
O teu vestido tomba
e é uma nuvem.
O teu corpo se deita no meu,
um rio se vai aguando até ser mar.
Mia Couto [poemas escolhidos]

O teu vestido tomba
e é uma nuvem.
O teu corpo se deita no meu,
um rio se vai aguando até ser mar.
Mia Couto [poemas escolhidos]

E se fossem os sentimentos a escolherem as pessoas, tal como as pessoas escolhem as casas onde querem viver?
E se as pessoas fossem, afinal, simples casas onde os sentimentos podem habitar?
What if feelings chose people, just as people choose the houses they want to live in?
What if people were, after all, simply houses where feelings could dwell?
Portable Link, projeto com Paulo Kellerman. Um diálogo entre literatura e fotografia, entre imagem e palavra.


Quem não pensa, não sente.
Quem sente, não pensa.
Whoever doesn’t think, doesn’t feel.
Whoever feels, doesn’t think.
Paulo Kellerman & Ana Gilbert

Respiras devagarinho, não te moves; e o tempo passa por ti, esvai-se, indiferente aos ruídos, aos soluços do mundo. Estamos sós, juntos por um momento que não vai durar o suficiente.
Paulo Kellerman (excerto do conto Morreste: e ainda não sabes)
O livro GASTAR PALAVRAS completa 20 anos de beleza.

te ver sem te pegar nas redes da imobilidade.
Didi-Huberman, (imagens-ocasiões, 2018)

(com quantas oscilações se desenha o equilíbrio?)


Uma gota de noite oxida-me a boca.
Al Berto (O anjo mudo)

Diálogo entre fotografia e literatura | a dialogue between photography and literature
Paulo Kellerman & Ana Gilbert

UM LUGAR DE PASSAGEM, projeto com Frankie Boy (2024), agora em formato digital.
uma câmera
um rolo de filme
dois fotógrafos
Frankie Boy fotografou Ana Gilbert
Ana Gilbert fotografou Frankie Boy
[edição bilíngue]
…
A PLACE OF PASSAGE, a project with Frankie Boy (2024), now in digital format.
a camera
a roll of film
two photographers
Frankie Boy photographed Ana Gilbert
Ana Gilbert photographed Frankie Boy
[bilingual edition]

com Jorge VAz Dias

Around us fear, descending
Darkness of fear above
And in my heart how deep unending
Ache of love
James Joyce (Poems and shorter writings)

Gosto de cruzar as fronteiras.
Olga Tokarczuk (Sobre os ossos dos mortos)

no espelho | de relance | a cor do sonho | de ontem
Paulo Leminski


“Escrever ficção é como emprestar meu corpo para mim mesma”.
Eliane Brum (Uma duas, 2018)

“Somos estrangeiros também, e principalmente, diante da nossa felicidade”.
Emanuele Coccia (Filosofia da casa, 2024)


UCA, o livro de Ana Sofia Elias, é viagem demorada, sem volta.
Lisérgica.
Uca é desajuste.
É dor partilhada, sonho segredado, fantasia projetada.
Uca é pausa, lugar de descanso inquieto, de entrega temerosa. E prazerosa.
Uca é desafio da fala, é dança cantada.
Dança das palavras, por vezes, descompassada.
É grito mudo.
Ensurdecedor.
É beleza delicada e pulsante.
É toque sutil. Por vezes, soco no estômago.
Desdobra-nos pelo caminho e já não conseguimos refazer o origami que um dia fomos.
Uca é Ana.
E esta Ana que escreve espelha a Ana que escreveu.
Anas em voo livre.
***
Escantilhão
Quando eu nasci
Deus entregou-me um escantilhão e, desde esse dia, tenho sido uma recortadora de vida
Sigo entretida
a passá-la por um escantilhão
e a ser escantilhada por ela
Esse tal Deus que não tem nome – mas desceu para me visitar –
deu-me olhos de lince
e fome de me deslumbrar
Os olhos de lince servem para
caçar as coisas delicadas
que gostam de brincar às escondidas
com os meros mortais
para quem elas passam despercebidas
e desiguais
O Deus anónimo
também me deu mãos de violino
para fabricar delicadezas a partir da cidade que me rodeia
e o que me rodeia é esta sala que faz parte desta casa
que habita neste bairro
que um dia, tal como eu, também nasceu desta cidade
Mas este poema não é sobre o meu nascimento
É sobre a minha chegada
Hoje eu sou aquela que chega a ela própria que aterra em si
Hoje
eu sou aquela que carrega os intestinos nos olhos
е a garganta nas mãos
Faço a digestão de todos as montras do mundo
através dos olhos
E respiro o mundo dos coisas e das cidades pelos pulmões das mãos.
O delicado é
o meu fado.
Ana Sofia Elias (Uca, 2024)