Um lugar de passagem

UM LUGAR DE PASSAGEM, projeto com Frankie Boy (2024), agora em formato digital.

uma câmera
um rolo de filme
dois fotógrafos

Frankie Boy fotografou Ana Gilbert
Ana Gilbert fotografou Frankie Boy

[edição bilíngue]

A PLACE OF PASSAGE, a project with Frankie Boy (2024), now in digital format.

a camera
a roll of film
two photographers

Frankie Boy photographed Ana Gilbert
Ana Gilbert photographed Frankie Boy

[bilingual edition]

Gosto

Gosto de cruzar as fronteiras.

Olga Tokarczuk (Sobre os ossos dos mortos)

“Somos estrangeiros também, e principalmente, diante da nossa felicidade”.

Emanuele Coccia (Filosofia da casa, 2024)

Uca

UCA, o livro de Ana Sofia Elias, é viagem demorada, sem volta.
Lisérgica.
Uca é desajuste.
É dor partilhada, sonho segredado, fantasia projetada.
Uca é pausa, lugar de descanso inquieto, de entrega temerosa. E prazerosa.
Uca é desafio da fala, é dança cantada.
Dança das palavras, por vezes, descompassada.
É grito mudo.
Ensurdecedor.
É beleza delicada e pulsante.
É toque sutil. Por vezes, soco no estômago.
Desdobra-nos pelo caminho e já não conseguimos refazer o origami que um dia fomos.

Uca é Ana.
E esta Ana que escreve espelha a Ana que escreveu.

Anas em voo livre.

***

Escantilhão

Quando eu nasci
Deus entregou-me um escantilhão e, desde esse dia, tenho sido uma recortadora de vida
Sigo entretida
a passá-la por um escantilhão
e a ser escantilhada por ela

Esse tal Deus que não tem nome – mas desceu para me visitar –
deu-me olhos de lince
e fome de me deslumbrar

    Os olhos de lince servem para
    caçar as coisas delicadas
    que gostam de brincar às escondidas
    com os meros mortais
    para quem elas passam despercebidas
    e desiguais

    O Deus anónimo
    também me deu mãos de violino
    para fabricar delicadezas a partir da cidade que me rodeia
    e o que me rodeia é esta sala que faz parte desta casa
    que habita neste bairro
    que um dia, tal como eu, também nasceu desta cidade

    Mas este poema não é sobre o meu nascimento
    É sobre a minha chegada
    Hoje eu sou aquela que chega a ela própria que aterra em si

    Hoje
    eu sou aquela que carrega os intestinos nos olhos
    е a garganta nas mãos

    Faço a digestão de todos as montras do mundo
    através dos olhos
    E respiro o mundo dos coisas e das cidades pelos pulmões das mãos.

    O delicado é
    o meu fado.

    Ana Sofia Elias (Uca, 2024)

    Justo agora

    Eu ouvi você
    Me dizer que sim
    Mas era silêncio o que se ouvia
    Quando dei por mim

    Agora
    Logo agora
    Justo agora

    Adriana Calcanhotto (Justo agora)

    Você tem medo

    Você não tem medo de mim
    Você tem medo é do amor
    Que você guarda para mim
    Você não tem medo de mim
    Você não tem medo de mim
    Você tem medo é de você
    Você tem medo é de querer
    Me amar

    Adriana Calcanhotto

    [ouça aqui]

    Ter nascido

    “Ter nascido significa isto: não ser puro, não ser si mesmo, ter em si alguma coisa que vem de outro lugar, alguma coisa de estranho que nos leva a nos tornarmos a cada vez estrangeiros a nós mesmos.”

    Emanuele Coccia (Metamorfoses, 2022)

    XXXVI


    It is this body that holds all that I am.

    An envelope that contains me,
    Defines me,
    Limits me.

    And everything I am is born in it.
    But is everything that is born in my body mine?

    Universes of desires that arise and grow
    And multiply,
    Fleeting or perhaps eternal,
    Powerful and immense in their power
    Of disconcerting.

    Do they belong to me?

    Desires that are dreams
    Without flesh
    Or material density
    Or geometric contour
    Or palpability.

    Perhaps dreams are a concrete reality,
    As concrete as the most consistent
    Of realities.
    Concrete like a tree or a bridge or a clothesline or a fire
    Or a body.m
    But a reality lacking the senses.

    Concrete,
    But without dimension or volume.
    Without physical outline or measurability,
    Just intention and design.
    Like when you say you want to give me a hug
    Or a kiss,
    But you do not really give me a hug
    Or a kiss.

    My body produces universes of desires,
    Immense in their power
    Of disconcerting.

    But useless.

    What good are dreams
    If you cannot touch them?

    in And when the questions are over? REIMAGINED

    Paulo Kellerman (text) & Ana Gilbert (photo)

    Manual de independência

    Nem Bestas Nem Santas, performance da companhia teatral Nem Marias Nem Manéis

    O Manual compôs uma das onze instalações que fizeram parte da performance, que aconteceu no passado 19 de setembro, no m|i|mo. Além da leitura, o público foi convidado a participar, acrescentando suas próprias ideias sobre independência. Esta é uma de suas páginas.

    Nem bestas nem santas

    Esta é a minha contribuição para a performance NEM BESTAS NEM SANTAS, com o tema da opressão do feminino e o patrimônio intemporal de feminilidade.

    É a quarta produção NEM MARIAS NEM MANÉIS, uma companhia jovem que tem produzido trabalhos contundentes e poéticos que nos fazem sentir e questionar. E, principalmente, que nos irmanam numa experiência de coletividade.
    Parabéns e muito obrigada.

    A performance aconteceu ontem, 19 de setembro, no m|i|mo, em diálogo com a bela exposição do nosso projeto FOTOGRAFAR PALAVRAS, em Leiria, Portugal, essa cidade que também é casa.
    …..

    “Olha as estrelas e pensa: são minhas testemunhas.
    Pensa: estão a ver tudo o que sinto e faço.
    Tal como viram tudo o que biliões de outras mulheres
    sentiram e fizeram.
    Desde a primeira mulher que viveu.
    As estrelas são as mesmas. Aquelas que tu própria podes olhar enquanto pensas: são minhas testemunhas.”

    …..

    Texto: Paulo Kellerman
    Encenação e Dramaturgia: Cátia Ribeiro
    Interpretação: Andreia Mateus, Catarina Mamede, Cátia Ribeiro e Rita Rosa
    Movimento coreográfico: Cátia Ribeiro e Rita Rosa
    Ilustração ao vivo: Maraia
    Música: Nelson Brites
    Vídeo: Milady
    Artes manuais: Cátia Ribeiro e Sandra Ribeiro

    Círculo: Daniela Mateus, Dora Fonseca, Fátima Gonçalves e Mariana Lourenço

    Fotografia: Ana Gilbert, Andreia Mateus, Anna Monica Rigon, Anna Papachristou, Carina Martinho Coelho, Carolina Geiger, Cristina Vicente, Elsa Arrais, Fabiana Fraga, Federica (Final Girl 7), Jelena Stankovic, Joana Neves, Julie Flam, Martha Takahashi, Nadir Social Lens, Sêmmada Arrais, Sílvia Bernardino, Teresa Santos e Vanda Cristina

    Fotografia de Cena e produção: Cristina Vicente