Hoje, na publicação # 5452 do FOTOGRAFAR PALAVRAS, a parceria no texto é com a Fabiana Fraga.
A sombra falava baixo. Ela escutava.
Entre escolher e decidir, silenciosa.
O tempo, não.
…
The shadow spoke softly. She listened.
Between choosing and deciding, silent.
Time did not.
Texto | Text: Fabiana Fraga Fotografia | Photography: Ana Gilbert
Fotografar palavras, espaço de encontro entre imagem e palavra, entre pessoas. Projeto coletivo imaginado e coordenado pelo querido Paulo Kellerman. Sustentado por tod@s nós. Publicações diárias, desde 2016.
Na publicação # 5403 do FOTOGRAFAR PALAVRAS, a companhia é do belo poema do ~nassr
Lar
Reconheci-te no instante em que te encontrei — o teu sorriso, rebeldia talhada em alegria contida, as conversas que murmuravas às folhas de chá, como se o futuro se escondesse no perfume do vapor. Conhecia a tua alma muito antes de a tua pele dizer o primeiro olá. Não foi fogo, nem carne, nem vertigem, foi apenas o ver através: as tuas inseguranças — disfarçadas de armadura, o teu perfume — um mapa sem destino.
Ergui um lar dentro de ti. Mas o chão tremia, o vidro partiu-se sob o nosso peso, e o lar desfez-se — um fantasma de abrigo, deixando-me órfão de um lugar onde nunca vivi.
Procurei-te noutros rostos, derramei-me em corações abertos, na esperança de que guardassem o eco da saudade. Mas cada casa onde entrei era um quarto sem ar, um corpo sem morada.
Ser refugiado ensinou-me que os lares não se talham em pedra — a pedra cede sob o peso do exílio. Um ano, um lugar, e recomeça-se. Mas a alma cansa-se de paredes que não escutam.
Uma casa pode conter o corpo, mas é o lar que contém o coração. E se os lares que ergui nos outros nunca pudessem suportar o peso da minha alma? E se todo o coração precisar de repouso, mas nem todo o lugar o puder acolher? Talvez o lar não seja um destino. Talvez seja o instante do reconhecimento, o breve pulsar onde duas almas murmuram: “Também eu te procurava.”
***
Home
I recognised you when I met you, your grin—rebellion carved in quiet joy, your whispered debates with tea leaves as if they held your future in their scent. I knew your soul, long before your skin introduced itself. No fire of attraction, no storm of flesh, but I saw through the layers: your insecurities—dressed as armor, your perfume—a map to nowhere.
I built a home within you. The foundation trembled, glass fractured beneath our weight, and suddenly, the home dissolved— a phantom of safety, leaving me homesick for a place I’ve never been.
I searched for you in others, emptied myself into open hearts, hoping they’d catch the echo of longing, but every house I entered was a room empty of air.
Being a refugee taught me homes aren’t carved in stone; stone crumbles under the weight of exile. One year, one place, then you build again, but the soul grows weary of walls that don’t listen.
A house may hold the body, but a home holds the heart. What if the homes I’ve built in others could not hold my soul’s weight? What if every heart needs a place to rest, but not every place can carry the heart? Perhaps home isn’t a destination. Perhaps it’s the pulse of recognition, perhaps it’s the moment two souls whisper, “I’ve been looking for you, too.”
Texto | Text: ~nassr Fotografia | Photography: Ana Gilbert
É sempre uma alegria estrear nova colaboração no projeto Fotografar Palavras Na publicação # 5369, a parceria no texto é com a Rita Bertrand.
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Eis-me, aquela que amavas, diariamente enlutada, a girar incessante no redemoinho da saudade. A pior morte é esta, a que ainda respira mas já só caminha para trás.
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Here I am, the one you loved, daily in mourning, spinning incessantly in the whirlpool of longing. This is the worst death, the one that still breathes but only walks backwards.
…
Texto | Text: Rita Bertrand Fotografia | Photography: Ana Gilbert
Fotografar palavras, projeto com publicações diárias, desde 2016. Criação do Paulo Kellerman, cocriado diariamente por tod@s nós.
LEMBRETE: a 6a. exposição do Fotografar Palavras fica em cartaz no m|i|mo, em Leiria (Portugal) até o dia 9 de novembro de 2025.
Para quem não puder ir, há a exposição permanente no nosso blog. Visitem aqui.
O tempo é apenas uma sequência de acasos. A eternidade é apenas uma sequência de acasos. A existência é apenas uma sequência de acasos. Tu és apenas uma sequência de acasos.
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Time is just a sequence of coincidences. Eternity is just a sequence of coincidences. Existence is just a sequence of coincidences. You are just a sequence of coincidences.
UCA, o livro de Ana Sofia Elias, é viagem demorada, sem volta. Lisérgica. Uca é desajuste. É dor partilhada, sonho segredado, fantasia projetada. Uca é pausa, lugar de descanso inquieto, de entrega temerosa. E prazerosa. Uca é desafio da fala, é dança cantada. Dança das palavras, por vezes, descompassada. É grito mudo. Ensurdecedor. É beleza delicada e pulsante. É toque sutil. Por vezes, soco no estômago. Desdobra-nos pelo caminho e já não conseguimos refazer o origami que um dia fomos.
Uca é Ana. E esta Ana que escreve espelha a Ana que escreveu.
Anas em voo livre.
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Escantilhão
Quando eu nasci Deus entregou-me um escantilhão e, desde esse dia, tenho sido uma recortadora de vida Sigo entretida a passá-la por um escantilhão e a ser escantilhada por ela
Esse tal Deus que não tem nome – mas desceu para me visitar – deu-me olhos de lince e fome de me deslumbrar
Os olhos de lince servem para caçar as coisas delicadas que gostam de brincar às escondidas com os meros mortais para quem elas passam despercebidas e desiguais
O Deus anónimo também me deu mãos de violino para fabricar delicadezas a partir da cidade que me rodeia e o que me rodeia é esta sala que faz parte desta casa que habita neste bairro que um dia, tal como eu, também nasceu desta cidade
Mas este poema não é sobre o meu nascimento É sobre a minha chegada Hoje eu sou aquela que chega a ela própria que aterra em si
Hoje eu sou aquela que carrega os intestinos nos olhos е a garganta nas mãos
Faço a digestão de todos as montras do mundo através dos olhos E respiro o mundo dos coisas e das cidades pelos pulmões das mãos.