UCA, o livro de Ana Sofia Elias, é viagem demorada, sem volta. Lisérgica. Uca é desajuste. É dor partilhada, sonho segredado, fantasia projetada. Uca é pausa, lugar de descanso inquieto, de entrega temerosa. E prazerosa. Uca é desafio da fala, é dança cantada. Dança das palavras, por vezes, descompassada. É grito mudo. Ensurdecedor. É beleza delicada e pulsante. É toque sutil. Por vezes, soco no estômago. Desdobra-nos pelo caminho e já não conseguimos refazer o origami que um dia fomos.
Uca é Ana. E esta Ana que escreve espelha a Ana que escreveu.
Anas em voo livre.
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Escantilhão
Quando eu nasci Deus entregou-me um escantilhão e, desde esse dia, tenho sido uma recortadora de vida Sigo entretida a passá-la por um escantilhão e a ser escantilhada por ela
Esse tal Deus que não tem nome – mas desceu para me visitar – deu-me olhos de lince e fome de me deslumbrar
Os olhos de lince servem para caçar as coisas delicadas que gostam de brincar às escondidas com os meros mortais para quem elas passam despercebidas e desiguais
O Deus anónimo também me deu mãos de violino para fabricar delicadezas a partir da cidade que me rodeia e o que me rodeia é esta sala que faz parte desta casa que habita neste bairro que um dia, tal como eu, também nasceu desta cidade
Mas este poema não é sobre o meu nascimento É sobre a minha chegada Hoje eu sou aquela que chega a ela própria que aterra em si
Hoje eu sou aquela que carrega os intestinos nos olhos е a garganta nas mãos
Faço a digestão de todos as montras do mundo através dos olhos E respiro o mundo dos coisas e das cidades pelos pulmões das mãos.
Você não tem medo de mim Você tem medo é do amor Que você guarda para mim Você não tem medo de mim Você não tem medo de mim Você tem medo é de você Você tem medo é de querer Me amar
“Ter nascido significa isto: não ser puro, não ser si mesmo, ter em si alguma coisa que vem de outro lugar, alguma coisa de estranho que nos leva a nos tornarmos a cada vez estrangeiros a nós mesmos.”
An envelope that contains me, Defines me, Limits me.
And everything I am is born in it. But is everything that is born in my body mine?
Universes of desires that arise and grow And multiply, Fleeting or perhaps eternal, Powerful and immense in their power Of disconcerting.
Do they belong to me?
Desires that are dreams Without flesh Or material density Or geometric contour Or palpability.
Perhaps dreams are a concrete reality, As concrete as the most consistent Of realities. Concrete like a tree or a bridge or a clothesline or a fire Or a body.m But a reality lacking the senses.
Concrete, But without dimension or volume. Without physical outline or measurability, Just intention and design. Like when you say you want to give me a hug Or a kiss, But you do not really give me a hug Or a kiss.
My body produces universes of desires, Immense in their power Of disconcerting.
O Manual compôs uma das onze instalações que fizeram parte da performance, que aconteceu no passado 19 de setembro, no m|i|mo. Além da leitura, o público foi convidado a participar, acrescentando suas próprias ideias sobre independência. Esta é uma de suas páginas.
Esta é a minha contribuição para a performance NEM BESTAS NEM SANTAS, com o tema da opressão do feminino e o patrimônio intemporal de feminilidade.
É a quarta produção NEM MARIAS NEM MANÉIS, uma companhia jovem que tem produzido trabalhos contundentes e poéticos que nos fazem sentir e questionar. E, principalmente, que nos irmanam numa experiência de coletividade. Parabéns e muito obrigada.
A performance aconteceu ontem, 19 de setembro, no m|i|mo, em diálogo com a bela exposição do nosso projeto FOTOGRAFAR PALAVRAS, em Leiria, Portugal, essa cidade que também é casa. …..
“Olha as estrelas e pensa: são minhas testemunhas. Pensa: estão a ver tudo o que sinto e faço. Tal como viram tudo o que biliões de outras mulheres sentiram e fizeram. Desde a primeira mulher que viveu. As estrelas são as mesmas. Aquelas que tu própria podes olhar enquanto pensas: são minhas testemunhas.”
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Texto: Paulo Kellerman Encenação e Dramaturgia: Cátia Ribeiro Interpretação: Andreia Mateus, Catarina Mamede, Cátia Ribeiro e Rita Rosa Movimento coreográfico: Cátia Ribeiro e Rita Rosa Ilustração ao vivo: Maraia Música: Nelson Brites Vídeo: Milady Artes manuais: Cátia Ribeiro e Sandra Ribeiro
Círculo: Daniela Mateus, Dora Fonseca, Fátima Gonçalves e Mariana Lourenço
Fotografia: Ana Gilbert, Andreia Mateus, Anna Monica Rigon, Anna Papachristou, Carina Martinho Coelho, Carolina Geiger, Cristina Vicente, Elsa Arrais, Fabiana Fraga, Federica (Final Girl 7), Jelena Stankovic, Joana Neves, Julie Flam, Martha Takahashi, Nadir Social Lens, Sêmmada Arrais, Sílvia Bernardino, Teresa Santos e Vanda Cristina