
o escuro não se aligeira sob o alçapão
a casa é um alvo o meu predador entra
nunca diz
Valter Hugo Mãe (publicação da mortalidade)

o escuro não se aligeira sob o alçapão
a casa é um alvo o meu predador entra
nunca diz
Valter Hugo Mãe (publicação da mortalidade)


Obrigada por tanto.

Não sei bem como começou. Há muito que os dias estão sem contornos. Só sei das horas em que consigo fumar e esquecer de mim. Porque não há nada na minha vida antes da rua de que valha a pena lembrar; porque não sou sequer uma pessoa. Sinto que vou perdendo pedaços pelas ruas por onde vagueio; eles aderem às escadas calçadas bancos onde me encosto. Ficam os buracos na carne. Por eles, vaza a podridão da minha existência. Estou condenado a este presente sem horizonte. Durmo e acordo neste agora, que me engole com a voracidade traiçoeira de um pântano. Debato-me e não saio do lugar. Não há onde possa segurar, alguém que me possa amparar. Apenas este sabor a morte, este cheiro acre que me devolve a presença do mundo, este mundo feito de mijo, vômito e merda. Afundo.
Por vezes, penso que poderia ser um sonho ruim. E que acordaria sobressaltado e ofegante ao som de um despertador qualquer, numa cama feita de branco. Ao meu lado, alguém pousaria a mão sobre a minha pele assustada e diria que está tudo bem. Talvez um dia aconteça, se eu quiser muito. Mas não sei como é querer, desejar algo, ser desejado. Não consigo imaginar, imaginar-me, perceber o que sustenta os meus fragmentos. Sei apenas da exaltação anestesiante que o fumo me traz; da consciência aguda dos movimentos do corpo. E da vontade de foder, não importa com quem. Por instantes, a necessidade insaciável do corpo, o pau intumescido a penetrar em outro corpo, tão sem contornos quanto o meu, basta para apagar dos meus olhos o desejo de ver a beleza que não faz parte de mim. Depois da explosão do gozo sem prazer, é o afastar dos corpos suados, a respiração agitada, a pele sem registros, o vazio. Não sei quando foi a última vez que comi. O ódio aplaca a fome. Revirar as lixeiras exaure. Ou é esta existência informe que cansa; o olhar de nojo das pessoas que passam por mim e viram a cara para que a minha imagem não lhes invada os sonhos. Cansa esta realidade partida, feita de planos sobrepostos não comunicantes, com seus enredos e encenações; películas elásticas que se deformam ao toque e engolem a voz.
Não sei bem como começou. Uma angústia envolta em fogo e dor. Ele estava ali, deitado na praça, e me incomodou desde o primeiro momento em que o vi. Tem algo que não tenho e quero e preciso. Uma altivez, um ar de interesse, uma fagulha de vida. Quis conversar comigo. Insistente. Falava de algo, não me lembro o quê, talvez sobre passados e famílias. Resmunguei qualquer coisa e tentei sair fora; sentei no meu canto feito de papelão e fechei os olhos. Tinha acabado de fumar e senti o ódio crescer no peito e nas mãos. O corpo a se agitar. Pensei que poderia deixar de estar ali, desaparecer, sair caminhando pelas ruas, encontrar um cachorro e despejar nele o meu desespero. Mas a voz, irritante irritante irritante, continuou.
– Para, chega – levanto-me, parto para cima dele, desprevenido e entregue, olhos assustados, meus dedos selvagens agarram os cabelos, já não distingo dedo e fio, começo a golpear a sua cabeça contra o piso da calçada, não sinto nada, não vejo os seus esgares de dor, não escuto os seus murmúrios, recuso a sua humanidade, desprezível como a minha, vejo o sangue da vida entreaberta a escorrer na calçada, ganho força e sei naquele minuto que ele deve morrer, o ritmo das batidas é constante, confunde-se com as pancadas do meu coração, somos um nesta dança frenética e mortal, escuto um estalar de ossos e o prazer de imaginar a face deformada aumenta-me o tamanho, sinto-me um gigante invencível, sou violência e ocupo um espaço neste mundo feito de praça e sangue, sou corpo e existo fora do pântano, sou ritmo e o tempo volta a passar [explosão]
(in A respiração do tempo, Minimalista, 2022)

Sentes o perfume das rosas da alma nua, nua em suas imponentes asas?

quando desces da montanha
trazes contigo o rumor dos sobreiros
e o hálito agreste da urze colado à pele.
há sempre um frio que te antecede,
como se a geada te tivesse escolhido
para corpo e manto.
eu, que me perco nas planícies,
reconheço em ti a altura do que não alcanço.
não desces apenas
trazes um mundo em suspensão,
um tremor antigo que me percorre os ossos
como um bicho indizível.
o sol recua para te deixar passar.
os charcos, esses, guardam o reflexo do teu riso
como quem aprende a arte da claridade.
e eu, que há muito deixei de esperar,
espero-te.
porque quando desces da montanha
sinto o meu corpo regressar ao seu princípio:
um sopro húmido, uma lembrança de lume,
o desejo de me perder outra vez
num inverno, que apesar de denso
deve acolher a claridade dos cristais.
Poema | Rui Coutinho

já não há santos nos oratórios.
[Gaza também é aqui]
…
there are no saints left in the shrines.
[Gaza is here too]

Perseguia sonhos na bainha do silêncio.

memória é o que se vê com os olhos da imaginação.
[no dia em que fui mais feliz]

um instante na memória de chegares é mais valioso do que jardins, do que montanhas, do que anos de tempo.
José Luís Peixoto (A Casa, a Escuridão)

e das ausências que se fazem presentes. Sempre.

“Nós somos um mesmo mundo e uma mesma substância”.
Emanuele Coccia (Metamorfoses)
[isto também é sobre Gaza]


“Somos essa vida que compartilha o corpo de um outro, prolongada e levada para outro lugar.”
Emanuele Coccia (Metamorfoses, 2022)

Ouves?

“Antes longe era distante
Perto, só quando dava
Quando muito, ali defronte
E o horizonte acabava”
Gilberto Gil

o medo que nos separa

“A memória não lhe veio aos poucos, despencou como uma avalanche na sua cabeça”.
Ghassan Kanafani (Retorno a Haifa)

“Morar não significa apenas estar cercado por qualquer coisa, nem ocupar determinada área no espaço terrestre. Significa criar um vínculo tão intenso com certas coisas e certas pessoas que a felicidade e a nossa respiração se tornam inseparáveis.”
Emanuele Coccia (Filosofia da casa)



antes do poema
está a fome
durante o poema
a matança
Valter Hugo Mãe (publicação da mortalidade)