
I miss dreaming. I miss lightness. I miss the ordinary.
Tenho saudades de sonhar. Tenho saudades da leveza. Tenho saudades da banalidade.

Tenho saudades de sonhar. Tenho saudades da leveza. Tenho saudades da banalidade.

Triturei os últimos dias
dispu-los numa linha
e inalei-os como cocaína
A felicidade pode ser endógena
Os dias,
substâncias químicas:
uma droga.
E eu encontrei um bom dealer.
Ana Sofia Elias (Uca, 2024)
[ensaio com a Ana Sofia Elias]

Limitamo-nos a desejar, estamos sempre prisioneiros de um desejo qualquer; e, por vezes, até vamos atrás dele, perseguimo-lo perseverantemente; mas chegamos lá e não é nada daquilo, encontramos apenas uma decepção. Ou até é aquilo que queríamos, que procurávamos; mas, no fundo, é irrelevante. Porque começamos logo a desejar outra coisa qualquer.
***
We limit ourselves to desire; we are always held captive by one desire or another; and sometimes we even go after it, pursuing it relentlessly; but when we reach it , it is nothing like what we imagined, we find only disappointment. Or perhaps it is precisely what we wanted, what we were looking for; yet, deep down, it proves to be irrelevant. Because almost immediately we begin to desire something else.


[dialogue series]

E se fossem os sentimentos a escolherem as pessoas, tal como as pessoas escolhem as casas onde querem viver?
E se as pessoas fossem, afinal, simples casas onde os sentimentos podem habitar?
What if feelings chose people, just as people choose the houses they want to live in?
What if people were, after all, simply houses where feelings could dwell?
Portable Link, projeto com Paulo Kellerman. Um diálogo entre literatura e fotografia, entre imagem e palavra.


Quem não pensa, não sente.
Quem sente, não pensa.
Whoever doesn’t think, doesn’t feel.
Whoever feels, doesn’t think.
Paulo Kellerman & Ana Gilbert


o andar do caminho e do trabalho… a duas,, três mãos…
com Sigrid Haikel.


Caminha na minha direcção, mas não
me vê; agita a mão, mexe os dedos como
se tentasse agarrar o ar. Apesar do seu
comportamento peculiar, a expressão é
pacífica, a postura é tranquila.
Pergunto: Tentas pegar o ar com a mão?
Sorri. Responde: Não, tento agarrar o
amor.
Passa por mim e afasta-se, conduzido
pelo seu sorriso; e assim desapareço da
sua vida. Nem memória serei.
Vejo como se afasta, vejo como
desaparece; e enquanto vejo, pergunto:
será que já não existe amor em mim?
***
She walks in my direction, but does not see me; she agitates her hand, moves her fingers as if trying to grab the air. In spite of her peculiar behaviour, her expression is pacific, her posture is calm.
I ask: Are you trying to catch the air with your hand?
She smiles. And answers me back: No, I am trying to grab love.
She passes by and walks away, lead by her smile; and then I disappear from her life. I will not be even a memory.
I see how she walks away, I see how she disappears; and as I watch her, I ask myself: Is there no longer love in me?
photographs by Ana Gilbert
text by Paulo Kellerman
[in Geografias Corporais, Alter Edições, 2022]

Diálogo entre fotografia e literatura | a dialogue between photography and literature
Paulo Kellerman & Ana Gilbert

UM LUGAR DE PASSAGEM, projeto com Frankie Boy (2024), agora em formato digital.
uma câmera
um rolo de filme
dois fotógrafos
Frankie Boy fotografou Ana Gilbert
Ana Gilbert fotografou Frankie Boy
[edição bilíngue]
…
A PLACE OF PASSAGE, a project with Frankie Boy (2024), now in digital format.
a camera
a roll of film
two photographers
Frankie Boy photographed Ana Gilbert
Ana Gilbert photographed Frankie Boy
[bilingual edition]

com Jorge VAz Dias


É sempre uma alegria estrear nova colaboração no projeto Fotografar Palavras
Na publicação # 5369, a parceria no texto é com a Rita Bertrand.
…
Eis-me, aquela que amavas, diariamente enlutada,
a girar incessante no redemoinho da saudade.
A pior morte é esta, a que ainda respira
mas já só caminha para trás.
…
Here I am, the one you loved, daily in mourning,
spinning incessantly in the whirlpool of longing.
This is the worst death, the one that still breathes
but only walks backwards.
…
Texto | Text: Rita Bertrand
Fotografia | Photography: Ana Gilbert
Fotografar palavras, projeto com publicações diárias, desde 2016. Criação do Paulo Kellerman, cocriado diariamente por tod@s nós.
LEMBRETE: a 6a. exposição do Fotografar Palavras fica em cartaz no m|i|mo, em Leiria (Portugal) até o dia 9 de novembro de 2025.
Para quem não puder ir, há a exposição permanente no nosso blog. Visitem aqui.

O tempo é apenas uma sequência de acasos. A eternidade é apenas uma sequência de acasos. A existência é apenas uma sequência de acasos. Tu és apenas uma sequência de acasos.
***
Time is just a sequence of coincidences. Eternity is just a sequence of coincidences. Existence is just a sequence of coincidences. You are just a sequence of coincidences.
Text: Paulo Kellerman


UCA, o livro de Ana Sofia Elias, é viagem demorada, sem volta.
Lisérgica.
Uca é desajuste.
É dor partilhada, sonho segredado, fantasia projetada.
Uca é pausa, lugar de descanso inquieto, de entrega temerosa. E prazerosa.
Uca é desafio da fala, é dança cantada.
Dança das palavras, por vezes, descompassada.
É grito mudo.
Ensurdecedor.
É beleza delicada e pulsante.
É toque sutil. Por vezes, soco no estômago.
Desdobra-nos pelo caminho e já não conseguimos refazer o origami que um dia fomos.
Uca é Ana.
E esta Ana que escreve espelha a Ana que escreveu.
Anas em voo livre.
***
Escantilhão
Quando eu nasci
Deus entregou-me um escantilhão e, desde esse dia, tenho sido uma recortadora de vida
Sigo entretida
a passá-la por um escantilhão
e a ser escantilhada por ela
Esse tal Deus que não tem nome – mas desceu para me visitar –
deu-me olhos de lince
e fome de me deslumbrar
Os olhos de lince servem para
caçar as coisas delicadas
que gostam de brincar às escondidas
com os meros mortais
para quem elas passam despercebidas
e desiguais
O Deus anónimo
também me deu mãos de violino
para fabricar delicadezas a partir da cidade que me rodeia
e o que me rodeia é esta sala que faz parte desta casa
que habita neste bairro
que um dia, tal como eu, também nasceu desta cidade
Mas este poema não é sobre o meu nascimento
É sobre a minha chegada
Hoje eu sou aquela que chega a ela própria que aterra em si
Hoje
eu sou aquela que carrega os intestinos nos olhos
е a garganta nas mãos
Faço a digestão de todos as montras do mundo
através dos olhos
E respiro o mundo dos coisas e das cidades pelos pulmões das mãos.
O delicado é
o meu fado.
Ana Sofia Elias (Uca, 2024)

Se o mundo permitisse, hoje eu seria pássaro.
If the world allowed it, today I would be a bird.
Text: Paulo Kellerman

O presente ensaio celebra os 150 anos de nascimento de Carl G. Jung e seu brilhante entendimento do ser humano como ser criativo.
O texto aborda o tema da ética de hospitalidade em análise. Para tanto, parte da arte, mais especificamente, da ópera contemporânea portuguesa O Tempo (Somos nós), cujo libreto é de autoria de Paulo Kellerman, para iluminar a prática clínica, tendo por base o texto O Banquete, de Platão, em articulação com a psicologia analítica.
Tanto na ópera quanto no processo analítico, Eros surge como fenômeno mais amplo, capaz de restaurar uma possibilidade criativa que reacende a alma, enquanto lugar da experiência do indivíduo, e de integrar aspectos dissociados da psique individual e coletiva.
***
This paper examines the subject of hospitality in analysis. It starts from art, more specifically the contemporary Portuguese opera Time (As we are), whose libretto was written by Paulo Kellerman, to illuminate the clinical activity based on Plato’s Symposium, in articulation with the analytical psychology.
Both in the opera and in the analytical process, Eros emerges as a broader phenomenon, capable of restoring a creative possibility that rekindles the soul as a locus for the individual experience, and of integrating dissociated aspects of the individual and the collective psyche.
TEXTO COMPLETO PARA DOWNLOAD AQUI