Não me lembro de ti Nem do teu rosto Nem da tua voz ou de te ouvir rezar Não me lembro das tuas mãos no meu cabelo Nem do teu colo Nem do som dos teus passos Nem do teu cheiro Não me lembro da cor dos teus olhos a olhar para os meus Cheios de orações e de infinito Cheios de cansaço Não me lembro do teu terço pendurado no teu pescoço antes de ser meu Não me lembro do teu nome nem do meu nome na tua boca Nem de me chamares Nem de me abençoares com palavras antigas ditas em latim Benedicat tibi Dominus Não me lembro de seres o meu anjo Nem do arrastar das tuas asas Nem de me velares o sono e me guardares dentro da tua alma Sossegada Não me lembro se fui um poema casto Inacabado, intraduzível, dissonante Ditado por Deus em aramaico e que recitaste por acaso na penumbra da tua cela Como uma profecia que não se cumpriu Não me lembro de ser contigo o que não nunca cheguei a ser O que nunca consegui ser Só me lembro da tua sombra A caminhar Do barulho das tuas vestes num corredor imenso a ecoar como um cântico.
Maria dos Anjos
I don’t remember you Or your face Or your voice or hearing you pray I don’t remember your hands in my hair Or your lap Nor the sound of your footsteps Or the smell of you I don’t remember the color of your eyes looking into mine Full of prayers and infinity Full of weariness I don’t remember your rosary hanging around your neck before it was mine I don’t remember your name or my name on your lips Nor your calling me Nor blessing me with ancient words spoken in Latin Benedicat tibi Dominus I don’t remember you being my angel Nor the flutter of your wings Or watching over my sleep and keeping me in your soul Quiet I don’t remember if I was a chaste poem Unfinished, untranslatable, dissonant Dictated by God in Aramaic and which you recited by chance in the penumbra of your cell Like a prophecy that didn’t come true I don’t remember being with you what I never got to be What I never managed to be I only remember your shadow Walking The rustle of your clothes in an immense corridor echoing like a song.
Gosto de imaginar que o tempo é um autocarro em andamento. O tempo avança, tal como um autocarro avança; e nós lá dentro. Um autocarro que tem janelas que nos permitem olhar para além do tempo; e fixar. (O tempo transporta-nos: somos passageiros do tempo.) O olhar é o mecanismo de que dispomos para trazer para o interior do autocarro – do tempo – aquilo que consideramos importante.
Aquilo que vemos fica guardado no nosso interior, integrando-se em nós; e nós fazemos parte do tempo: porque estamos no interior do autocarro. (Transportamos o tempo: o tempo é nosso passageiro.) O tempo leva-nos consigo, a nós e a todos os pedaços de vida que recolhemos quando olhamos; à vida que vamos acumulando, compondo a nossa bagagem. Espantos. Ternuras. Prazeres. Enigmas. Partidas. Esperas.
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I like to imagine that time is a moving bus. Time moves forward, just as a bus moves forward—with us inside. A bus with windows that let us look beyond time and hold on to what we see. (Time carries us: we are passengers of time.) Our gaze is the mechanism we have to bring into the bus—into time—what we deem important.
What we see is stored within us, becoming part of who we are; and we are part of time, for we are inside the bus. (We carry time: time is our passenger.) Time takes us along, together with all the fragments of life we gather as we look; with the life we accumulate, composing our baggage. Wonders. Tenderness. Pleasures. Enigmas. Departures. Waiting.
Duas Anas numa aeronave improvisada a (des)pilotar a caminho de. Pausa e ponto de interrogação. Tocamo-nos no escuro e iluminamos arquipélagos. Fluida-Mente.
Esta é uma colaboração especial que nasceu de um exercício de escrita orgânico e fascinante entre mim e a Ana e de um lugar de curiosidade mútua.
A(ero)NA(ve)S
{~Texto zipado para desdobrar em imagens~}
e o que queres fazer?
Eros, erótico, está sempre presente na criação
O dedo (in)vísivel
que percorre a pele da palavra
e os poros da fotografia.
Captar o hálito da imagem
e fugir do hábito da palavra
para habitar a palavra
que faz montanhas parirem retratos
|| parir em retratos
o desejo que se vê
dentro da cabana do acento circunflexo
havia fios de trama || ou ele passa por baixo || ou ele passa por cima ||
dos fios de urdume ||
é o jacquard de entre_peles
que nos veste a timidez
e desloca inflexões
– Passa-me um Marlboro. Ali atrás da persiana
(ecoo-me para tocar-te)
O arranha-céus de jacquard rasga o tecto da cabana
Delírio a céu aberto.
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[O texto foi escrito a quatro mãos com a Ana Sofia Elias | a foto é minha]