“Se te pareço ausente, não creias:
hora a hora minha dor agarra-se aos teus braços,
hora a hora meu desejo revolve teus escombros,
e escorrem dos meus olhos mais promessas.
Não acredites nesse breve sono;
não dês valor maior ao meu silêncio;
e se leres recados numa folha branca,
não creias também: é preciso encostar
teus lábios nos meus lábios para ouvir.
 
Nem acredite se pensas que te falo:
palavras
são meu jeito mais secreto de calar.”

Palavras | Lya Luft (Mulher no palco)

Ficção em 8 atos

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“Talvez eu seja
O sonho de mim mesma.
Criatura-ninguém 
Espelhismo de outra 
Tão em sigilo e extrema
Tão sem medida
Densa e clandestina
 
Que a bem da vida
A carne se fez sombra.

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Talvez eu seja tu mesmo
Tua soberba e afronta.
E o retrato
De muitas inalcançáveis 
Coisas mortas.

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Talvez não seja.
E ínfima, tangente
Aspire indefinida
Um infinito de sonhos
E de vidas.” 

Palavras | Hilda Hilst (Cantares de perda e predileção, XLVI)

(obrigada, R. R.)

“Ver as coisas é que eram as coisas.”

Palavras | Clarice Lispector (A cidade sitiada)

Novo…

Primeiro azul do ano…

“Para compor um tratado sobre passarinhos
É preciso por primeiro que haja um rio com árvores e palmeiras nas margens.
E dentro dos quintais das casas que haja pelo menos goiabeiras.
E que haja por perto brejos e iguarias de brejos.
É preciso que haja insetos para os passarinhos.
Insetos de pau sobretudo que são os mais palatáveis.
A presença de libélulas seria uma boa.
O azul é muito importante na vida dos passarinhos
Porque os passarinhos precisam antes de belos ser eternos.
Eternos que nem uma fuga de Bach.”

Palavras | Manoel de Barros (Tratado geral das grandezas do ínfimo)

Another intensity

“Here and there does not matter
We must be still and still moving
Into another intensity
For a further union, a deeper communion
Through the dark cold and the empty desolation,
The wave cry, the wind cry, the vast waters
Of the petrel and the porpoise. In my end is my beginning.”

Words | T.S.Eliot (Four Quartets, East Coker)

Ainda assim

“… nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
ainda assim,
escrevo.”

Palavras | Mia Couto [poemas escolhidos]

clareza

se eu tivesse que escolher uma cor para as tuas palavras seria o cinza.
não pelo negrume da tristeza. bonito esse teu negrume. seria pela calma. é isso. pela calma que me trazes às margens das manhãs ou das tardes.
conforme a inclinação do sol.

as tuas palavras só não têm a cor branca porque não as descobriria nesta folha.
mas são brancos, esses bordados de luz que te escorrem entre os dedos.

Palavras | Isabel Pires (a permanência da memória dos dias de sal)