Respiras devagarinho, não te moves; e o tempo passa por ti, esvai-se, indiferente aos ruídos, aos soluços do mundo. Estamos sós, juntos por um momento que não vai durar o suficiente.
Paulo Kellerman (excerto do conto Morreste: e ainda não sabes)
UCA, o livro de Ana Sofia Elias, é viagem demorada, sem volta. Lisérgica. Uca é desajuste. É dor partilhada, sonho segredado, fantasia projetada. Uca é pausa, lugar de descanso inquieto, de entrega temerosa. E prazerosa. Uca é desafio da fala, é dança cantada. Dança das palavras, por vezes, descompassada. É grito mudo. Ensurdecedor. É beleza delicada e pulsante. É toque sutil. Por vezes, soco no estômago. Desdobra-nos pelo caminho e já não conseguimos refazer o origami que um dia fomos.
Uca é Ana. E esta Ana que escreve espelha a Ana que escreveu.
Anas em voo livre.
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Escantilhão
Quando eu nasci Deus entregou-me um escantilhão e, desde esse dia, tenho sido uma recortadora de vida Sigo entretida a passá-la por um escantilhão e a ser escantilhada por ela
Esse tal Deus que não tem nome – mas desceu para me visitar – deu-me olhos de lince e fome de me deslumbrar
Os olhos de lince servem para caçar as coisas delicadas que gostam de brincar às escondidas com os meros mortais para quem elas passam despercebidas e desiguais
O Deus anónimo também me deu mãos de violino para fabricar delicadezas a partir da cidade que me rodeia e o que me rodeia é esta sala que faz parte desta casa que habita neste bairro que um dia, tal como eu, também nasceu desta cidade
Mas este poema não é sobre o meu nascimento É sobre a minha chegada Hoje eu sou aquela que chega a ela própria que aterra em si
Hoje eu sou aquela que carrega os intestinos nos olhos е a garganta nas mãos
Faço a digestão de todos as montras do mundo através dos olhos E respiro o mundo dos coisas e das cidades pelos pulmões das mãos.
Você não tem medo de mim Você tem medo é do amor Que você guarda para mim Você não tem medo de mim Você não tem medo de mim Você tem medo é de você Você tem medo é de querer Me amar