Doem-me as asas

“As asas doíam-lhe, como se tivessem sido enterradas à força na carne. Eram vermelho-fogo. Lindas e brilhantes. Verdadeiras. Só a verdade dói.” (Mónia Camacho)

DOEM-ME AS ASAS

Uma das qualidades que me encanta na escrita da Mónia Camacho é a sua capacidade de criar ‘espaços’ entre as palavras que se percebem de forma sutil, indiciária. Esses espaços se abrem ao leitor e permitem que ele se espalhe; que os explore e percorra, criando suas próprias paisagens, vislumbrando outros mundos possíveis. E no romance Doem-me as Asas não é diferente: esta qualidade está presente de forma marcante, em especial nas frases curtas que a Mónia tão bem cria e faz uso. Frases que dizem muito mais do que se pode ler nas palavras impressas.

Ao avançar na leitura do romance, vou aos poucos registrando diferentes camadas que guiam o meu olhar. Camadas que se entrelaçam, sobrepõem ou seguem paralelas. Uma primeira camada é a do enredo propriamente dito, e que me leva a mergulhar na história que carrega um tom de ficção científica, ou de fantástico. Mas, principalmente, uma história que fala do sentir humano e que vai além dos rótulos.

Em simultâneo, percebo uma segunda camada que traz uma angústia subliminar porque toca de forma incisiva no que me parece ser um ‘futuro atual’. Apesar do texto ter sido escrito muito antes da pandemia do novo coronavírus e se referir a um futuro impreciso, ele traduz percepções que me ocorrem diante do nosso cenário hoje: término de um mundo conhecido, esgotamento de um excesso de racionalidade que se conecta à perda de certos valores humanos, relação íntima entre capitalismo, desastre ambiental e produção de ideias e imagens demasiado contundentes, tais como refugiado, imunidade, cisão do mundo.

Diante dessas reflexões sobre a nossa existência, deparo-me com a terceira camada: a de uma viagem interna em que a personagem feminina, Glória, vai em busca de conexão, de (re)encontro consigo mesma, guiada por uma imagem produzida por uma instância autônoma, fora da sua consciência. E é essa busca por compreender a imagem que a torna uma presença fundamental na (re)construção de uma outra forma de mundo, ou de consciência.

Há, ainda, uma quarta camada, a camada das referências (afetivas, talvez) não apenas literárias, mas artísticas de modo geral. Como pequenas marcações que me guiam no percurso da leitura e que trazem questionamentos sobre a arte e a escrita, sobre o papel e a importância da imaginação e da criatividade como sustentáculos da vida psíquica.

Os textos da Mónia traduzem a sua curiosidade pelo humano. O romance avança pela trajetória da nossa condição de seres individuais e coletivos e da responsabilidade pela forma como nos relacionamos com a alteridade; desdobra os desejos de luz e sombra, de vida e morte que nos habitam. Lembra-nos de que somos feitos de matéria opaca e transcendência. De efemeridade e eternidade.

Uma publicação Minimalista

[intervenção em fotografia]

Doem-me as asas

Foto: Ana Gilbert

As noites eram, ao mesmo tempo, terríveis e magníficas.
O céu brilhava em estrelas infinitas. E a beleza raramente é em vão.
A sensibilidade é um dos maiores indicadores de evolução; e captar a beleza é o primeiro passo para o desenvolvimento humano.

Excerto de DOEM-ME AS ASAS, o novo romance de Mónia Camacho.

Uma publicação Minimalista

CONVERSAS MINIMALISTAS

3 de julho de 2021, às 15 horas (19 horas em Portugal)

Neste primeiro evento Minimalista, vamos conversar sobre o romance da Mónia Camacho, DOEM-ME AS ASAS.
Percepções, pensamentos, emoções, questionamentos… Vamos partilhar com a autora o que o livro nos provoca. O evento será pelo zoom.

Quer participar? É só se inscrever gratuitamente pelo e-mail: minimalista.editora@gmail.com

O livro já está disponível para venda no Brasil!

Corpo

Talvez em sonhos o corpo nunca seja aquele com que se vive de dia.

DOEM-ME AS ASAS, romance de Mónia Camacho

Uma publicação Minimalista

Um tigre à porta da Sé

“Quem somos quando não somos nós?”

Palavras | Mónia Camacho (Um tigre à porta da Sé)

Esta pergunta ecoa por todo o livro da Mónia Camacho. E lateja dentro de mim. Convida-nos a percorrer o caminho em busca do que somos, de como nos definimos perante nós mesmos e os outros, e a pensar sobre o ato da escrita. Leva-nos a refletir sobre as fronteiras que criamos numa tentativa de nos dar contornos e de nos proteger do outro, mas que podem sufocar com acúmulos que não dizem de nós. Somos o que imaginamos ser? Podemos imaginar o que somos? Reescrever o que somos?