mim? Contudo, nada mais acontece. Ela se levanta, sem pressa, dá meia-volta e desaparece das nossas vidas.
Esta noite, quando estivermos a foder, pensarás nela. Eu também.
[in A respiração do tempo, Minimalista, 2022]

The lives and loves of images
by W.J.T. Mitchell (2005)