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“Formam-se assim lentamente crostas: dentro de cada ser, como dentro das casas de granito salitroso, as paixões tecem na escuridão e no silêncio teias de escuridão e de silêncio.”

Texto: Raul Brandão (Húmus)

Água 6

“Passou um minuto ou um século? Sobre o granito salitroso assenta outra camada denegrida, e as horas caem sobre a vila como gotas de água de uma clepsidra.”

Texto: Raul Brandão (Húmus)

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“As esquinas de nossa cidade em que me aguardas a todo tempo deixaram de ser caminhos que se tocam. Lembras daquela brincadeira em que grudávamos tira sobre tira de papel com cola de água e farinha e criávamos cruzes, encruzilhadas, estrelas, raios de rotunda? Não. Não tens jeito de criança. Vi-te outro dia, nem cinco anos tinhas, jogando bolinhas de papel na contramão da escada rolante. O guarda brandiu o seu cassetete de borracha. Só querias ver se as bolinhas voltavam. Para ti.”

Fotografar palavras

Projeto: Paulo Kellerman

Texto: Lorena Kim Richter

Novo, de novo…

Primeiro azul do ano…

Céu e sombra

 

Borboletas

Borboletas me convidaram a elas.
O privilégio insetal de ser uma borboleta me atraiu.
Por certo eu iria ter uma visão diferente dos homens 
e das coisas.
Eu imaginava que o mundo visto de uma borboleta –
Seria, com certeza, um mundo livre aos poemas.
Daquele ponto de vista:
Vi que as árvores são mais competentes em auroras 
do que os homens.
Vi que as tardes são mais aproveitadas pelas garças 
do que pelos homens.
Vi que as águas têm mais qualidade para a paz do 
que os homens.
Vi que as andorinhas sabem mais das chuvas do que 
os cientistas.
Poderia narrar muitas coisas ainda que pude ver do 
ponto de vista de uma borboleta.
Ali até o meu fascínio era azul.
(Manoel de Barros, Ensaios fotográficos)